segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Dialogando sobre o Diálogo



Caro dialogador Oliveira, boa tarde!!!

Já estou em “Berlandia” e com vontade de começar a “jogar”. Vou sacar com slice e o objetivo é caracterizar o diálogo como uma fertilização mútua (in e-mail) para, como produtores e produtos de nós mesmos, irmos nos construindo. Ou como diz você: “nos levantando, puxando nossos próprios cabelos”. O saque é com slice por que antes da bola atingir o objetivo proposto ela vai fazer um pequeno desvio na sua trajetória, beleza?

O desvio se inicia comentando sua definição de ateu em seu último e-mail: “Ateu é aquele que não precisa de Deus”. Consinto com a essência e praticidade da sua definição. Se fosse eu que a tivesse proposto teria dito: ... não conta em vez de “... não precisa...” É a mesma coisa? Ou não? Sei lá. O importante é que consinto com a definição e com minha escalação no seu time. Desse modo, pode me considerar um ateu(zão), pode ser na posição de “volante”? Quanto ao resto do time que você escalou, não colocaria o meu amigo-irmão Marlos pra jogar. Não por que o bio dele já se foi, se assim fosse teria que barrar os outros dois (Krishnamurti e Fernando Pessoa) que os bios também já se foram, mas por perceber nos diálogos com o Marlos (e aqui já incluo o conceito de diálogo de Humberto Mariotti: “diálogo – reflexão conjunta e observação cooperativa da experiência”), que em alguns jogos, por exemplo, no jogo doença, ele se colocava vamos assim dizer: nas mãos de Deus. É claro que ele não tinha as expectativas da Lucinha e nem rezava por um lugarzinho no céu dela.

Nesse saque, caberia mais uma desviadazinha na trajetória antes da bola atingir o objetivo proposto. Seria sobre o que pensamos que somos, referido no último e-mail: se somos só bio ou algo mais que o comportamento dos genes. Mas esse assunto, refletir sobre o que somos, vamos deixar para outro jogo, beleza?

Agora é bola no objetivo. Em um e-mail que lhe enviei, há algum tempo, fiz uma proposta de estratégia para nossos diálogos: "que estes deveriam ser úteis para consolidar nossas compreensões e que estas pudessem ser incorporadas ao nosso viver diário", lembra? Pois bem, apesar de continuar sendo uma metamorfose ambulante, a idéia continua válida. Hoje, penso que até mais sólida, ou melhor, mais consciente. Por isso vou reforçar a importância deles e, mais que isso, justificá-la.

Em primeiro lugar vou destacar o diálogo à distância (por e-mail). Essa modalidade se por um lado perde o “olho no olho”, o afago, a troca de energia física, a mímica corporal ganha por outro ao evitar nosso automatismo concordo-discordo. Esse automatismo não nos deixa escutar o outro até o fim o que ele tem a dizer. Enquanto o outro ainda está a falar já entramos no processo de elaborar mentalmente nossas discordâncias ou precipitadas concordâncias. O automatismo concordo-discordo no diálogo a distância é minimizado, pois só vamos elaborar nossa manifestação após ter lido toda a comunicação. Eis minha justificava para fortalecer nossos diálogos à distância, meu automatismo concordo/discordo vai pro beleleu.

Em segundo lugar vou definir meu principal objetivo na ocasião dos nossos diálogos: produzir e compartilhar compreensões e experiências. Penso que a dinâmica dos diálogos, ou “rede de conversações”, favorece o nosso aprender e apreender no viver diário. Ou seja, nossos e-mails dialógicos nos faz refletir, reorganizar nossas idéias, (re)construir memes/pensamentos, enfim construirmos/sermos um novo ser e, paradoxalmente, mantermos nossa estrutura, nossa identidade. A interação nos diálogos é como no dizer de Maturana: “o pé esta sempre se ajustando ao sapato e vice-versa.”. Complemento: como indivíduos distintos, percebemos a realidade de modos diferentes e um pé ao experimentar o sapato do outro continua pé como o sapato não deixa de ser sapato, mas a estrutura de nenhum dos dois é a mesma, depois do diálogo. Desse modo, não posso, não quero e não devo ser um observador independente, mesmo como produtor e produto de mim mesmo, necessito do outro para me produzir. É como diz Humberto Mariotti:

Ninguém faz nada sozinho. Precisamos do outro desde que nascemos: é ele quem confirma a nossa existência e a recíproca é verdadeira. Logo, não há desenvolvimento humano sem desenvolvimento interpessoal. Não se vive sem ajuda – e toda ajuda vem de alguém.”

Compartilhador Oliveira, muito do esforço que faço para fortalecer o meme/pensamento de uma “rede de conversação” é apoiado num artigo do Humberto Mariotti intitulado: “DIÁLOGO: UM MÉTODO DE REFLEXÃO CONJUNTA E OBSERVAÇÃO COMPARTILHADA DA EXPERIÊNCIA.” O link para esse artigo é: http://www.geocities.com/pluriversu/dialogo.html

Penso com(o) Mariotti: é importante dar atenção tanto aos pontos de vista que discordamos quanto aos que concordamos. E isso não significa que devemos concordar/discordar, significa que o contato com a diversidade é indispensável para aprendizagem e abertura na nossa mente.

Por hoje chega de Mariotti/Krishinamurti/Maturana. Vou recomeçar meus treinos de tênis pra ver se no próximo torneio minha sobrevida é maior(zinha). Um abração, FUUUUUI!!!

Roberto Lira - rjtlira@yahoo.com.br

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Caro Roberto,

Estou voltando. No pequeno e-mail, que enviei anteriormente, alego um motivo de força menor para não lhe responder, nem explicitei este motivo, nem o porquê de ser de força menor. É muito simples. Eu me senti precisando de N. S. Aparecida para dar uma “vagabundadazinha”. Afinal de conta se não fosse o dia dela não teríamos o feriadão. Pois tenho certeza que, só pelas crianças ou pela a América, não haveria feriado nacional. O Brasil é um país oficialmente religioso, pois nossas elites ainda precisam do voto de Deus. Passadas as eleições, tornam-se ateus por 3 anos e se convertem no quarto (sem trocadilhos), outra vez.

Embora você diga que o Marlos não jogava no nosso time, e eu não o conhecia pessoalmente para dizer o contrário, penso que a ideia dele de estar nas mãos de Deus, quando doente, acontece com alguns dos melhores do nosso time. Apesar de sermos uma “máquina de sobrevivência” poderosa, temos nossos momentos de fraqueza. Um bom relato de uma experiência deste tipo veio do nosso “meia-armador” Dráuzio Varella no seu livro: “O Médico Doente.” Ele resistiu pela força de sua razão e conhecimentos da área médica. Se encontrar este livro por ai em pdf eu o colocarei em nossa biblioteca. No entanto, pelo que li do Marlos e soube de sua vida, em qualquer time ele seria titular.

O Diretor Presidente andou por Bom Conselho, sua terra por estes dias. Andou sondando algumas pessoas sobre nossos diálogos, etc. Caro amigo, estamos mais sujos do que pau de galinheiro. Eu mais ainda, que nem imortal e nem da cidade sou. A notícia boa é que, junto com o Blog da CIT, somos lidos e comentados. O DP disse que tem muito ateu “enrustido” naquele nosso rincão. Só não espere encontrar um político eleito, jogando em público pelo nosso time.

Adorei que você concordasse com a minha definição pragmatista de Ateu. Podemos conversar mais a vontade comungando nossa fé. O que é difícil é o roteiro para os diálogos, não lembro dos passos, mas estou me esforçando, com o tempo talvez me transforme num bom dialogador.

Entretanto, concordo que o automatismo concordo/discordo deva ser minimizado. Discordo apenas que ele possa ser inteiramente descartado. Não escreveria a frase anterior se não acreditasse nisso. Quando você diz: “...vou definir meu principal objetivo na ocasião dos nossos diálogos: produzir e compartilhar compreensões e experiências.”... Cessa o automatismo porque eu concordo, se este compartilhamento envolver também as pessoas que nos lêem. E sei que você concorda inteiramente comigo pois todas as citações no seu e-mail compartilham este ponto de vista (tanto o Maturana quanto o Mariotti). Quando escrevo, penso em publicar, e publicando, alguém pode ler. O meu número de leitores pode ser zero, e era bem próximo disso antes de começar o diálogo com você. Mas para mim este zero conta. Em nossos diálogos eu já ajustei o sapato um monte de vezes, e alguns que nos lêem, talvez já estejam usando Havaianas (aquelas que não tem cheiro, não deformam e não soltam as tiras, lembra?).
Li o artigo do Mariotti que você indicou, e o achei tão importante que o estou colocando em nossa Biblioteca. Nele pincei este pensamento:

Não existe um padrão de comportamento ideal para o diálogo. ... as (poucas) regras do método dialógico são apenas operacionais. Além disso não podem ser tomadas como normas rígidas, pois isso quebraria a naturalidade do processo. Não nos esqueçamos de que o compromisso básico de quem entra em um grupo de diálogo é suspender a atitude habitual, ou seja, procurar afastar a rigidez dos condicionamentos.”

Com ele fiquei mais tranquilo, pois de qualquer forma estamos dialogando. Quando houver rigidez de condicionamentos, acontecerá pelo meu viés mercantilhista utilitário formado em tantos anos vivendo no capitalismo selvagem.
O que muitas vezes me leva a discordar de pensadores que tentam nos ensinar a pensar é minha convicção de que nossa cultura (e aqui envolve tudo que nossos genes contruiram além do nosso corpo, em termos de instituições sociais) condiciona nosso pensamento num vai e vem muitas vezes cruel. Por exemplo, um diálogo de Mariotti será melhor absorvido numa reunião de monges no Tibet do que no pregão de uma Bolsa de Valores (ia dizer num conclave de Cardeais ao escolher um novo Papa, mas desisti). No entanto, como não existe um comportamento ideal para o diálogo, eu continuo persistindo em aprendê-lo.

E os diálogos continuam, eu, você e nossos leitores, que só participam silenciosos se quiserem. Que venham outros.

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Quando ia lhe enviar este e-mail, li o artigo que você enviou para publicação, em forma de diálogo com o JK. Confesso senti uma ponta de inveja e ao mesmo tempo de contentamento, o que vem provar que os ateus também tem algum sentimento. Inveja do papo cabeça boa entre vocês, contentamento pelo que respondeu o JK algumas vezes. É pena que ele não tenha lido o Dawkins (ou leu? Não sei quando sua memória se apagou). Quando ele diz:

O nosso ego, a nossa personalidade, toda a nossa estrutura como indivíduos, é inteiramente formada pela memória. Por favor, este é um assunto para investigar; não aceitem. Observem-no, ouçam o conferencista esta dizendo que “você”, o ego, o “eu” são todos completamente memória. Não há nenhum lugar ou espaço onde haja claridade – vocês podem acreditar, ter esperança, ter fé, que haja em vocês alguma coisa incontaminada, algo que seja Deus, que seja a fagulha do intemporal, vocês podem acreditar em tudo isso, mas essa crença é apenas ilusória.”

Talvez o Dawkins o tenha lido, não o aceitando partiu para investigar e deu razão a JK: Deus é um delírio. Agora estou convicto que, mesmo sem usar os métodos da ciência, JK chegou lá antes dela. Este é que deveria ser o técnico do nosso time. Pena que não tenha tempo de lê-lo mais para levantar mais minha perna no nosso diálogo. Apenas posso transcrever declarações de outros do nosso plantel, como o Prêmio Nobel de literatura José Saramago que diz, igual a JK:

Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele crêem. Pessoalmente, não tenho nenhuma conta a ajustar com uma entidade que durante a eternidade anterior ao aparecimento do universo nada tinha feito (pelo menos não consta) e que depois decidiu sumir-se não se sabe onde. O cérebro humano é um grande criador de absurdos. Deus é o maior deles.”

Levando em conta que ele completará 87 anos este ano, será que ele vai pedir ajuda externa na hora da morte? Penso que não.
Ainda em apoio a JK, Francis Crick, o gênio da dupla formada com James Watson, que descobriu a hélice da molécula de DNA, abrindo caminho para comprovar certas hipóteses sobre os genes egoístas, ou imortais, sugeriu que a alma é o cérebro. Embora haja controvérsias ainda, ele sugere que a alma nada mais é do que o resultado de interações químicas e elétricas ocorridas na rede cerebral de células especiais, os neurônios. Estes mesmos que o Alzheimer destrói. Isto eu vi numa revista semanal e sei que os grandes pensadores tem preconceitos contra revistas semanais. No entanto, sem citá-la, “veja” bem, quando sai nestas revistas é porque já saiu no Lancet, Nature e noutras similares. O que mais me chamou a atenção foi a pesquisa para controlar o cérebro, ao descobrir e controlar estes fatos físicos-químicos. Um cientista brasileiro Miguel Nicolelis aventa a possibilidade que se possa fazer uma copia dos cérebros das pessoas, ou seja, colocar a alma num pen drive.
Adoraria deixar um pen drive de minha alma para os que virão depois de mim. Será que eles me mandarão para o inferno?

Cleómenes Oliveiracleomenesoliveira@citltda.com

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