sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Diálogo com JK sobre a Existência Humana

Esse diálogo foi realizado em dois momentos: As manifestações de JK ocorreram em Amsterdam no ano de 198l e as de RL em Uberlândia em 2009

O diálogo como uma reflexão conjunta sempre amplia as compreensões do tema abordado. Dialogar a respeito da Existência Humana é um tema que sempre me atraiu. Por isso, procurei o “amigo” JK para compartir minhas inquietudes sobre esse tema.

RL: Amigo JK, neste diálogo sobre a Existência Humana, escutar-lhe-ei como você espera. Ou seja, suas manifestações serão um espelho no qual vou procurar perceber a minha própria existência.

JK: “Somos como dois amigos sentados no parque num agradável dia, conversando a respeito da vida, dos nossos problemas, investigando a própria natureza da nossa existência e nos perguntando com seriedade por que a vida tornou-se um problema; por que, embora intelectualmente sejamos muito sofisticados, a nossa vida diária é tão tediosa, sem qualquer sentido exceto o da sobrevivência...”

RL: Fazendo um retrospecto dos problemas que enfrentei no trajeto vivido até o presente, penso tê-los administrado sem sofrimento. Talvez por não terem sido relevantes. Vida diária tediosa? Não, nunca senti tédio. Na realidade, mesmo na condição de aposentado, acho-a prazerosa. Quanto ao sentido da vida? Sinceramente, nas minhas reflexões, nunca encontrei um verdadeiro sentido para vida, exceto no que se refere à sobrevivência – nessa, incluo a geração, criação, educação e encaminhamento da própria prole.

JK: “... vamos abordar esta questão do porque nós, seres humanos vivemos como vivemos, indo para o escritório das nove as cinco ou seis horas, durante cinqüenta anos, e sempre com o cérebro, a mente, constantemente ocupados. Nunca há uma quietude, nunca há paz, mas sempre essa ocupação com uma ou outra coisa. E assim é a nossa vida. Assim é a nossa vida diária, monótona, um tanto solitária, vida insuficiente. E tentamos fugir dela através da religião, das várias formas de entretenimento ...”.

RL: Comecei minha vida profissional trabalhando em escritório. Pensava em trabalhar na área esportiva, corri atrás, e logo me inseri nesse contexto. Fui técnico, preparador físico e professor na área. Ocupava o cérebro, a mente e, também, o corpo em atividades físicas. Mesmo hoje, aposentado, continuo, nessa rotina e não sinto nenhuma monotonia. Acho que sou viciado em atividade física... Acho não, tenho certeza. Será devido às endorfinas? Nas minhas fugas, me entretenho com o esporte e não com as religiões. Minha vida mental? Esta tem sido um pouco solitária, será por isso que estou recorrendo ao amigo (JK) tão distante, para interagirmos?

JK: “... No fim do dia, ainda estamos onde estivemos durante milhares e milhares de anos. Parece que mudamos muito pouco psicologicamente, interiormente. Os nossos problemas aumentam e há sempre o medo da velhice, da doença, de algum acidente que nos extinga. Assim é a nossa existência, da infância até à morte; que seja voluntária ou involuntariamente, morremos. Parece que não fomos capazes de resolver esse problema, o problema da morte. Quando vamos envelhecendo, principalmente, nos lembramos de todas as coisas que aconteceram, dos momentos de prazer dos momentos de dor e de pesar e das lágrimas. No entanto, sempre há essa coisa desconhecida chamada morte, da qual a maioria de nós tem medo. ... Vamos discutir juntos, como dois amigos que tiveram uma vida longa e séria, com todos os seus problemas, os problemas do sexo, da solidão do desespero, da depressão, da ansiedade, da incerteza uma sensação de não-sentido e, ao fim disto, sempre a morte”.

RL: Nesse diálogo, pensei em orientar nossa conversação sobre a Existência humana. Em outros momentos, já escutei você falar que a morte faz parte da vida. Objetivamente não estou pensando em morte, mas vou continuar lhe escutando, como você pede, e Raul Seixas lhe interpreta: sem ter uma velha opinião formada...

JK: “Ao conversarmos sobre a morte, dela nos aproximamos intelectualmente – isto é, nós a racionalizamos, dizemos que ela é inevitável, que não devemos temê-la ou fugir dela através de alguma forma de crença na vida após a morte, na reencarnação ou se vocês forem altamente intelectualizados, dizendo para vocês mesmos que a morte é o fim de todas as coisas, da nossa existência, das nossas experiências, das nossas lembranças, sejam elas ternas, agradáveis ou abundantes; é, também, o fim da dor e do sofrimento. O que significa tudo isto, esta vida que é, na realidade, se nós a examinarmos com muito cuidado, um tanto sem sentido? Podemos intelectualmente, verbalmente, construir um sentido para a vida; mas o modo como nós, na realidade vivemos tem muito pouco sentido. Viver e morrer é tudo o que sabemos. Tudo o mais é teoria, especulação; a busca sem sentido de uma crença na qual encontremos alguma espécie de segurança e esperança. Temos os ideais projetados pelos pensamentos e lutamos para alcançá-los. Esta é a nossa vida, até mesmo quando somos muito jovens, cheios de vitalidade e alegria, com o sentimento de que podemos fazer quase tudo; mas com o passar da juventude, da meia-idade e da velhice sempre fica esta questão da morte.”

RL: Vou continuar lhe escutando.

JK: “O nosso ego, a nossa personalidade, toda a nossa estrutura como indivíduos, é inteiramente formada pela memória. Por favor, este é um assunto para investigar; não aceitem. Observem-no, ouçam o conferencista esta dizendo que “você”, o ego, o “eu” são todos completamente memória. Não há nenhum lugar ou espaço onde haja claridade – vocês podem acreditar, ter esperança, ter fé, que haja em vocês alguma coisa incontaminada, algo que seja Deus, que seja a fagulha do intemporal, vocês podem acreditar em tudo isso, mas essa crença é apenas ilusória. Todas as crenças são ilusórias. Mas o fato é que toda a nossa existência é inteiramente feita de memória, de lembranças. Não há lugar ou espaço interior que não seja memória. Vocês podem investigar isto; se estiverem se indagando seriamente, verão que o “eu”, o ego, é todo memória, lembranças. E essa é a nossa vida. Nos funcionamentos, nós vivemos da memória. E, para nós, a morte é o fim dessa memória.”

RL: É, olhando para mim mesmo, para o meu interior, sem nenhum conceito pré-formado, percebo claramente que além do físico só me resta mesmo memória e os consequentes pensamentos. Reconheço que essa memória e o conjunto de pensamentos como os frutos do já vivido. Assim sendo, sem memória e sem pensamentos o ego, o “eu”, é morto... É isso?

JK: “... Na realidade, há apenas eu e você conversando juntos, não esta audiência enorme num vasto salão, mas você e eu sentados às margens de um rio, num banco, discutindo isto juntos. E um diz para o outro: não somos nada além da memória e é a esta memória que estamos presos – a minha casa, a minha propriedade, a minha experiência, o meu relacionamento, o escritório ou a fábrica para onde eu vou, a arte de que eu gosto de poder utilizar durante certo período de tempo – eu sou tudo isso. A tudo isso o pensamento está ligado. É a isso que chamamos de viver. E essa ligação cria todas as formas de problemas; quando estamos ligados, há o medo da perda; estamos ligados porque estamos sozinhos, com uma profunda e permanente solidão, que é sufocante, isoladora, depressiva. E quanto mais estamos ligados a outra pessoa, o que ademais, é memória, pois o outro é uma memória, mais problemas existem. Estou ligado ao nome, à forma; minha existência é a ligação a essas memórias que eu reuni durante a minha vida. Onde há ligação, observo que há corrupção. Quando estou ligado a uma crença, na esperança de que nessa ligação haja uma certa segurança, tanto psicológica quanto fisicamente, essa ligação impede um exame maior. E tenho medo de examinar quando estou fortemente ligado a alguma coisa, a uma pessoa, a uma idéia, a uma experiência. Assim, onde há ligação existe corrupção. Toda a nossa vida é um movimento dentro do campo do conhecido. Isso é obvio. A morte significa o fim do conhecido. Significa o fim do organismo físico, o fim de toda a memória que sou eu, pois eu nada mais sou do que memória – sendo a memória o conhecido e eu estou com medo de deixar tudo isso ir-se, o que significa a morte. Acho que isto esta completamente claro, pelo menos verbalmente. Intelectualmente, podemos aceitar isso de modo lógico, sensato; é um fato.”

RL: É, intelectualmente minha razão encontra lógica em toda essa manifestação. Contudo, não sinto inteiramente essa realidade. No fundo tenho o pressentimento ou ilusão que além do físico, da memória e dos pensamentos há “algo”. Talvez sejam os meus condicionamentos que alimentem essa sensação. Não sei... A reencarnação é uma idéia que me agrada. Mas, estou sempre pegando e largando essa idéia. Talvez por isso ela ainda não tenha se transformado crença.

JK: “O mundo asiático acredita na reencarnação, isto é, que a alma, o ego, o “eu”, que é um feixe de memórias, renascerá mais uma vez para uma vida melhor, se eles se comportarem corretamente agora, se se conduzirem corretamente, se levarem uma vida sem violência, sem cobiça, e assim por diante; então, na próxima reencarnação, eles terão uma vida melhor, uma posição melhor. Mas a crença na reencarnação é apenas uma crença. Mas uma crença é apenas uma crença, por que os que possuem esta forte crença não vivem uma vida correta hoje? É apenas uma idéia de que a próxima vida será maravilhosa. Eles dizem que a qualidade da próxima vida deve corresponder à qualidade da vida atual. Mas a vida atual é tão torturante, tão exigente, tão complexa, que eles esquecem a crença e lutam, se iludem, tornam-se hipócritas e aceitam toda forma de vulgaridade. Essa é uma resposta à morte: acreditar na outra vida. Mas o que é que irá reencarnar? O que é que irá continuar? O que é que tem continuidade na nossa vida atual? É a lembrança das experiências de ontem, dos prazeres, dos medos, das ansiedades, e isso continuará a vida toda, a mesmos que rompamos e nos afastemos dessa corrente.”

RL: Então, como sair dessa corrente?

JK: “Agora, a questão é a seguinte: será possível, enquanto se vive, com toda a energia, capacidade e agitação, terminar por exemplo, com a ligação? Porque é isso o que vai acontecer quando vocês morrerem. Vocês podem estar ligados à sua esposa ou ao seu marido, à sua pobreza. Podem estar ligados a alguma crença num deus, o que é apenas uma projeção uma invenção do pensamento, mas vocês estão ligados porque há um certo sentimento de segurança, por mais ilusória que possa ser. A morte significa o fim dessa ligação. Agora, enquanto vivemos, podemos terminar voluntariamente, facilmente, sem qualquer esforço, com essa forma de ligação? O que significa morrer para uma coisa que vocês conheceram, uma coisa que vocês seguem? Vocês conseguem fazer isso? Porque isso é morrer junto com o viver, não separado por cinqüenta anos ou mais, à espera de alguma doença que dê cabo de vocês. É viver com toda a sua vitalidade, energia capacidade intelectual e com grande sentimento e, ao mesmo tempo, para determinadas conclusões, para determinadas idiossincrasias, experiências, ligações, ferimentos, terminar, morrer. Isso é, enquanto, viver também com a morte. Então, a morte não é algo distante, a morte não é uma coisa que está no fim da nossa vida, produzida por algum acidente, doença ou velhice mas, pelo contrário, o fim de todas as coisas da memórias – isto é a morte, uma morte não separada da vida."

RL: Lembro que você, em outro momento, falou sobre o ciclo do nosso viver: experiência, memória, conhecimento, pensamento e daí para a ação. E que você considera que devemos preservar esse ciclo quando se trata dos problemas relativos à vida física, mas não os relativos aos problemas psicológicos. Estes, que dão vida ao ego, devem ser vividos sem a interferência do passado, do ontem. Vou refletir sobre a conversação de hoje, e no possível procurar viver o que compreendi: esquecer/descartar as lembranças e os pensamentos que fortalecem o ego. Penso que desse modo poderei morrer todas as noites e, ainda, acordar vivinho da “silva”, para VIVER A VIDA!!!

OBS. As manifestações de JK (Jidu Krishnamurti) foram retiradas de uma palestra proferida na cidade de Amsterdam, em 19 de setembro de 1981, e publicada no livro “A Rede do Pensamento”, da editora Cultrix.

Roberto José Tenório de Lira - rjtlira@yahoo.com.br

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