quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Encontro com Lula



Ontem fui a Floresta, sertão de Pernambuco. Estava mais desesperado para ver o Lula do que o Zetinho para fundar a Academia Bom-conselhense de Letras. Como todos sabem,nossos objetivos são os mesmos, no meu caso fundar a Academia Caeteense de Letras. Este tema se tornou recorrente em minha vida, e com estas andanças quase semanais do Lula pelo nosso Estado, ele se tornou quase uma obsessão. Afinal de contas, uma Academia em Caetés sem ele, seria a mesma coisa que a de Bom Conselho sem o Zetinho, ou sem o meu colega José Fernandes Costa, ou sem o José Tenório de Medeiros. Tinha que aproveitar o momento. Nisto sou igual ao Zetinho, não desisto nunca.
O motivo da visita era a transposição do Rio São Francisco para irrigar outras partes do Nordeste. Meu pai já me falava sobre isto, pois ao chegar de Portugal, na seca de 1932, já contava que a seca era um fato tão corriqueiro por estas bandas que D. Pedro II prometera trazer água do grande rio para minorar a situação. Aqui em Caetés, no agreste do Estado sofremos menos com este fenômeno climático, mas sofremos. Soube que há no projeto de transposição um chamado Ramal Agreste que poderá trazer água até nossa cidade, e também, para Bom Conselho. Portanto, caro Zetinho, não será por falta d’água que nossas Academias não serão criadas. Por isso eu votarei no Lula ou em quem ele indicar, desde que seja criada a minha Academia. Este virou o meu Bolsa Família. Será que vou ter que votar na Dilma? Minha consciência doerá mais que injeção de penicilina, no entanto, faço tudo por meu Caetés.
Alguns dizem que é demagogia, manobra eleitoreira, ou mesmo “experteza”, Lula ir dormir num acampamento da obra, como aconteceu desta vez. Mas, quem o conheceu antes, como eu o conheci menino, sei que não é. Comi muito calango assado na brasa, ainda com a cabeça sagrando pela pedra do seu bodoque. Quando era uma rolinha, e ainda se movia depois de cair no chão, era ele que dava as últimas pancadas na cabeça dela com o cabo do bodoque. E dizia:

- Não tenho luxo. Mas só como rola morta, viva não desce!

Naquela época, já era uma criança corajosa e determinada. Mas, deixa nossa história prá depois. Só posso dizer, pela nossa amizade infantil, que ela já tinha tido um José na vida dele, antes do Dirceu e do Sarney.
Foi neste acampamento simples, com apenas dois aparelhos de ar condicionado e uma cama Kingue Saise, que consegui entrar, depois de burlar alguns policiais, enquanto eles estavam em dúvida se tiravam fotos do Lula, da Dilma ou do Ciro. Ao entrar, os três me olharam com espanto e formou-se a seguinte conversa:

- O que o senhor deseja, companheiro?

Perguntou Lula.

- Desejo falar com o senhor. Não me reconhece? É o Zezinho, seu colega de infância, era quase seu vizinho?
- Zé Andando?
- Sim, às suas ordens!
- Zezinho, vem cá e me dar um abraço. Quanto tempo! Nunca pensei em te ver depois de tanto tempo.

Dizia Lula, enquanto me abraçava de uma forma carinhosa e receptiva. Quase fui às lágrimas. Balbuciei e falei enquanto ele me soltava.

- Agora você não é mais o Lulinha que conheci mas este abraço trouxe uma série de lembranças.
- É Zé, eu penso que piorei muito, desde aquele tempo. Dilma, Ciro, quero que conheçam um amigo de infância!

Depois das apresentações e o silêncio que se seguiu, Ciro sugeriu a Dilma que ambos saíssem para Lula aproveitar aqueles momentos de recordação. Isto foi feito. E sozinhos continuamos a conversa, começada por ele:

- Você ainda está em Caetés?
- Estou sim. Depois de andar quase meio mundo voltei prá lá. Fui professor em Recife, de Português...
- Se eu soubesse teria lhe chamado para fazer uns “curso”...

Falou isto com um sorriso nos lábios.

- Trabalhei, ultimamente na CIT, uma empresa nova, do ramo de comunicação, que vai de vento em popa, como revisor de textos, e ainda trabalho, mas agora eles me chamam tão pouco que resolvi mudar para Caetés, depois de ficar algum tempo em Caldeirões dos Guedes, em Bom Conselho.
- Eu já ouvi falar de Bom Conselho, parece que foi o Eduardo, num comentário sobre uma fábrica de embutidos de carne. Não é lá que tem uma fábrica grande para inaugurar? Eu até prometi a Eduardo que iria para a inauguração, mas é muita coisa nas minhas costa...
- É lá mesmo. Esperei que você fosse lá para lhe falar. Como você não aparecia, vim aqui...
- E que é que te trouxe?
- Nós estamos tentando fundar uma Academia de Letras, e eu queria convidar você para participar.
- Tá querendo me gozar, Zé? Você acha que depois de ter falado na Academia Brasileira de Letras vou ser membro de uma em Caetés? Tás brincando! Eu vou entrar é na ABL, o Sarney já me convidou. Depois talvez pense na de Caetés.
- Mas Lula, já tínhamos reservado a cadeira de numero 13 para você, já que você é do PT, ou como dizem o Super-Homem do PT. E uma coisa não atrapalha a outra, você pode pertencer às duas.
- Zé, em primeiro lugar quem é o Super-Homem do PT é o Suplicy. O cara desfilou pelo Senado com uma cueca do Super-Homem, pirou de vez. Em segundo lugar, se eu não eleger o meu candidato em 2010, você acha que Sarney vai mover uma palha para colocar na ABL um acadêmico de Caetés? Vamos fazer o seguinte: me procure depois de 2010, e então veremos se posso aceitar seu convite. Toma estes “
cinquentinha” e vai tocando lá a Academia, eu dou todo o apoio à cultura, você sabe!
- Obrigado pela sua generosidade.

Depois deste diálogo encorajador, me dirigi à porta, e antes de sair, já iam entrando Dilma e Ciro aos berros, disputando o espaço junto ao Lula, no dia seguinte, em Cabrobó. Li nos jornais do dia seguinte que Ciro ganhou e ajudou Lula no sorteio das casas, para aqueles que ficaram sem, pelas obras de transposição, inclusive falando errado o Português para ficar mais parecido com o Lula, que arrematava, com a modéstia que caracterizou Antônio Conselheiro: “Eu não sei se o sertão vai virar mar, eu não sei. Mas que vai ter água porreta, vai...”.
Humm! Será que um dia teremos nossa Academia???

José Andando de Costasjad67@citltda.com

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(*) Fotos do Diário de Pernambuco.

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