quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Meu Primeiro Emprego



Aprendi a contar os anos de minha vida. Com a Certidão de Nascimento era muito fácil e diferente do sítio. Mas não era só por isso, agora eu sabia ler e escrever, já podia escrever Pau Grande e observar quanto ele ficava cada vez menor com o passar do tempo na cidade, eu tinha agora 14 anos e comemorava aniversário no dia 22 de agosto. Disse comemorava e não que nasci, o dia em que nasci eu não sabia, esta outra data estava na certidão e meu pai ou o pessoal do cartório inventou. Por isso quando hoje dizem que sou de signo de Leão, não levo muito a sério embora fique muito satisfeita quando dizem que quem nasce neste signo tem um sentimento natural de nobreza, e por vezes até de altivez, e que adora irradiar sua estrela, além da natureza extrovertida, ambiciosa e de muita força de vontade, e por vezes, chega a ser voluntariosa. Me sinto poderosa com a opinião dos astrólogos, digo logo: não se alegrem muito, posso até ser Virgem.
Com esta idade, vendo meus irmãos e meus pais trabalharem duro para me manter no bem bom da casa e da escola, ficava triste. Muitas vezes tomava conta de algum bebê para a mãe ir em algum lugar incerto e não sabido. Ganhava uns trocados que não davam nem para um lanche fora de casa. Pensando sobre isto lembrei da primeira vez que fui a uma sorveteria, foi com Serginho, meu colega de escola. Não tinha idéia do que fosse uma sorveteria e nem um sorvete e fiquei surpresa quando ele me perguntou:


- Tem de morango, manga, goiaba e baunilha, queres de qual?


Devo ter ficada amarela de vergonha em não saber responder. Os únicos sons que entendi foram goiaba e manga, o resto prá mim era outra língua. Me fiz de forte e respondi:


- Quero de manga e goiaba!


Apesar de ficar pensando como eles iriam misturar as duas frutas, após alguns minutos veio um funil com duas bolas em cima, uma amarela e uma vermelha e um pedacinho de pau. Olhei Serginho pegar o pedaço de pau, meter na bola de cima, tirar um pedaço e levar o pau à boca. Fiz o mesmo mas, enchi o pau demais. Quando aquilo entrou em minha boca, sofri a maior dor que já havia sentido na vida. Ali descobri que eu não tinha dor de dente só à noite mas também quando tomava sorvete. Eram cáries e mais cáries que eu tinha e que o gelo, pelo visto, encontrou todas. Todos pensarão: no outro dia ela foi ao dentista. Pobres pessoas modernas. Naquela época não sabia nem o que era era isto. Não sei se contarei esta história depois mas, só encontrei dentista lá pelos 20 anos, quando já me faltavam alguns dentes, acabados pela "Cera de Dr. Lustosa". Entretanto, gostei do sorvete, deixo a alegria de tomá-lo e volta à tristeza pelo trabalho de meus parentes.
Certo dia, Dona Eulália, uma senhora quase vizinha da gente, foi visitar minha mãe. Eu estava em casa, lembro como hoje lendo uma revista Capricho. Gostava de todo tipo de leitura, mas como toda mocinha empinando o busto, também gostava de estórias sentimentais, e melhor, com fotos. Mas ouvi o diálogo a partir do ponto onde meu nome foi citado:


- Qual a idade de Eliúde, D. Berenice?


Perguntou D. Eulália.


- 14. Por que, D. Eulália?
- É porque ela cuidou do Amadeus alguns dias e ele gostou tanto dela D. Berenice!
- A senhora quer que ela cuide de novo dele?
- Quero, D. Berenice mas agora de uma forma diferente. Soube que a Eliúde estuda pela manhã e à tarde fica em casa. No período da tarde eu resolvi fazer o curso de confeitaria que vai ter na Igreja, e talvez ganhar algum depois, não que precise pois o Armando está ganhando bem, mas dinheiro nunca é demais. Então resolvi falar com a senhora se a Eliúde não podia ficar com o Amadeu na parte da tarde.


Voltei a ler o Capricho, logo na cena onde o galã da história tentava beijar a mocinha. Mas depois, vendo a situação da família, falei prá minha mãe que gostaria de trabalhar à tarde tomando conta do Amadeus. Ele era um menino de 1 ano, produzindo bombas de cocô toda hora mas era muito bonzinho, fora isso.
Este seria o meu primeiro emprego, limpadora de bombas de cocô. Não sabia nem quanto iria ganhar, minha mãe acertava com D. Eulália, hoje, isto se configuraria como trabalho escravo. Eu gostava, como prova de que nem todo trabalho escravo é ruim, como também nem sempre um emprego com carteira assinada é bom, o problema, em ambos é a falta de liberdade. O Amadeus comia, produzia as bombas e dormia. Eu fazia quase a mesma coisa, embora já usasse o vaso sanitário para fazer minhas bombas e fizesse meus deveres de escola. Não sei se alguém está interessado onde fazia minhas bombas, mas, aqueles que não estão é porque nasceram em “vaso de ouro”. Para mim, naquela época, um daqueles vasos em que a gente sentava era tão importante quanto o trono da rainha da Inglaterra. Se eu tivesse um daqueles lá no Pau Grande, teria fugido com meu irmão e talvez hoje estivesse na Barra do Brejo. Para esta necessidade o mato não é tão adequado assim. Perdoem-me a digressão “bombástica”. Mesmo assim, algumas vezes, ainda tinha tempo até de ler um Capricho.
Aproveitando, foi o capricho do destino que quis, dentro da casa de D. Eulália, além do Amadeus, houvesse Paulinho. Este tinha 16 anos. D. Eulália, após ter o Paulinho, depois de muito tempo voltou à ativa e teve o Amadeus, de quem eu cuidava. O difícil foi cuidar do Paulinho. Era um rapaz bonito, educado, e como hoje se diz: “saradão”. Quando o vi a primeira vez fiquei entre o feijão e sonho, e com 14 anos, quem prefere feijão? Até hoje não sei se a decisão de trabalhar cuidando do Amadeus, teve algo de inconsciente de ficar um pouco mais perto do Paulinho. Hoje dizem que só Freud explica, eu digo, o “fogo” adolescente também.
Não posso dizer que o Paulinho fosse indiferente a mim. Eu também tinha cá meus predicados. Os olhos, depois da blefarite, ficaram no seu azul natural. Nosso colega Cleómenes disse que o gene alelo azul venceu, e como sempre não entendi nada. Vencendo ou não, os do outro sexo gostavam e tenho certeza o Paulinho também. Daquele olhar do Eraldo no Pau-de-Arara jamais esquecerei. Aquela conversa de cerca-lourenço, aquelas revistas emprestadas, aqueles elogios fora de hora, aquelas visitas ao quarto do Amadeus para ajudar colocar a chupeta nele, aquelas roçadas tênues mas denunciantes de algo crescendo além do Amadeus e, de repente, aquela carreira para o banheiro, eu só vim entender depois. O Amadeus foi ficando cada dia maiorzinho e eu cada dia gostava mais dele, em suma tudo foi crescendo junto. Quando me dei conta tinha perdido o que havia de mais precioso para mim naquela época. O Paulinho me deixou em prantos, ao roubar de mim aquele meu tesouro: Um exemplar de O Feijão e o Sonho do Orígenes Lessa, que Serginho havia me presenteado. O Paulinho disse que tinha ciúmes. Que romance! Era tudo prá mim, li e reli várias vezes.
O Paulinho também me tirou outra coisa. Não foi roubo. Eu dei. Ele gostou e eu também. Graças a Deus, de menino crescendo, naquela época, só vi o Amadeus. Quando sai de lá ele já tinha quase 3 anos de idade, e eu 16 anos. Deixei meu primeiro emprego e não o esqueço. Ou não esqueço do Paulinho? Sei lá! Talvez nem de um nem de outro. Dizem que o primeiro a gente nunca esquece. O que o Paulinho tirou de mim jamais eu terei de volta, e, quer saber de uma coisa? Eu nem quero. Gostaria, no entanto, que ele me devolvesse o meu exemplar de O Feijão e o Sonho. Vou reler o novo que comprei tempos depois. Para uma grande parte das meninas de 15 anos atualmente não existe nem feijão, nem sonho e nem mais o que o Paulinho tirar. São os tempos modernos? Então eu já era moderna naquela época, digo moderna natural, pela formação que não tive a respeito de sexo. Não havia nenhum sentimento de culpa naquele ato, talvez, porque não existisse pecado do lado de lá do Pau Grande.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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