quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Academia em Jogo - Complemento



Caro Zetinho,

Veja como é morar no interior. Hoje nem mais posso reclamar que fico totalmente isolado do mundo, porque aqui em Caetés, já temos televisão. Alvíssaras. Mas sofremos, e eu soube, Bom Conselho também, de banda estreita na Internet. Mesmo quando funciona, é mais lenta do que uma tartaruga depressiva. Devido a isto não havia lido sua carta, publicada no nosso Blog (http://www.citltda.com/2009/10/academia-em-jogo.html). Eu gostaria que tivesse sido mal escrita e sem nenhuma beleza literária para não me deixar tão inseguro ao respondê-la. No entanto ela é um primor, e já vou pedindo desculpas por estas linhas tortas com as quais lhe respondo. Posso errar, pois não sou Deus, só ele escreve certo por linhas tortas.

Hoje soube que o Lula está em Recife outra vez. Como anda este meu conterrâneo e amigo de infância! Espero que, nestas andanças, não esqueça o que me prometeu em termos de Academia. Você diz que eu tenho “as costas quentes” pelo “peso pesado” que ele é, para alcançar o objetivo de nossa Academia. Confesso a você, amigo, “costas” tenho, até no nome, mas estão tão frias! Não senti firmeza no papo com ele que, relatei anteriormente (http://www.citltda.com/2009/10/o-encontro-com-lula.html). Sabe como nos sentimos sendo iludidos por um pirulito, quando criança, como uma forma de nos desviar de um brinquedo bonito na loja? Eu senti isto. Não estou dizendo aqui que o Lula quis me iludir. Ele estava sendo sincero e isto sempre o foi. É o seu jeito. Cativante, amoroso, generoso, sincero e leal. O que senti é um problema meu. Talvez esteja totalmente errado.

Estava ali a criança que conheci. Certa feita, saímos para o mato, eu, ele e João de Manuela, outra criança das redondezas. Fomos fazer o que fazíamos sempre. De bodoque em punho, alpercata contra os espinhos, calças curtas e um saquinho a tiracolo para colocar o fruto de nossa caçada ou umas frutas mais verdes, para comer em casa. Chegamos na fazenda de seu Juca por dentro do mato. Seu Juca notou nosso movimento e disse alto:

- Quem está lá?

De início ninguém respondeu. Mas, com a insistência da pergunta, o João de Manuela respondeu:

- Somos nós, seu Juca, eu, Zezinho e o Lulinha de D. Lindu! Estamos só passando aqui no seu sítio, já vamos embora!

Lula então falou:
- Seu Juca, o senhor deixa a gente chupar umas frutas do seu sítio? Estamos com fome e principalmente sede!

Então eu falei para ele:

- Oh! Lula. Mas, tu mesmo enchesse minha mochila de fruta, fora a que chupamos antes!
- Mas ele não sabe, oh Zé “besta”. Com a autorização podemos chupar mais!
- E se ele olhar na minha mochila?
- Eu digo que não sabia!!!

Ele era assim, quando íamos pedir frutas, ele já as tinha chupado! Lembrou-me o dito popular: “quando íamos com a farinha, ele já vinha com o angu”. Era assim desde pequeno. Deixava todo mundo satisfeito, também se satisfazia e dizia sempre a última palavra. Quando a coisa apertava ele dizia que não sabia. E terminava ninguém sabendo.

Caro Zetinho, quando digo que não senti firmeza na resposta é mais por estas lembranças de infância. Hoje não. Com a responsabilidade que tem, deve assumir o que disse. Aquela história de que, quando o espinho tem que furar de pequeno traz a ponta, não se aplica a este caso, ele mudou muito. E quando diz que não sabia, não sabia mesmo. O resto é intriga da oposição. Eu estou ainda com esperança e guardei os “cinquentinha” que ele me deu. Vai dar prá comprar a placa com seu nome da cadeira de número 13 da ACL.

Quando você fala de Dantas Barreto como um ponto forte na sua luta pela ABCL, eu imagino quanto o povo é ingrato. É a política meu caro. Lembro daquela enquete que a Lucinha fez para saber quem seria o patrono, e venceu o Pedro de Lara. Eu não tenho nada contra ele, mas ia votar no Padre Alfredo. Lucinha me cooptou para suas fileiras, com suas ideias populares e fui na onda. O povo quis assim, que se há de fazer. Pior somos nós aqui em Caetés que estamos com dificuldade para encontrar um morto ilustre, isto é, que tenha um perfil para o honroso cargo.
Estive conversando com a Lucinha Peixoto e ela me confidenciou que não esqueceu a Academia, embora tenha restrições quanto ao formato. Ela quer incluir outras modalidades de trabalho intelectual além da literatura, tal qual pintura, escultura, música, etc. Segundo ela, isto tiraria um pouco do caráter elitista da Academia e ao mesmo tempo abriria o leque de componentes, pois se correria o risco de todos os membros da Academia de Letras chegarem para uma reunião num Fiat Uno.
Quando eu disse a ela, que uma Academia já cheira a elite e que o Lula se recusou, inicialmente, a fazer parte da ACL, com medo de ser barrado na ABL, ela retrucou:

- Um apedeuta é um apedeuta, em qualquer Academia. E pensar que um dia votei nele!

Xingamentos à parte, talvez ela tenha razão, principalmente no caso de vocês que tem artistas noutros campos de excelentes qualidades, como Basto Peroba, Zé Póvoas, Frei Dimas, Carmem Cleide e outros, que poderiam participar de uma Academia. Ela diz que vai resolver isto no Encontro de Papacaceiros no próximo ano. Espero que vocês se encontrem lá.

Coincidentemente, comprei a A Gazeta nº 251 hoje, aqui em Garanhuns, onde sempre venho quando quero me sentir moderno em termos de conexão rápida, e no seu Editorial ela trata deste nosso recorrente tema: Academia. Pelo que li, o editorialista está disposto a ajudar vocês de Bom Conselho a tornar o seu sonho uma realidade. Caro Zetinho, cobre o homem (parece que ele é o Luiz Clério), e você já terá meio caminho andado. Uma pessoa lá, faz a direrença. Não sei se o pessoal da CIT já recebeu este exemplar do jornal. Penso que não, pois se tivesse, a Lucinha (foi publicado, nesta edição, um bom artigo dela, parabéns, minha aluna) já tinha se manifestado, mostrando ao editorialista que já há uma relação de candidatos a patrono, e que foi feita uma enquete no Blog da CIT e Pedro de Lara venceu. O que espero é que ela esteja aberta a fazer nova pesquisa, que inclua mais pessoas do que os internautas, que acessam no Blog. O que não pode é simplesmente varrer o resultado para debaixo do tapete. Pois assim a Academia Bom-conselhense de Letras já nasceria como uma fraude. Caro amigo, não deixe que isto aconteça, mesmo que, como eu, não tenha tanta simpatia, quanto a Lucinha, por Pedro de Lara.

Finalmente, tenha certeza de que o que você disse, em sua carta, é a verdade.. Você encontrou um parceiro nesta luta com Lula ou sem Lula, com Dantas ou sem Dantas.

José Andando de Costas/ Zezinhojad67@citltda.com

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