quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ajudando salvar nossos olhos...



Caro Roberto, boa tarde, não sei de que dia, depois do seu, e já para prevenir, boa noite e bom dia, pois sei que não terminarei isto hoje.


Ao querer salvar o seu Olho de Horus, você tocou em muitos assuntos. Algumas coisas muito estranhas para mim, e como já encontrei o sentido da vida, que é o mesmo daquele do carro de boi (como outras pessoas nos lêem devo esclarecer que a poesia do carro de boi não é minha e sim do Alberto Caeeiro) eu não estou lendo tanto, como você, coisas que me levem a ele, por isso minha compreensão passa longe de termos, como autopoese, sistema de Gaia, e alguns outros citados por você. Só penso que, quando você perceber a essência da evolução da espécie pela seleção natural, através de genes, principalmente, e memes, não muito claramente, você chegará ao sentido da vida, ou quase lá. Para minha melhor compreensão tenho que ir por partes (lembrei do Beto Guerra: como o Jack, o Estripador), e estas partes serão os parágrafos. Concordâncias ou discordâncias, serão sempre sem automatismo.

Quanto à possibilidade de enfrentarmos nossos genes/memes, modificando-os. Fazemos isto todos os dias, mesmo que fiquemos sentados à beira do caminho em atitude de meditação transcendental, que não sei bem o que seja. Os genes estarão sempre se replicando dentro de nós e procurando sobreviver preservando nosso corpo, sua máquina de sobrevivência. Este é o princípio, e no princípio era o verbo. Sua atitude para se preservar ou se proteger de doenças genéticas nada mais é do que uma luta deles, ajudados pelos memes criados pelos seus ancestrais (dos genes), para sua preservação. Se não houvesse escassez de nutrientes para eles, eles seriam eternos. Segundo Dawkins isto ocorria na “sopa inicial” onde teve origem a vida. Eles nem precisavam de máquina de sobrevivência. Era o paraíso, onde todos viviam felizes, igualzinho a Adão no Éden, antes da serpente. Eles, nesta situação, começaram a se replicar em demasia até que o primeiro Caim teve que matar Abel, para tomar sua comida, já eram muitos para os nutrientes existentes neste nosso planeta. A família de Abel passou a tentar se proteger da de Caim, se replicando de uma forma diferente, para evitar ser morto. Como diz o Darwin, evoluiu naturalmente. E a luta começou. Cada um com suas estratégias de luta e criação de máquinas cada vez mais sofisticadas. Aos vencedores as batatas, que eram uma maior probabilidade de sobrevivência do que o das máquinas anteriores. Ia esquecendo, foi nesta fase que surgiram os primeiros genes economistas, para lidar com a escassez e de economia eu só entendo aquela que faço hoje para chegar ao fim do mês com o que ganho.

Se tornaram até dinossauros, que eram grandes e bonitos, mas tinham um cérebro do tamanho daquele do Papa Lucio III, que convocou o Concílio de Veroana. Não conseguiram se proteger contra os eventos naturais e deram lugar aos insetos, restando apenas alguns crocodilos da mesma espécie. Depois de alguns poucos anos (milhões deles), neste processo chegamos à nossa carcaça atual. Para chegar a isto tiveram que ter muitos memes (que você diz serem pensamentos, e eu prefiro pensar neles como seus feitos, como Dawkins cita o dique do castor) para competição cada dia mais eficiente. A experiência que o Dawkins conta de que há uma ave que usa o ninho de outra para sobreviver, e depois mata os filhotes do hospedeiro, é apenas uma exemplo, do que eles fazem para continuarem se replicando. Não adianta dizer que este pássaro é imoral, por que ele entenderia tanto quanto uma leoa defendendo sua cria ou uma mãe humana protegendo o seu filho, em uma situação de extremo perigo.

É neste ponto que alguns deístas (o Collins, que a Lucinha leu, é um) que apela para o aparecimento de uma lei moral que se confunde com Deus, pois só entre os homens ela existe. Ledo engano, esta lei moral passou a existir quando nossos cérebros se desenvolveram o suficiente para perceber que a “lei da selva” não protege nossas carcaças, ou máquinas de sobrevivência sempre. As ideias religiosas, ou memes religiosos surgem nesta fase. A mulher que virou uma estátua de sal ao querer voltar para Sodoma e Gomorra apenas é um meme criado pelos genes de Moisés para proteger as carcaças do seu povo. Isto é para se ver quão útil foi a religião na vida humana. Hoje temos memes mais modernos gerados pelos genes de outras mentes brilhantes e que nos protegem da “débâcle” final. Por falar nisso, fui assistir ao filme 2012, que tem por base um meme gerado por algum maia maluco, de que não passaremos do ano de 2012. É angustiante pelos efeitos especiais excelentes. Vi o Cristo Redentor caindo aos pedaços, e vários outros monumentos. Sem entender muito bem das explicações científicas envolvidas no fenômeno, o que entendi é que o nosso Antônio Conselheiro, caso se confirme as profecias maias, estará certo: O Sertão vai virar Mar, e não é pela transposição do Rio São Francisco, é porque a costa terrestre se moverá e, pelos meus cálculos, teremos praia em Bom Conselho em breve. Tudo isto, para levar a comprovação do darwinismo, pois sairemos vivos de mais este dilúvio, como o Noé saiu, usando arcas, que nada mais são do que máquinas de sobrevivência, além dos nossos corpos, mas feitas pela competição de genes. No final do filme, o autor dar uma derrapada em favor da lei moral e solidariedade humana, tentando levar a crer que podemos ser salvos, sendo solidários, e no fim do filme isto se torna verdade. Todos choram e aplaudem o grande final feliz. Não sabem eles que isto só ocorrem nos filmes.

Saindo do cinema, você diz que este processo de competição, que pode ser sujo mesmo, está nos memes e não nos genes. Até nisso, os seus genes conseguem lhe enganar, passando por bonzinhos. Se não fosse assim eles enfrentariam riscos maiores e não seriam “imortais”, que seria o nome correto para os nossos genes, e não “egoístas”, que tem uma carga valorativa e negativa muito alta. Já pensou, se acreditássemos que, dentro de nós, existem um bando de diabinhos a brigar, trapacear, mentir, tripudiar em cima dos outros, só para sobreviver? E que nos levam a agir de forma competitiva sempre que necessário para protegê-los e eles continuarem na sua saga replicadora e evolutiva? Eles são ardilosos e nos deixam pensar que podemos sermos bonzinhos e solidários, e muitas vezes somos, porque eles nos permitem. Eles são mais sabidos do que nós. Eles que formam os memes, e não o contrário. Eles inventaram até uma coisa chamada “livre arbítrio”, para justificar o patriotismo e o suicídio altruísta. Mas é só engodo. Nós somos como os pinguins que ficam na beira d’água esperando para entrar, mas sabem se entrar existe uma foca para pegar um deles. Como pode ser qualquer um todos ficam fora d’água até que algum caia. Quando algum escorrega e cai n’água, ninguém vai salvar, os outros escapam pelo outro lado. E assim sobrevivem até hoje, embora não por muito tempo pois o ser humano está derretendo as calotas polares para os americanos usarem seus carrões. E ainda dirão, mas nós não somos pinguim, temos a lei moral. Concordo que não somos pinguins, com automatismo e tudo. Por isso, para nossa sobrevivência, matamos a foca, eliminamos o perigo, agora todos podem nadar sem medo. Surgiu o Estado de Bem Estar Social na Europa, sob o império da lei moral. Isto só internamente. Hoje se sabe que, todos lá podiam nadar a vontade e usufruir de uma qualidade de vida nunca vista na História, mas também se descobriu, que os “pinguins” de lá não esperavam algum pinguim cair pelas forças naturais, eles o empurravam para as focas que podiam incomodar, eram o pinguins colônias, na Ásia, África e América do Sul. Morreu muito pinguim por aqui sob o manto da lei moral dos pinguins de lá. Mas vamos provar que os nossos genes não são bestas não, estamos reagindo.

Um último ponto, pois já estou achando isto grande demais, por agora, é que você fala que em sua primeira competição, correndo com bilhões de participantes (os espermatozóides), foi um vencedor. Ledo engano, amigo, quando aquele conjunto de genes começou esta competição, eram você só pela metade, você só ficou inteiro, quando sua outra metade, no óvulo de sua mãe o deixou entrar. Aí é que você começou a correr, na competição da vida, pois neste ato você virou um corredor único. Neste processo de desenvolvimento da vida, a cooperação passa longe. Eu não sou um esperto nestas questões mas dizem que o gene do olho azul sai de porrada com o do olho preto, chamam-se os alelos ou rivais. Quem bate mais sai ganhando (aqui, eu iria desenvolver o exemplo, com a analogia do corredor, mas fica para depois, só não me pergunte quando, pois tenho que ler minha bíblia). O que espero "em Deus" é que os alelos ou rivais de alguns genes de seus pais, que você diz que tiveram alguma doença genética, tenham vencido nesta briga. Se isto aconteceu, pare um pouco de jogar tênis e venha degustar uma loura suada comigo no Encontro de Papacaceiros. Eu ainda não posso afirmar que ateísmo é mal genético, mas, se for, não adianta falar nem discutir nada. Se não tivermos os genes do ateísmo (ou memes?), ainda chamaremos "por Deus". Que vençam os alelos!

Cleómenes Oliveiracleomenesoliveira@citltda.com

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