sábado, 7 de novembro de 2009

Dialogando com Rubens Alves sobre Saúde Mental



RL: Recentemente, a amiga Lucinha Peixoto disse que os meus diálogos com o Cleómenes e com o JK (Jiddu Krishnamurti) são coisa de loucos. Não é segredo que mantenho uma “rede de conversações” com esses dois amigos. Esses diálogos me fazem refletir, reorganizar ideias, produzir memes/pensamentos, enfim, são eles que me ajudam a configurar o meu ser psicológico (o software). Nesse feriadão, pus-me a refletir sobre a advertência da Lucinha, tendo em mente que ela sempre se manifesta querendo o melhor par mim e para o Cleómenes, que é também seu amigo. Em relação ao JK ela não parece se preocupar muito, ela acha que ele é “doidão”. Nessa reflexão, surgiu à preocupação com minha saúde mental, por isso, estou procurando o “amigo” psicanalista para compartir minhas inquietações.
Antes de irmos ao cerne do diálogo, deixe-me manifestar como cheguei até você. Já lhe conhecia como educador, teólogo e escritor, mas não como psicanalista. A amiga Ana Luna, papacaceira de coração, foi quem indiretamente me fez descobrir você como psicanalista. No início do mês próximo passado, ela me enviou um email no qual você analisa a saúde mental de alguns personagens conhecidos e outros. Assim, lembrado pela difusão da amiga Ana Luna é que estou lhe atraindo para esse diálogo.
Vamos ao assunto principal da nossa conversação. Devido aos diálogos que tenho realizado com JK e Cleómenes, a Lucinha prenuncia uma possível infecção memética (codificação de memes/pensamentos na memória de um ser humano) em meu software, com a replicação dos vírus “ateísta” e “doidice”, introduzidos pelo Cleómenes e pelo JK respectivamente. Do meu ponto de vista, os referidos diálogos me fornecem valioso alimento (instruções) para o desenvolvimento do meu software e, por extensão, penso que se realiza um significativo upgrade no meu hardware. Isso posto, estou em dúvida se os referidos memes/pensamentos prejudicam ou não minha estabilidade física e/ou mental. Agora lhe pergunto: quais suas experiências com esse assunto?

RA: “Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski e outros mais. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve (não suportava mais viver com tanta angústia). Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

RL: Das pessoas mencionadas, eu não tive contato com o Van Gohg nem o Maiakoviski. Com os demais já estabeleci algumas conexões, mas nunca tinha voltado à atenção para esses fatos sobre a vida deles, que você acaba de relatar. Frente a isso, também estou assustado com o que diz respeito á saúde mental.

RA: “Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as ideias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.
Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham.
..”

RL: Essa sua manifestação me parece paradoxal. Por um lado, você diz que essas pessoas eram lúcidas, profundas e que suas ideias continuarão a ser pão para muitos vivos. Por outro, você afirma que elas não tinham saúde mental. Não consegui entender a sua manifestação.

RA: “Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.”

RL: Como assim? Pessoas lúcidas e profundas não são exemplos de indivíduos com sanidade mental, enquanto, os loucos é que passam a ser protótipos de saúde mental? Agora é que não entendi nada mesmo dessa sua manifestação ambígua. Por favor, me explique isso. Penso que se você utilizar alguma analogia para explicar essa situação, talvez, eu possa compreender claramente seus pensamentos.

RA: “Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente ‘equipamento duro’, e a outra se denomina software, ‘equipamento macio’. Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades ‘espirituais’ – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo ‘espirituais’, sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele.
Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, (o hardware), tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e então se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, ‘saúde mental’ até o fim dos seus dias.


RL: Gosto dessa analogia de que somos parecidos com computadores, geralmente também lanço mão dela. Também, é muito coerente a sua idéia de ser necessária uma interação entre o software e o hardware. Agora, trazendo essa sua analogia para o meu caso particular. Pelo que entendi os memes/pensamentos que, penso eu, me auxiliam a desenvolver o meu software, na realidade pode, pela sua grandeza, danificar meu hardware e para evitar arrebentá-lo devo seguir a risca sua receita de “saúde mental”. Sendo assim, pode me passar a sua receita que vou segui-la a risca.

RA: “1. Opte por um software modesto.
2. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware.
3. Cuidado com a música... Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados.
4. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?
5. Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais.
6. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram
."

RL: O “amigo” só pode estar querendo caçoar de mim, com essa receita. Prefiro mil vezes ser louco, ter o mal de Alzheimer na quarta fase (terminal) e até ser queimado na terra do “anjão” chefe caído do que seguir essa sua receita. Aliás, esse último castigo não tem perigo de se concretizar. Pois, a Lucinha prometeu rezar por mim, pelos meus e ela ainda diz que posso ter o privilégio de encontrá-la lá por cima (no céu dela).
É........mas, agora fiquei pensando........será que às ideias de JK, que sugerem a necessidade de deletarmos diariamente os memes/pensamentos que fortalecem o ego, estão prejudicando minha memória e/ou minha saúde mental?

Do sanatório em “Berlândia”: – Socorro Cleómenes.....TÔ DOIDO!!! TÔ DOIDO!!! TÔ DOIDO!!!

Roberto Lira - rjtlira@yahoo.com.br

OBS.: As manifestações de RA foram retiradas do email repassado pela amiga Ana Luna, cujo título é “Saúde Mental”, de autoria do Rubens Alves.

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