terça-feira, 17 de novembro de 2009

A ESCOLA PAROQUIAL





A criança que fui permanece dentro de mim. Por vezes sinto saudades e carinho, mas muito carinho pela criança que já fui.
Tem dias que o pretérito se faz presente no meu presente. Não resisto! Tento colocar no papel as lembranças que a mente, por alguma razão, quer relembrar.
E volto ao passado. E a mente da criança acopla-se a mente do adulto que sou hoje, e as duas começam a funcionar em uníssono. Uma a ditar. A outra a encontrar as palavras certas para encaixar tanto sentimento polvilhado de tantas lembranças. E assim vou sendo teleguiado como uma terceira pessoa a observar este diálogo entre estas duas mentes. Sou um observador de minha própria mente. Sou um escrevinhador de mim mesmo. Reconfortante, por vezes; melancólico, sem ser piegas. E os sentimentos vão fluindo, encadeados por ações passadas e finalmente o texto já nasce pronto. É uma persistência. Árdua batalha.
E eis o que surge:
Idos dos anos sessenta, em uma cidadezinha do agreste, perdida entre serras, onde a vida começava para um ser de seis anos de idade. Vida simples, família humilde. Um sem quê de dificuldades; quem viveu sabe. E quem não viveu, nem pode imaginar, pois a dor do outro, só vê, não sente.
Estudava nesta época na Escola Paroquial. Para quem não lembra, a nossa cidade de Bom Conselho já possuiu uma escola paroquial. Funcionava atrás da igreja matriz. Consistia em três salas de aula que eram mantidas em parte pela prefeitura, mas sob a tutela do pároco, na época, o Padre Alfredo Pinto Damaso, de quem as sextas-feiras, recebíamos aulas de catecismo. As professoras eram Miriam Correntão (filha do comerciante Sr. José Correntão), Valdeline Tenório Guedes (filha do então prefeito, Sr. Waldemar T. Guedes), a outra professora, por mais que me esforce não consigo lembrar.
Era uma escola pobrezinha, sem cadeiras individuais como as escolas às possuem hoje. Eram bancos compridos que ficavam em volta de mesas também compridas. Em dias de chuvas, que eram constantes, tínhamos que procurar acomodar a todos bem distantes das insistentes goteiras.
A minha professora Senhora Valdeline era punho firme. Também com uma turma de trinta pestinhas para ensinar, qualquer bom profissional, por vezes entra em desespero. E olhe que naquela época existiam dois grandes métodos: o famoso Piaget e o famoso Pinochet (régua e palmatória).
Os intervalos – o famoso recreio- era a parte mais esperada do dia. Não tínhamos área para recreação, então tínhamos por diversão a exploração. Dois itens constavam do nosso turismo exploratório: a igreja matriz e a casa do Padre Alfredo.
Quando a porta dos fundos da igreja estava aberta íamos em grupo de três ou quatro percorrer os espaços pouco frequentados e não acessíveis aos fiéis comuns da igreja. Corria um boato entre a criançada que existia um “corpo seco” por trás do altar de Santo Antonio, e numa dessas explorações fomos tirar isso a limpo. Temerosos, medrosos, mas teimosos, resolvemos ir. Como em todo o grupo, sempre tem um que assume a liderança, um mais afoito tomou a liderança para si e foi na frente. Pé ante pé e fomos nós. Surpresa e decepção!
Surpresa por vermos que o tal “corpo seco” era na realidade uma armação de arame com uma cabeça sem rosto (acho que devia ser um molde de alguma coisa). Decepção por colocar por terra mais uma crença do imaginário infantil. E assim seguia o nosso recreio.
A minha exploração preferida era mesmo o pomar da casa paroquial. Que beleza! Além de bem cuidado tinha frutas à vontade. Nem sempre tínhamos permissão de adentrar para este jardim do Éden. Quando O Pe. Alfredo estava em casa, a permissão era dada, mas com uma recomendação de não quebrar os galhos das árvores. E eram tantas: carambola, Jamelão, sapoti, pitomba, jabuticaba. Interessante que devido ao ciclo da natureza, sempre tinha uma fruta de época que nos abastecia. O Pe. Alfredo por vezes acompanhava o pequeno grupo e nestas excursões deixava de ser aquela voz que bradava quase colérico com os seus paroquianos, nos sermões, como a querer trazer todos para o bom caminho, e passava a ser uma pessoa doce, de voz mansa. Talvez, no fundo sentisse que estava fazendo mais uma boa ação: dando merenda a um grupo de criança pobre que nem sempre tinha alguns trocados para as cocadas e balas da barraca do Senhor Belon.
O pomar tinha dois guardiões, o Paulo, sacristão, e a D. Julia. Então quando o padre não estava, nem pensar em fazer incursões no jardim do Éden. Éramos expulsos e sem explicações. Não podia. Só com autorização do Pe. Alfredo. A contra gosto concordávamos.
A semana da Páscoa trazia consigo a obrigação do confessionário. E a escola toda era colocada em fila para a confissão. Criança junta, bagunça na certa. Aí sim, entrava o método Pinochet (puxões de orelhas) para ficarmos calados e quietos. Nestes momentos o padre era rigoroso, bravo com todos nós. Já na fila eu ficava a rebuscar na minha mente o que iria falar. Que pecado eu cometi? O que Deus queria que eu fizesse e eu não fiz? Eram perguntas que até hoje eu me faço. Que pecado uma criança de seis anos podia ter cometido? Lembro da aflição: a fila andando e eu sem saber o que falar ao padre.
Bem, passou!
Acho que foi à última páscoa em que o Pe. Alfredo ainda estava vivo. Tempo depois o mesmo adoeceu, foi transferido para o Recife, aonde veio a falecer. A Escola Paroquial
ainda conseguiu ir adiante por um semestre. A professora Valdeline casou, foi substituída pela Graça Barreto (filha do Senhor Barretinho), eu tive que sair, voltei para o grupo Escolar, mas aí já é uma outra história.

Gildo Póvoas - gildopovoas@hotmail.com

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(*) Fotos do acervo da CIT.

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