domingo, 1 de novembro de 2009

O Dia de Finados



Houve um tempo em que o Dia de Finados era dedicado aos mortos. Modernamente, aqui no Brasil, ele é dedicado aos vivos. E quando cai numa segunda ou sexta feira, gerando os "feriadões", o mundo é só dos vivos. Ao invés de se ir ao cemitério se vai à praia.
Dizem os que contam a história que desde o século 1º os cristãos homenageiam seus mortos visitando seus túmulos e rezando por eles. A Igreja Católica, desde o século 4º já os reverenciava em missas celebradas para este fim e, a partir do século 5º, já os dedicava um dia por ano. No entanto, foi só a partir do século XIII que foi instituído o dia 2 de novembro como a data para esta homenagem. O dia 2 foi escolhido porque o dia anterior, 1º de novembro, é dedicado a Todos os Santos, no qual se celebram todos que morreram em estado de graça e não foram canonizados. No dia de finados se celebram todos que morreram e não foram lembrados no dia 1º. Como está cada dia mais difícil morrer em estado de graça, reza-se pouco no dia 1º, e descarregam-se todas as rezas no dia 2 de novembro.
Em Bom Conselho, na minha meninice, lembro de várias vezes que acompanhei minha mãe ao cemitério para visitar o túmulo de vovó. Como sói acontecer, os cemitérios, para economizar espaço e talvez tempo de quem visita os mortos, ou se verticalizam ou, como era o caso de vovó, sepultam-se várias pessoas no mesmo lugar desde que se passe o devido tempo. Sempre uma reza vale para várias pessoas. E minha mãe ia rezar quase todos os anos. Eu ia junto.
Todos já sabem que neste Blog, a maioria, de quem escreve, já tem suas falhas de memórias. Alguns mais outros menos. Isto é normal porque, quase todos já se beneficiam do Estatuto dos Idosos, ou estão chegando lá como nosso Diretor Presidente. A Eliúde diz que ainda não pagou meia entrada no cinema, eu não sei não.... Então, apesar de ter ido várias vezes no nosso Cemitério de Santa Marta, lembro só de umas poucas. Ir para Santa Marta ou ir para Cidade-de-Pé-Junto, significava o mesmo itinerário em Bom Conselho, embora, no Dia de Finados fosse uma alegre caminhada.
Lembro de um dia triste, embora de modo um tanto vago. Dia do enterro de Paulo Correia. Fomos numa fila, fardados, como alunos do Ginásio São Geraldo. Não me lembro de onde saímos. Recordo a chegada, pelos choros e desmaios. Era aluna de D. Josemir Torres, que a partir desta morte, e não sei se devido a ela, teve uns problemas de saúde e nós fomos entregues a D. Zuleide. Eu era uma aluna recente no Ginásio e para quebrar a tristeza da morte, narro outro fato da vida escolar. No fim do ano como aluna de D. Zuleide, parece que era no segundo primário, fomos todos convidados à sua casa, onde foi servido um pudim, hoje sei, de leite condensado. Até agora jamais encontrei ou provei algo tão bom. Concluindo que o primeiro pudim a gente nunca esquece, ficando na minha mente como o pudim de D. Zuleide.
Voltando à vida de alegria do Dia de Finados, no qual se trata dos mortos não por sua perda mas pela saudade, tão bem definida por Caliel, que eles deixam, conto outro caso de que nunca esqueço.
O ano foi apagado pela memória, mas era um domingo. Dia de Finados caiu num domingo. Hoje seria uma reclamação total. Não haveria “feriadão”. Brevemente, quando isto ocorrer, nossos legisladores o passarão para o dia 3, pois o importante são os vivos e não os mortos. Que era domingo, jamais esquecerei, pois tinha ido à missa da 9:00 na Matriz.
Ao sair, com as mesmas colegas com que ficava conversando na Igreja, fomos por insistência de uma de nós a uma Sorveteria, que abrira recentemente. O proprietário era o Dr. Padilha. Neste dia, não sei o que tinha feito de bom, minha mãe tinha me dado alguns “mil réis” (já era cruzeiro, mas muitos ficavam ainda no “mil réis"). Era alinhada a sorveteria, tinha mesas e cadeiras novas e uns balcões coloridos que eram as próprias máquinas de fazer sorvete. Por trás deles ficava um rapaz moreno a quem uma das colegas, depois de uma breve conferência sobre sabores, se dirigiu:


- Zezito, queremos quatro sorvetes de limão!


Até hoje não sei porque escolhemos este sabor. Afinal de contas o cardápio ofertava de Baunilha, Creme, Coco e até Morango. O único que não quis foi de morango, porque de morango só tinha o vermelho, talvez, feito com essência comprada na farmácia de D. Fifita.
Chegaram os sorvetes, em umas tacinhas de vidro muito bonitinhas e no curto período entre sua chegada cheias e sua volta vazias, vi que não era igual ao pudim de D. Zuleide, mas era muito gostoso. Demos uma olhada na praça, mas o sol já estava quente demais para uma volta. Fomos todas para casa, guardar o missal e o terço, que não tiveram nenhuma utilidade, e trocar a roupa “domingueira” pela de brincadeira. Quando cheguei ouvi logo minha mãe dizer:


- Depois do almoço vamos ao cemitério!


Era o esperado. Sempre íamos à tarde, depois das 3 horas, pois, apesar de morar perto, a ladeira do Santa Marta só quem subia sem reclamar eram os mortos, porque iam carregados. E assim fomos nós, homenagear os mortos. Quer dizer, eu já sabia rezar, mas a concentração era pouca, principalmente no cemitério.
Neste dia foi uma pouco diferente. Desde depois que tomei o tal sorvete de limão, comecei a não me sentir bem. No almoço, que, como toda casa de pobre não tão pobre, era macarrão e arroz e algum tipo de carne, já não comi direito. Minha mãe notou e não disse nada. Quando cheguei no cemitério estava com dor de cabeça. Minha mãe disse:


- Vai andar um pouco por aí, pela sombra, que passa!


Obedeci e comecei a andar entre as covas e os túmulos. Como em qualquer cidade desconhecida, a Cidade-de-Pé-Junto também torna difícil a nossa orientação, principalmente a minha, pois estava com dor de cabeça. Rodei um pouco entre mortos e vivos e quando quis voltar para onde minha mãe estava, não consegui. O pior é que cemitério, pelo menos o de Santa Marta, não tinha nome de ruas nem números. Deveriam dar nomes de políticos, e políticos vivos, a elas, para eles aprenderem que um dia morrerão e terão de ajustar contas com o Altíssimo. Mas não deram. E eu estava perdida e com uma dor de cabeça que aumentava cada vez mais. Não abordei ninguém mas fiz por onde ser abordada, quando comecei a vomitar o sorvete de limão, por uma senhora que disse:


- Está perdida, minha filha? Você veio com quem?


Não lembro como foi minha resposta, pois naquela hora, só prometia a mim mesma jamais tomar sorvete de limão outra vez.
Sei que, para chegar em casa, minha mãe teve que pegar um carro de aluguel, que foi um “jeep” de seu Júlio Padeiro. Vi minha mãe tirando o dinheiro de uma bolsa e entregando a ele. Hoje ainda não gosto de “jeeps” nem de Dia de Finados. Talvez seja por isso que digo aos meus filhos:


- Quando eu morrer não me levem para Santa Marta, prefiro Santo Amaro, é mais arborizado.

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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