segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Enterro de Padre Alfredo



Desde dias atrás, nosso conterrâneo, Alexandre Tenório, começou a escrever uma série de artigos com o título: O Dia em que Bom Conselho Parou. Neles, começou a descrever um dia importante na vida da nossa comunidade pelo seu envolvimento com um programa de TV (http://www.citltda.com/2009/09/o-dia-que-bom-conselho-parou-1-parte.html). Ele me inspirou para escrever sobre outro dia no qual nossa cidade também parou. Neste caso o motivo era de tristeza e não de esperança como aquele de que o Alexandre trata. O dia do enterro de Padre Alfredo também parou Bom Conselho.
Quem tem a minha idade, caminhando célere para figurar entre os primeiros a receber a devolução do Imposto de Renda, e é de Bom Conselho, tem alguma história pessoal para contar sobre este Padre, que, com o desconto da escala do tempo, eu considero o nosso D. Hélder Câmara. Os dois eram autênticos religiosos e devotos de sua fé na Igreja Católica, gostavam da simplicidade, protegiam os mais fracos, eram envolvidos com causas sociais importantes, e, principalmente nunca fugiram das lutas políticas.
No último dia 29 de junho fez 45 anos de sua morte. Na aldeia dos índios em Águas Belas, não soubemos de nenhum repique de sinos sozinhos, não caiu mais nenhum muro do hospital, e o povo continua com o padre na igreja e, agora, com uma mulher na prefeitura, ao invés de um Coronel. E eu não esqueço do dia do seu enterro.

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

Naquele dia, ainda uma criança, ao invés de acompanhar o féretro, eu me antecipei. Subi a serra de Santa Terezinha antes dele. Havia ainda árvores no caminho. Entre um cruzeiro e outro, onde a serra mais se verticalizava, subi em uma delas, sentei-me entre uns galhos que formavam uma forquilha, logo abaixo de outro menino, que talvez tivesse o mesmo propósito que eu.

“Sentindo-me gravemente enfermo, além da pior das enfermidades a velhice, quero deixar alguns esclarecimentos e algumas determinações sobre cousas de minha pobre vida.”

Fora os fatos de conhecer Padre Alfredo desde o meu batismo, as broncas que levava dele ao ir me confessar, a ponto de mudar definitivamente para Frei Leão, como meu confessor, e o ver nas missas dominicais, seu enterro naquele dia, representava apenas mais uma forma de ver algo diferente em nossa terra. Não era todos os dias que aquele movimento acontecia. Lojas fechavam, sinos repicavam, pessoas andavam mais do que o normal, chegando a correr. Para ser preciso, Bom Conselho não parou, com o significado de ficar prostrado diante de um aparelho de TV. A cidade parou de fazer tudo que fazia em dias normais para ver o Padre pela última vez.

“Estou nas mãos de Deus – Meu Pai – e d’Ele aceito alegremente tudo o que Ele houve disposto sobre minha vida.”

Não era para menos. Ninguém fora indiferente ao Padre Alfredo. Uns o amavam e outros o odiavam, enquanto outros passavam por todos os pontos da linha sentimental que levam a estes extremos. Sem querer julgar ninguém e nem querer levar pessoas para o céu ou para o inferno, estes extremos eram muito bem representados pelo Coronel Zé Abílio e pelo Seu Gabriel. Muito do que o Padre Alfredo fez em Bom Conselho deve-se à influência destas duas pessoas. Discordando de um e concordando com o outro. Na luta política e na luta religiosa.

“A Ele peço perdão pelos meus enormes pecados e deficiência. A Ele ofereço a minha morte. Quero que ela seja um ato de amor perfeito à Santíssima Trindade assim como um ato de total submissão e adoração à Sua Vontade Soberana. Também de amor à Santa Igreja. Tenho muito medo da Justiça de Deus, mas tenho uma confiança ilimitada na Sua Misericórdia Infinita. Sou pobre. O pouco que possuía já foi distribuído. Pouquíssimo me resta. Para maior clareza desejo e determino o seguinte:”

Não se pode esquecer que os meandros da luta política em Bom Conselho parece até um retrato fiel de tudo que se escreveu sobre Coronelismo em nossa região. Em nosso caso, o Padre e o Coronel parecem ter saído dos livros de história, como modelos. O poder religioso e o poder civil foram neles representados fielmente. Ambos queriam casar e batizar a todos, um para o voto, outro para missa. Quanto a seu Gabriel, tudo que o Padre Alfredo fez em relação às festividades religiosas, ou quase tudo, deve-se a ele e a seu time do Apostolado do Coração de Jesus (Lembro a escalação pela metade: D. Maria Francisca, D. Donzinha, D. Etelvina, D. Rosa, D. Expedita, D. Joaninha Cruz ...). Voltando ao enterro, com a minha idade, achei mais importante, deixar todo aquele burburinho de lado, subir a serra e me escanchar numa forquilha de uma árvore. Talvez, a mesma árvore, que um tempo atrás visitei em peregrinação e em oração, pelo milagre dela chover, e depois ter a decepção que a chuva era apenas urina de besouros.

“1º) Na cidade de Bom Conselho, os fundo da casa paroquial, construí um sobrandinho e determinei ‘O Quixó’, para minha residência. Quero e faço doação deste humilde prédio à SOCIEDADE DE SÃO VICENTE PAULO – ‘Casa de São Vicente’ que tem personalidade jurídica, para o fim de auxiliar com seus rendimentos ao ‘Abrigo D. Moura’ ou a Casa da Caridade de velhos indigentes, que temos conservado e amparado até hoje com as esmolas dos bons paroquianos. Terei o uso fruto enquanto viver e quero que seja inalienável perpetuamente. Conflito no critério Justiça do nosso bispo diocesano. No alto da Ermida de Santa Teresinha, num pequeno sítio, junto à Capela que tem já seu patrimônio em terra e casas de aluguel, fiz também um sobradinho para residência do Vigário ou do Capelão. Do mesmo modo quero que seja incorporado ao Patrimônio da Ermida, com as mesmas condições acima determinada:”

Certa hora da tarde, já um pouco incomodado com a dureza da árvore, vejo uma multidão vindo em minha direção, tornando-me uma ilha naquele mar de gente ou vale de lágrimas. Orações, cânticos e choros eram ouvidos enquanto eu observava de cima aquele fato, a meus olhos infantis, inusitado. Nem passava pela minha mente quanto poder tinha a Igreja. Hoje sei que o Padre era o único que podia peitar o Coronel. Pois acima do Coronel só Deus, e o Padre era seu representante ou afilhado, como deveria pensar o Coronel, e quem era afilhado, ele sabia, sendo fiel, ninguém podia bulir. E, eu, como Jesus, vendo a multidão subi ao monte, ou pelo menos, tentei, depois de descer, com dificuldade, de minha árvore camarote.

“2º)Biblioteca: quase desaparecida! Não convêm dizer. Restam poucos livros todos eles quero que façam parte da biblioteca do meu irmão mais novo, por um educado – Jorge Pinto Damaso. Quanto porém aos livros eclesiásticos ficarão sobe seus cuidado e destinados aos primeiro sacerdote da família que venha a ordenar-se futuramente.”

Não consegui chegar à Ermida de Santa Terezinha. Não presenciei o sepultamento. No entanto, subi o bastante para ver quanta gente veio dar o último adeus ao Padre Alfredo. Um homem, que é uma das principais referências históricas de nossa cidade. A ideia de intercalar estas simples lembranças com o conteúdo de sua Carta Testamento tem também o objetivo de relembrar um documento que é histórico, não porque é do passado, ele o é pelo poder que tem de influenciar o futuro.

“3º) Minha casa: É paupérrima. Nunca me incomodou a falta de conforto. O meu irmão Jorge disponha de tudo como quiser – lembrando-se de deixar cadeiras e camas à casa paroquial. Lembrando-se também do Paulo e da velha Júlia.”

Suas lições de humildade e sua luta pelos menos favorecidos são evidentes. Se ele mesmo pede perdão pelos seus enormes pecados e deficiências, imaginem uma carta testamento do Coronel. Na História, ambos cumpriram seus papéis. Tentemos cumprir os nossos.

“ATENÇÃO

No caso de morte aqui no Recife – é preferível – o sepultamento aqui mesmo para evitar atrapalhação e despesa no seio da família – no chão (cova bem funda). Enterro paupérrimo. Não convém transportar para Bom Conselho. Para que? melhor aqui mesmo.
No caso de Bom Conselho, se morto lá – seria o sepultamento no páteo da Ermida (antes da entrada) enrolado numa rede, presente de Alfredo Canuto – rede de linho – do Amazonas. E dentro do caixão da caridade, se os índios reclamarem – seria na Capelinha.

Ass. Pe. Alfredo Pinto Dâmaso”

Poucos destes últimos pedidos foram atendidos. Ele morreu em Recife, mas não foi aqui enterrado. Todos acharam que era melhor ele ficar em Bom Conselho. Nunca tive informação para saber se ele foi enterrado na rede em que pediu e no caixão da caridade, nem se os índios o reclamaram. Eu, de minha parte, fui ao enterro e não vi o caixão, mas participei de um dia importante para a História de Bom Conselho.
Estas linhas já haviam sido escritas quando, na semana da criança, visitei nossa terra. Com elas na cabeça, olhei para a Serra de Santa Terezinha. Ou o Padre Alfredo está chamando a cidade para perto dele ou a cidade quer ficar perto do Padre. Pois vi que ela já está quase chegando ao seu túmulo, e se não houver uma intervenção do setor público, planejando sua subida, brevemente, onde nosso querido Padre queria ser enterrado, no pátio da Ermida, teremos várias barracas de caldo de cana. Turismo é uma atividade saudável, turismo sem controle é um passo para destruição de nossos bens culturais.

Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com
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(*) Carta Testamento transcrita do livro: De Capacaça a Bom Conselho, de Celina Ferro.
(**) Fotos gentilmente cedidas pelo Zé Carlos, com quem encontrei em Caldeirões dos Guedes.

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