quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O Menino do Pau Grande



Minha crônica passada foi muito lida e comentada. Alguns comentários eram publicáveis outros não. Uns acham que eu estou contando coisas íntimas demais e deveria me conter. Talvez seja a influência do Pau Grande em minha moral que não me deixa diferenciar bem entre íntimo e não íntimo. Sofri isto em São Paulo, muitas vezes na escola, outras vezes nos empregos por onde passei e pretendo depois contar sobre eles para vocês. Num desses comentários, a Maria Caliel a quem agradeço comparou o meu estilo ao do José Lins do Rego falando do seu livro Menino de Engenho. Desde que aprendi a ler que leio mas, não escrevo desde que aprendi a escrever, não tinha assunto ou achava que não tinha, hoje acho que tenho demais, mas não tinha lido o Menino de Engenho.
Enquanto pensava no que escrevi e no que disseram, li Menino de Engenho e descobri que o autor deve ter nascido no Pau Grande também. Achei que o menino conta coisas mais íntimas do que eu, só que de uma forma maravilhosa e bem contada. Ah se eu tivesse a capacidade do Zé Lins! Como não tenho, eu o imito resolvendo falar ou escrever hoje sobre meu irmão Eraldo. Pena que nosso sítio não fosse um Engenho, aí eu escreveria o "Menino de Engenho Segundo a Eliúde". Infelizmente, lá só moíamos mandioca, e escrever o "Menino da Mandioca", soa pior do que escrever com o título dado a esta crônica.
Não repetirei, mudamos para o Pau Grande ainda muito meninos, por força das circunstâncias que cercam os pobres. O Eraldo era mais velho do que eu uns 3 ou quatro anos. Sempre foi um menino esperto e inteligente. Antes de ir para o sítio já havia trabalhado em Bom Conselho e feito alguns amigos por isso reagiu tanto quanto na saída para São Paulo. Impressionante nossa vida, nunca temos controle sobre ela. Desde meninos somos manipulados e assim aconteceu com o Eraldo. Vivia bem em Bom Conselho, levaram-no para o Pau Grande, vivia bem lá, carregaram-no para São Paulo, ainda hoje vive em São Paulo, pelas notícias que me manda, vive bem mas sempre esperando um dia que alguém ou alguma coisa o carregue para algum outro lugar como fizeram comigo.
O que lembro dele de Bom Conselho é muito pouco. Tinha um amigo, o Zé de Nininha, que só andavam juntos. Um dia, cheguei de repente num dos seus encontros nos quintais enormes que existiam naquelas casas e escutei um deles dizer:

- Agora você vem por trás!

Quando apareci eles ficaram um pouco sem graça e eu não entendi nada na ocasião. Hoje entendo tudo e ainda mais depois de ler o Menino de Engenho, quando eles saiam tangendo uma jumenta para o curral de seu Agripino. Era desde de lá um safado!
Outro dia, e esta eu não posso deixar de contar, depois que li o artigo do Jameson falando sobre o trabalho de crianças em nossa terra, o Eraldo chegou chorando em casa e eu ouvi a seguinte conversa, reproduzida aqui sem a emoção e raiva de ver a situação do meu irmão. Minha mãe vendo-o entrar daquele jeito disse, do jeito dela:

- O que foi isto, menino?
- Ele me bateu, mãe!
- Quem bateu, Eraldo?
- O dono da padaria!

Para que todos entendam, o Eraldo, um menino naquela época, resolveu ou meu pai resolveu por ele, trabalhar como “gaita” de padaria. Um “gaita” era alguém, normalmente uma criança, que além de fazer o serviço duro de varrer e lavar o chão das padarias, fazia entrega de pães e bolachas na casa dos clientes. Penso que, se havia alguma, a atração do Eraldo pelo emprego era andar pela rua. A conversa continua:

- Cabra safado. Ele pensa que é o rei prá sair batendo no filho dos outros? Vem cá, Eraldo, deixa eu ver isso. Nossa! Parece que feriu aqui nas tuas costas. Deixa teu pai chegar. Quero ver se ele não vai fazer nada.
- Foi com um saco de farinha mãe! Disse que eu tinha ficado muito tempo na rua!

Nisto chega meu pai. Ouve a história e com a objetividade e insensibilidade aparente do sexo masculino, pergunta:

- Tu demorasse quanto tempo na rua, Eraldo?

Minha mãe, então se “arretou”:

- Demorou o tempo de tua demência, Antônio! Um traste qualquer bate no teu filho e tu vens com perguntas besta?
- Mulher, quem precisa, é assim mesmo. Queria ganhar de tostão as pisas que o Zé de Nininha já levou de seu Manézinho lá na fábrica de vinho. Eu deveria era dar outra no Eraldo, ele deve der passado muito tempo na rua mesmo.

Eu saí para não ouvir mais a discussão, talvez ela só tenha terminado no Pau Grande, ou em São Paulo, ou morreram os dois lá sem terem terminado. Pensando bem, o sofrimento dos pobres deve ser discutido eternamente, pois alguém já disse que eles sempre existirão na face da terra.
Por causa da surra ou não, tendo sido ela boa ou má, o fato é que fomos para o Pau Grande. O Eraldo, depois de alguns meses, adaptou-se e voltou à sua vida de alegria. Pelo menos lá nunca apanhou de ninguém apesar de ter sido ameaçado muitas vezes, agora por minha mãe. Nunca mais ouviu falar de Zé de Nininha, outros amigos apareceram. Abandonou a jumenta e encontrou umas cabras. Aprendeu a subir em árvores feito um macaco e colher seus frutos, deliciando-se com eles no próprio pé. Trabalhava também. Na casa de farinha, quando tinha farinhada, ainda limpava mato num roçadinho que o pai mantinha perto de casa, ia buscar água numa cacimba ladeira abaixo.
Assim como eu tive uma vida de rainha no sítio, o Eraldo teve uma vida de rei. Ele descobriu que pobre pode ser rei, “gaita” não, da mesma forma, que muito tempo depois eu aprendi também que pobre pode ser rainha, empregada doméstica não.
Vejo hoje que foi bastante justificável sua reação contrária à mudança do Pau Grande para São Paulo, ou para qualquer outro lugar. Esta reação foi uma visão (Ia colocar premonição, que vi no dicionário, fiquei insegura pensando que alguém ia me achar uma retirante metida a besta). Uma visão do que estava por vir em São Paulo.
Vou poupá-los dos seus procedimentos na chegada a Guarulhos, por que foram absurdos. Basta dizer que ele se recusou a descer do caminhão, gritando:

- Eu quero voltar para o Pau Grande!

Enquanto chorava copiosamente até minha mãe usar de sua energia feminina e dizer:

- Desce logo, Eraldo! Ou eu subo ai e vou te quebrar de pau!

Ela mesmo, tenho certeza, não estava com vontade de descer, feito eu, feito meu pai e feito todos que montaram naquele "pau-duro-andante", que erradamente chamam de pau-de-arara, mas como dizem os vacinadores, enquanto furam as criancinhas, era para o nosso próprio bem. E, às vezes é mesmo, pelo menos se pensarmos que ser Presidente da República é uma bem para alguma pessoa. Sei de uma delas que já sentou no pau-duro e hoje não sai de um avião.
No início foi difícil para todos os que tinham idade para entender as coisas além do que comiam e descomiam. Eu era muito jovem, o Eraldo já tinha idade de trabalhar e foi isto o que ele fez. Inicialmente, começou ajudando meu pai como servente de pedreiro. Até hoje acho que este é o “trabalho em estado puro”. Quando Adão pecou e Deus disse que por isso ele deveria ganhar o pão com o suar do seu rosto certamente ele estava pensando num servente de pedreiro. Apesar de só pecar muito tempo depois, o meu irmão Eraldo pagou caro, “ralou” muito para deixar sacos e sacos de cimento e areia nos prédios de São Paulo. Cimento que ele não sabia a marca porque não sabia ler o letreiro dos sacos. Areia onde ele não podia escrever porque não sabia o “A”. Talvez ele achasse bom em relação a sua vida em Bom Conselho, não apanhava com os sacos de cimento, mas em relação ao Pau Grande, se pensasse chorava de saudades.
Sei que Eraldo aprendeu o ofício de pedreiro, foi dos melhores. Muitos ricos o chamavam para construir suas casas. Numa dessas soube de um movimento para alfabetizar adultos, era o MOBRAL. Entrou nos cursos noturnos, aprendeu a ler e a escrever em pouco tempo. Dizia com orgulho:

- O Cimento hoje era Poty! É o melhor.

Muitas coisas mais poderia contar sobre a vida de Eraldo, de meus pais, de meus irmãos mais novos, mas não tenho espaço e ainda tenho muito a contar sobre mim, deixo para depois e encerro resumindo. Eraldo casou, teve filhos entrou para o sindicato, diz até que foi líder certa época e conhece muita gente influente hoje. Na última carta que me escreveu disse que estava abandonando o PT, que ele, a seu modo ajudou a fundar, mas não entrou em detalhes a respeito dos motivos que o fizeram tomar esta decisão. Talvez seja porque ele continue, no fundo, sendo o menino do Pau Grande.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com


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(*) Imagens da CIT, feitas no caminho para o Pau Grande.

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