quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pelé e o 1000º Gol



Eu ainda estava em Bom Conselho quando o Pelé fez o 1000º gol. Era 19.11.1969, há 40 anos atrás. Ouvia o jogo na Rádio Globo ou Rádio Tupi, não me lembro bem. Era, como se dizia naquela época, um rapazinho de 20 anos.

Trabalhava duro e só não era de sol a sol porque dentro da mercearia não entrava sol, entravam muitos bêbados e futuros bêbados, pois lá vendíamos bebidas alcoólicas, a retalhos. Aguardente Guará, Serra Grande (a mais cheirosa que vi), Genebra (que o povo dizia “zinebra”) Gatinho, Conhaque de Alcatrão de São João da Barra ou Castelo (este era mais caro), Vinho de Jurubeba e uma “misturada”, que meu patrão comprava de um fornecedor desconhecido, que ao tomar o indivíduo nunca mais voltava ao estabelecimento. Dizem as más línguas que não voltava porque morria, mas, sem dúvida, era um exagero.

Estava sozinho em casa diante daquele rádio de válvulas, que levava uma meia hora para esquentar. Meu interesse era no possível gol do Rei, que já estivera para ser marcado no Nordeste, se não me engano na Bahia (ou Paraíba?). Tenho certeza que se houvesse um pênalti num estádio nordestino, o Pelé, com 999 gols, chutaria para fora. Tinha que ser no Maracanã. Eu era torcedor do Santos, mas torci para que o Andrada pegasse o pênalti, depois que ele não fez o gol mil aqui.

Mas, de fato, para o futebol e para o Pelé foi melhor que tivesse sido feito no Maracanã. O evento consolidou e com justiça uma carreira brilhante no esporte e renovava as esperanças de rapazinhos como eu de ainda tentar um dia, marcar tantos quanto ele. E se contar, desde menino, as peladas na Rua da Cadeia, em Maneléu, no oitão da Igreja, acima do muro do Colégio, no campo de futebol, de manhã, de tarde e de madrugada, com a turma do Professor Joaldi, penso que cheguei muito perto dele. Sei que marquei mais do que Romário, se contar a fase de São Paulo, que já é outra história.

Ouvi e me emocionei, e emoção nesta idade é sempre sincera, quando ele falou das criancinhas pobres do Brasil. Mesmo naquela fase braba do AI-5, e isto eu só percebo hoje, eu era um perfeito alienado em termos de política. Pensava mesmo nas criancinhas e acreditava que um jogador de futebol tinha um poder medonho. Hoje, nos vídeos, aquelas declarações soam um pouco “brega”, mas naquela época, me deu esperança.

O Santos ganhou aquele jogo. Pelé era jogador do Santos. Respondam rápido se puderem: Qual é o time do Romário? Zico era jogador do Flamengo. Qual o time do Cafu? Bita era jogador do Náutico. Qual o time do Carlinhos Bala? Eu sabia a escalação do Santos de cor e salteado, qual a de hoje? Tudo mudou. O Futebol hoje é uma atividade profissional, e o jogador é igual a mim, trabalhando naquela mercearia, vende a cachaça que tem, a quem pagar. Mudou muito. Para pior ou para melhor? Para quase velhos como eu, para pior, para jovens como eu era, talvez para melhor. Hoje ao invés de querer marcar mil gols, os rapazinhos, que já vem da escolinha de futebol, querem mesmo é se profissionalizar e ficar rico no exterior. Se não chegarem a tanto, já estarão satisfeito em jogar em algum clube que o pague o suficiente para o aparelho de correção de dentes, o trancelim e o brinco de pedrinhas, de preferência do tamanho dos de Robinho ou Adriano. Os mais antenados, e afro-descendentes como eu, não raspam mais a cabeça, isto é um modelo arcaico lançado pelo ex-fenômeno e agora fofômeno Ronaldo, a moda agora é "rastafári" igual ao do Vagner Love, e a namorada escolhe a cor, para receber “coraçõeszinhos”, feitos com as mãos após os gols.

Enfim tudo tem seu tempo. Tudo agora é profissional. E alguns choram hoje porque Pernambuco, o Leão do Norte, vai ficar fora do Campeonato Brasileiro. Eu digo: Vendam o Leão e a Cobra e fiquem só com o Timbu. Ou, mudem a ordem, para não ser faccioso. Só podemos pagar a um time bom. Seremos agora o Timbu do Norte, e não seremos forçados a aguentar os “perebas” que estão ai.

Jameson Pinheirojamesonpinheiro@citltda.com

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