sábado, 21 de novembro de 2009

Tentando salvar o meu olho...



Caro dialogador Oliveira, bom dia!

Só agora, após cumprir a promessa, que fiz a mim mesmo, da releitura do livro “O Gene Egoísta” estou retomando o assunto do nosso último diálogo. O foco nessa releitura foi direcionado para entender a seleção natural como meio de compreender nossa própria identidade (isso é sugerido no prólogo do livro). A compreensão do assunto para mim, não é só complicado, é “o problema”, talvez, insolúvel. Penso que isso se deve às minhas dificuldades de entendimento que estão exatamente no contexto do condicionamento a que você se referiu: “Quando nos habituamos a determinados padrões conceituais é difícil sairmos deles antes da eternidade”.

Levando em conta o dizer do Dawkins que: “Temos o poder de desafiar os genes egoístas de nosso nascimento e, se necessário, os memes egoístas de nossa doutrinação...”, venho há anos desafiando o poder dos primeiros, ao me esforçar para minimizar a possível herança familiar para problemas cardiovasculares (meu pai morreu destes problemas aos 33 anos e mais uma meia dúzia de tios também). Meu esforço para salvar/manter/enfrentar os genes egoístas (prefiro a opção da denominação de genes imortais) tem se concentrado em experimentar os conhecimentos adquiridos sobre a manutenção/reparação dos mesmos (alimentação saudável, atividade física adequada, estabilidade emocional, desapego, etc.) Não sei quais são as minhas chances de salvar os benéficos e/ou controlar os maléficos, mas vou tentando mesmo sem contar com a ajuda de Deus.

Quanto aos memes egoístas? Aí o olho de Horus é mais em baixo. Sei que é necessário me capacitar para enfrentá-los e, mais ainda, para selecioná-los (quando for capaz, vou ficar só com os humanitários – os éticos, não os teológicos). Os memes além de egoístas são ardilosos; impostores, como os das crenças religiosas; ilusórios, como os das ideologias políticas; transitórios, como as das teorias científicas; utópicos, como os das nossas fantasias da realidade, desviando nossa observação do que é para o que deveria ser – estes, às vezes arrebentam nosso hardware. Para enfrentá-los e/ou selecioná-los, não tenho dúvidas, devemos principiar por conhecê-los. Você diz que: “a ideia de Dawkins de “memes” para designar a exteriorização e interação dos genes no plano social ainda me parece muito sugestiva”. Para a mim a ideia de memes não é apenas “sugestiva” (que atrai, seduz; atraente, insinuante), ela é uma realidade palpável com as mãos do entendimento e visível com os olhos da razão. Estou convicto que são os memes que constroem meu software, minha alma, minha memória, ou qualquer “coisa” desse tipo. Não importa se o chamamos de memes, de pensamentos ou qualquer outro nome, o nome não é a “coisa”.

Sobre a aversão do Augusto de Franco, autor do artigo O Olho de Horus, ao Darwinismo e Neodarwinismo e sua tentativa de, como você diz: “contraditar a idéia de competição do Dawkins por uma mais "civilizada" Teoria de Redes Sociais”, para mim o ponto de vista desse autor não é relevante. Sobre essa polêmica tenho a seguinte compreensão: 1) essas idéias representam, respectivamente, o modelo linear e o modelo sistêmico de pensamento; 2) a primeira, “do pensamento linear”, é filha da hegemônica cultura patriarcal européia, onde prevalece a “competitividade”, neste contexto ela é representada por Darwin, Dawkins entre outros; 3) a segunda, “do pensamento sistêmico”, originado na pré-histórica cultura matrística, onde a “competência” (entendida como a reunião de habilidades necessárias a uma vida com mais solidariedade e menos medo) prevalece sobre a “competitividade”, neste contexto ela é representada por Maturana e Lynn Margulis entre outros. Isso posto, e diferentemente de Augusto de Franco, o antídoto que proponho para essa controvérsia é o “pensamento complexo”, de Edgar Morin, que materializa a necessária união dos dois pensamentos, linear e sistêmico. Penso que o pensamento complexo possibilita um abraço desse conflito, a competição (que faz o homem evoluir) e a cooperação (como motor do progresso).

Observo que no meu dia a dia vivo esse abraço (competição abraçada à colaboração). Por exemplo: nos meus jogos de tênis, sinto as disputas da competição como uma verdadeira cooperação. Cada jogador esforça-se ao máximo para derrotar o outro, como dois búfalos batendo as cabeças ambos tornam-se mais fortes. Ambos os jogadores tiram proveito de seus esforços em superar os obstáculos colocados pelo outro. Se o seu adversário tiver um saque forte sua recepção de saque melhorará, ou seja, cada um propicia o desenvolvimento do outro, colocando obstáculos, dificuldades e ao final do jogo nos cumprimentamos e “saímos abraçados”.
A competição nas relações humanas pode não ser cooperativa e sim destrutiva, desleal ou desonesta? Pode sim. E penso que a raiz dessa forma de competir está nos memes e não nos genes. Estes últimos são competidores leais e honestos, mesmo que às vezes inconscientemente destrutivos, os primeiros não, muitas vezes são desleais, desonestos e destrutivos. Quando a competição, entre os seres humanos, é usada como meio de projetar uma imagem para os outros, geralmente, o pior do indivíduo aparece, conduzindo a relação à desarmonia, à inimizade, a ganância e, por isso, a ausência de honestidade, de lealdade, de fraternidade e de amor ao próximo. Penso que essa forma de competir não tem nada a ver com os genes imortais, mas sim com a competição entre os egos mortais, personagens construídos pelos memes.

A competição nas relações humanas se dá de forma subliminar e, na maioria das vezes, o comportamento subjacente não é suficientemente percebido para que o indivíduo tome consciência e, certamente, repetido atua na formação de seu caráter. O que raramente se distingue é que o interesse em trapacear, pisar na cabeça do outro, para se impor como melhor está alicerçado na falta de confiança em si mesmo.

Caro dialogador, mesmo com a releitura do “O Gene Egoísta”, ainda me falta compreensão para aprofundar a questão da competição na seleção natural como meio de compreender nossa própria identidade, cogitado no início do dialogo. Por isso, vou reflexionar sobre a competição na vida a partir de minhas observações pessoais. Em nossa primeira competição, (con)correndo com bilhões de participantes (os espermatozóides) fomos o vencedor. Após vencermos a mais importante competição da nossa vida, seguida de outras vitorias, onde houve cooperação, para desenvolvimento celular, o sucesso do nascimento não é o suficiente para satisfazer os valores da hegemônica cultura contemporânea. Assim, nossos pais dão início aos condicionamentos que nos cabe, para continuarmos competitivos e termos uma vida de “sucesso”. Já nos primeiros dias de vida nos inculcam a vaidade, dizendo: – Esse é o bebê mais lindo do mundo. Durante nossa formação, nos cobram que na escola obtenhamos às melhores notas e seguem nos influenciando/condicionando para escolher uma profissão que nos notabilize, pelo saber e/ou pelo dinheiro. Ou seja, começamos o “jogo da vida” estimulado para ser o mais bonito, o mais inteligente, o de maior sucesso, o mais rico. Essas são as competições genéticas e meméticas, que observo em nossas vidas.

Não são as exigências meméticas desses condicionamentos que estão a moldar nossa humanidade super egotista? Não sou muito dado a manifestar discordâncias, principalmente nos assuntos que não sou especialista, mas vou me permitir uma exceção e discordar (sem automatismo) da manifestação do Dawkins quando ele diz: “Os genes egoístas (e, se você permitir as especulações desse capítulo, os memes também) não têm capacidade de previsão. Eles são replicadores inconscientes e cegos”. Discordo em parte. Penso que os genes são inconscientes e cegos sim, mas os memes não. Como já manifestei, os memes são ardilosos, não são nada cegos nem inconscientes e por isso fico de olho neles. Com os meus olhos e não com o Olho de Horus.

Quanto as Ciências Sociais serem um verdadeiro saco de ideologias concordo com você (sem automatismo). O que não podemos esquecer é que tanto as Ciências Sociais, como as Biológicas, as Físicas e, principalmente, as Ocultas não são nada cegas, nem inconscientes ou imparciais como os genes. Com ou sem método científico elas são memes. Por isso, tô de olho nelas.....só observando. Como comprei a idéia de que o observador é a coisa observada, vou me metamorfoseando ao tom das teorias vigentes. Observando nas Ciências Biológicas, a explicação do “determinismo genético” e da “redundância genética”, ou seja, das teorias dos sistemas lineares e dos sistemas complexos não-lineares. Nas Ciências Sociais, ando observando os assuntos relacionados a “a auto-observação e o ego”, tentando identificar o lugar da razão, da emoção, dos apegos e das dependências. Nas Ciências Físicas, nessas só observo as estrelas. E por último, nas Ciências Ocultas.....essas eu deixo para os religiosos observarem.

Agora, tratando das “redes sociais” eu concordo com você (de novo, sem automatismo) quando você diz ser um devaneio. Penso que o problema começa quando alguns autores tentam transferir a idéia da natureza autopoiética, do sistema de Gaia, para o domínio social. Eles esbarram no problema que os sistemas sociais humanos existem não somente no domínio físico, mas também num domínio social simbólico. Nesse caso, o problema pessoal é que introduzi no meu software alguns memes do livro “Teia da Vida”, de Fritjof Capra, e eles teimam em permanecer lá, com algumas idéias especulativas. Como eu tenho dúvidas se os sistemas sociais humanos podem ou não ser descritos como autopoiéticos, vou continuar acompanhando essa polêmica (de olho nela).

Onde o padrão de competição (darwinista) foi iniciado? Não sei, não sei se quero saber, e talvez se me disserem não vai alterar muito a minha vidinha de “vagabundão”. O que sei é que na minha primeira competição (já descrita) eu venci, por isso estou aqui. Na continuidade, meu padrão de competição vive se metamorfoseando, talvez até a eternidade. Pelo menos enquanto eu não tome no Olho de Horus.

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Ia esquecendo comentar sobre sua manifestação sobre o doidão JK. Antes de qualquer coisa, mandei uma mensagem para ele me desculpando por não ter informado, aos leitores daquele diálogo, que sua manifestação sobre qual a verdadeira religião era uma resposta às indagações de crianças e pré-adolescentes, para quem ele palestrava. Ele retornou a mensagem com algumas considerações. Reiterou que era um equivoco vê-lo como guru ou místico, qualificações que certamente não traduzem a essência do seu pensamento. Que eu podia constatar, na vasta literatura publicada de suas palestras e diálogos, que o aporte dos seus pensamentos se encaixa mais no âmbito das ciências da complexidade, em especial na cibernética de segunda ordem. Lembrou, inclusive, que vários desses aportes foram adotados e complementados pelo físico David Bohm, que colaborou com ele por um bom tempo. Se referindo à resposta dada as crianças sobre qual era a verdadeira religião, justificou ter se eximido de uma resposta conclusiva, tendo em vista que jamais inculcaria seus pensamentos em jovens mentes, de crianças e adolescentes, como costumam fazer as crenças. E acrescentou me dizendo textualmente: “Inquirir e aprender é função da mente. Por aprender não me refiro simplesmente ao cultivo da memória ou ao acúmulo de conhecimento, mas sim a capacidade de pensar de forma clara e sã, sem ilusões, e a partir de fatos e não de crenças e idéias. Não há aprendizagem quando o pensamento se origina de conclusões.”

Ele aproveitou e em um P.S. da mensagem, sugeriu que enquanto eu não encontrasse um sentido para vida, em vez de pensar ser um carro de boi analisasse a possibilidade de ser uma bicicleta, onde já tive alguma experiência. Assim, não precisaria de bois para me puxar, eu seria um semovente com quadro, guidão e rodas. Quem sabe rodas “Mavic Cross Max SL”.
Fuuuuiii!!!! Rodando por aí!!!! – É pedalando Roberto!!!!
Um “abraço complexo”, do seu compartilhador e por que não salutar competidor,

Roberto Lira - rjtlira@yahoo.com.br

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