sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Viver a Vida



Ainda com o estado emocional abalado pela não ida de Lula a Bom Conselho, venho outra vez incomodar-lhes com mais um escrito envolvendo novelas, e o que é pior, da Globo. Fico envergonhada diante da declaração da Ana Luna para as câmeras de TV de que éramos um Blog de intelectuais de Bom Conselho. Isto é verdade, se forem excluídos todos os nossos funcionários, deixando apenas os nossos colaboradores, entre os quais está a Ana. Senão vejamos: Cleómenes, a última vez em que usou o cérebro rezou um Pai Nosso. Depois se arrependeu. Eliúde, só o usa quando passa batom. Diretor Presidente quando troca os adjetivos em suas saudações. Jameson, quando começa a fazer embaixadas com a bola do meu neto. O Sandoval, o mais politizado embora não escreva, usa para dizer: Abaixo a Ditadura! O Zezinho, quando está em dúvida sobre quantas cadeiras terá sua Academia. Se isto é ser intelectual, eu sou Marie Curie ou Clarice Lispector.

Jocosidades a parte, estou possessa com o horário de verão. Causou uma verdadeira revolução nos lares nordestinos. Sei que vão aparecer pessoas, principalmente do sexo masculino, que dirão que é besteira, tudo continua como antes, nunca vi novela na vida, só vejo umas poucas vezes, e outras desculpas. Tudo isto agora tem maior sabor de mentira, e é culpa do horário de verão. Aqui, e em todo Nordeste, o Jornal Nacional agora começa as 7:15, pois no sul maravilha são 8:15. Sem problemas até aí. A Rede Globo, o que fez? Colocou a novela das 7:00, depois do Jornal Nacional. Os refratários a novelas, tinham a desculpa de ver o JN e depois ficavam dormindo (de mentirinha) na cadeira e viam a novela das 9:00. Agora, tem que dormir mais cedo. E eu, que não perdia a novela da 9:00, tenho que ver antes as das 7:00. Hoje ao invés de uma novela vejo duas. Abençoado horário de verão.

Eu digo abençoado como se não tivesse tão chateada com a novela Viver a Vida. Penso até que o Roberto concordará comigo, e o Beto Guerra, que só ver algumas vezes, também. A novela é um “saco”, desculpem a expressão. O noveleiro, ou seja, todos os brasileiros, pois de noveleiros e de loucos todos nós temos um pouco, quer realmente viver a vida, e não há nada melhor do que as novelas para fazê-lo, pelo menos com o preço que pagamos por isto. Depois de um dia de trabalho, ou de ociosidade cansativa, como a dos parlamentares, quando sentamos na frente da telinha, (que agora é telona digital maravilhosa em casas da classe média que era D e passou prá C, com o desconto do IPI, que fez o tsunami virar marolinha de verdade), comandamos a programação e partimos para felicidade com o inverossímil em toda sua pureza. Rimos, choramos, comentamos, brigamos, discordamos, falamos e usamos o mínimo o cérebro já cansado. Tudo é simples, tudo é leve, tudo é alegre ou triste sem nos deixar dúvidas existenciais profundas, tudo é bom ou tudo é mau e nossas escolhas são quase triviais.

Não sei se sou anormal por não ser uma intelectual do tipo que gosta da pobreza da vida real e por gostar deste luxo que são as fantasias das telenovelas. Só sei que sentia o mesmo com as novelas de rádio, quando ainda não era vergonha para os homens ouvi-las. Meu pais ouvia o Direito de Nascer e Jerônimo, o Herói do Sertão, sem nenhum sentimento de culpa. Também sentia o mesmo quando minha avó lia para nós um romance, todas os dias, a luz do “candieiro”, se não me engano: Guerra e Paz. A trama era mais complicada, mas quem disse que lembrávamos da do dia anterior. Da Escrava Isaura lembrava, ao ponto de querer ler por mim própria mas, ainda não sabia. Depois li o livro e confesso, gostei mais da telenovela com Lucélia Santos.

Voltando ao ponto de Viver a Vida. Tudo começou, como já sabíamos no Leblon. Quem conhece o Rio de Janeiro, como eu que fiz um curso por lá, quando era jovem, sabe que este bairro reflete a essência do chamado Rio Zona Sul. Todas as mazelas ditas cariocas estão por lá e adjacências. O autor parece nunca ter ido na zona norte, pois até os morros e favelas, quando há, são da Zona Sul. Então, com o poderio da Globo, isto vai para todo Brasil. É o poder das comunicações de massa. Cada um que se defenda como pode. O incentivo a manifestações culturais locais é um caminho mas, deixo isto para os intelectuais. Meu problema aqui é Viver a Vida. Em primeiro lugar ela poderia se chamar de Viver a Vida do Rubens Barrichello, porque nunca vi tão lenta. Os diálogos chegam a ser entediantes, parecem até baianos conversando. Além de intermináveis, parecendo debate de Eduardo Suplicy com Caetano Velloso.

Há coisas boas para quem tem uma TV com boa recepção. As cenas de paisagens do Rio, que continua lindo de morrer, e de algumas outras cidades e países como Paris e Jordânia. Entretanto, quando estou interessada em paisagens bonitas, vejo outros programas ou alugo um DVD. Eu quero é novela, e esta deixa muito a desejar. O autor, ou o diretor, não sei quem é pior, quer dar um tom de realismo que cabe mesmo é em seriado como Tropa de Elite, Plantão Médico, Globo Ecologia. Tudo isto pensando em educar o povo, mostrando assuntos sérios e responsáveis. E desde quando telenovela é um gênero sério e responsável? A gente, noveveleiros brabos, quer é diversão, emoção, choro e até vela, se a cena for de um enterro adequado, mas, passar cinco dias no São João Batista para enterrar um morto, é “dose”.

A moça que faz a Helena é uma atriz excelente, e não é por ser negra não, não curto preconceitos, mas, ser modelo com a altura dela, só alegrou minhas filhas, que tinham esperança de brilhar nas passarelas, e, graças a Deus, foram salvas pela altura. Mesmo gastando, no mínimo dois litros de “colírio chorador” , por capítulo, sempre há pensamento recorrente de que deveriam ter chamado a Naomi Campbel para o papel.

Para finalizar, era necessário mesmo que a moça ficasse tetraplégica? Não bastava só quebrar o tornozelo? É necessário mostrar cortando o pescoço dela? Quando estas cenas aparecem, não tem jeito, uso o equipamento mais engordativo que criaram nos últimos tempos, o controle remoto. Dou um clique, e vou Viver a Vida no SBT. Se o Sílvio Santos estiver lá, ainda tem a opção de Viver a Vida escrevendo estas besteiras, que espero, servirão para vocês também Viver a Vida, lendo-as. E não façam “caras e bocas”, seria a "treva".

Lucinha Peixoto - lucinhapeixoto@citltda.com

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