quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Lula e Eu



Pensei muito no título acima, era para ser “O Rei e Eu”. É o mesmo título de um filme que vi em São Paulo muito tempo atrás. Revi na TV. Era com o Yul Brinner e Débora Kerr, aquela mesma de Quo Vadis de que falou o Diretor Presidente outro dia. Não vou contar o roteiro e nem falar sobre ele, pois não tem muita coisa a ver com o que quero escrever, só o título. Resolvi mudar para ser mais direta.

Quando sentei aqui, e abri meu possante laptop, doação da CIT, com usos e frutos, o fiz só pensando em responder a nota da amiga Maria Caliel, cuja cortesia para comigo é quase infinita. Sempre incentivando e perdoando os erros do meu português ruim. Mas, como nada vive sozinho neste mundo de meu Deus, as ideias começaram a querer sair da cabeça.

Dizem que elogio em boca própria é vitupério, não sei se repetir elogios que outros fizeram a gente também é. Se for, correrei o risco de me vituperar (fui no dicionário, palavra feia e difícil). A Maria Caliel falou para as amigas dela que eu era escritora. Elas duvidaram (“O que? Não acredito! Uma menina que viveu num sítio no interior de Pernambuco, viajou de Pau-de-Arara pra São Paulo pra tentar a sorte, comeu o pão que o diabo amassou e hoje é escritora? Não acredito!!”). Caliel retruca e diz: “Quem viver verá.” Me arrepiei todinha ao ler a mensagem.

Não foi só pelo incentivo porque este já vem de antes e agradeço todos os dias, embora não reze tanto quanto a Lucinha, em minhas orações para o Santo Anjo, a ela e aos outros que me fizeram cada dia mais feliz neste impulso para escrever. O que me emocionou também foi a minha associação de ideias com a trajetória de outro pernambucano, que também saiu daqui num Pau-de-Arara e que, talvez por ser mais inteligente do que, não quis ser escritor. Foi ser Presidente da República. Hoje sou tão feliz sendo considerada escritora que nem o invejo. Quem sabe algum dia escreverei por ele como faz o Franklin Martins?

Pelo menos de uma coisa estou certa: os amigos de Caliel, hoje, jamais duvidariam que alguém, que saiu de Pau-de-Arara de um sítio no interior e que comeu o pão que o diabo amassou hoje seja Presidente da República. O Lula foi. Dizem que neste mundo coincidências ocorrem só quando Deus está dormindo. Ontem ele estava e uma aconteceu. Ao mesmo tempo que recebia a gentil mensagem de minha amiga, havia acabado de enviar o presente de amigo secreto, que este ano, o meu foi o José Andando, nosso Zezinho de Caetés.

Explico. Aqui na CIT, como em todo o país pelo Natal, fizemos o sorteio dos amigos secretos. Este ano, mesmo estando longe uns dos outros, isto também foi feito. Para quem estivesse longe, até o dia 25, os correios seriam usados para envio dos presentes. Eu tirei o José Andando, pronto não é mais segredo para todos que nos lêem. Espero que lá em Caetés a conexão tenha caído até a chegada do presente para ele não ler este texto. Pela lentidão dos correios hoje em dia, cujos efeitos observo quando o Diretor Presidente fica suando frio querendo ler a A Gazeta, o presente só chegará lá pelo Natal mesmo, e A Gazeta, lá em Belém só deve chegar em fevereiro.

Adivinhem o que havia enviado para o Zezinho, como meu amigo secreto! E aí é o ápice (desculpe Lucinha) da coincidência. Foi o livro da Denise Paraná: A História de Lula Filho do Brasil, que deu origem ao filme do qual ele falou tanto e vituperou tanto o Lula por não ter ido fazer sua estreia na cidade deles. Hoje leio até jornal de Paudalho. Por que não iria ler o livro antes de enviar? Desculpe, Zé, mas o li. Quem sou eu para julgar? Mas, eu gostei do livro e acho que ele vai adorar. Penso até que ele vai se ver junto das crianças brincando com Lula.

Não há como ler este livro sem comparar nossa trajetória de retirantes. Sexos e idades à parte, tudo foi muito parecido mesmo. Lula deve ter tido um papagaio que poderia se chamar Coronel, ao invés de Tenente, tinha um cachorro, o Lobo, que era do pai (um pai como aquele, ninguém merece), embora o livro não diga se ele morreu de veneno e, tenho certeza, teve a mesma tristeza que eu tive, e todos tem, de deixar sua terra para trás. Pensando bem, se colocar a idade e o sexo na comparação, tirando as aparências físicas, o Lula poderia ser o Eraldo, meu irmão, e vice-versa. Ambos foram sequestrados para São Paulo, eram analfabetos e pobres, ambos foram sindicalistas, e militaram pelo PT. Começo a pensar, por que o Eraldo não foi Presidente da República, ou pelo menos um bom candidato?

Como o professor José Andando me ensinava: quando a gente escreve, Eliúde, tem que deixar a cabeça solta e livre, o que fica no chão são os pés para sustentar a cabeça, se ela quiser fugir muito do assunto. Lembrando disso comecei a pensar, se foi bom para o nosso país que uma pessoa, como meu irmão, ter chegado ao seu posto político máximo. Ouvi uma vez o Lula dizer, que renovou a esperança de milhares de jovens sem estudos e trabalhadores, mostrando que eles poderiam chegar lá. Por que o Eraldo não chegou? Veio a minha mente então o monte de meninos que hoje jogam futebol com o olho em Ronaldinho. Por que tantos não chegaram lá? Eu, quando encontro um menino jogando futebol, eu digo o que minha mãe e dona Lindu diziam: Vai estudar, menino!!!

Não tenho muitas opiniões políticas mas leio muito, pois o professor José Fernandes me disse que isto é fundamental para ser escritora. Não sei avaliar se o Lula está sendo um bom Presidente ou não, mas ao observar a vida depois que comemos o pão que o diabo tentou amassar, como aconteceu com nós dois, eu apenas diria a ele, e pedirei a Zezinho que diga se algum dia ele o receber de novo:

Lula, não tente sómente dar o pão às pessoas, tente matar o diabo que o amassa. E este “diabo” presidente, é o analfabetismo e a falta de educação igual para pobres e ricos. Este país será um país muito melhor se, ao invés de toda criança pensar em ser Presidente da República, pensar em ser escritor, em primeiro lugar, depois ele poderá pensar se aceita ou não uma função pior na sociedade.”

Aviso logo, antes que a Lucinha diga que este discurso é dela, que não tenho vontade de ser presidente, mas, me perdoe Lula, eu seria uma indicação melhor do que a mulher que você anda indicando. Se quiser indicar uma mulher, pense na Marina, ela é das nossas, se alfabetizou com 16 anos, escreve melhor do que eu, e ainda defende o meio ambiente.

Vejam como é. Vejam em que minha nota de agradecimento a Maria Caliel se transformou. E hoje ainda tenho de agradecer ao Gildo pelos seus parabéns, e com muito cuidado para não escrever uma coisa e querer dizer outra, e eu nem pensava que era uma diplomata.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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