domingo, 13 de dezembro de 2009

A Morte do Meu Pai



Eu tinha uns 16 prá 17 anos. Já estava me habituando àquela vida da cidade. Hoje sei que não tem Pau Grande que resista ao tempo, quando ele nos é curto até para recordar. Estudava mas continuei nos empregos de doméstica. Uma doméstica que sabia ler. E me atrevo a dizer, sabia até pensar. Lia muito e de tudo e enfrentava até as patroas, que não eram um primor em matéria de conhecimentos. Uma delas, D. Zélia, se gabava de saber qual era a capital da Argentina. Se perguntassem qual era a da Venezuela, ela poderia ter um desmaio, por cansaço cerebral.

Não foi inútil o período que passei como doméstica. Era quase tempo integral, pois quando pensava que estava livre dos pestinhas, tinha que cuidar dos meus irmãos. Aprendi a lidar com crianças, e quando voltei a Pernambuco minha primeira tentativa de sobrevivência foi montar uma creche. Mas isto eu conto depois. Em São Paulo elas me ensinaram que, ao nos responsabilizarmos por elas, estamos cuidando do futuro da humanidade. Como o futuro da humanidade era um fardo muito pesado para carregar, terminei deixando as creches e nunca tive filhos. Fico com medo, ao escrever, que meu público leitor, onde há um monte de jovens casadoiras, siga meu exemplo e o mundo fique despovoado.

Dei estas voltas para me concentrar e escrever sobre um fato triste. Talvez o mais triste da minha vida: a morte de papai, o velho Antônio Villela.

O amor das filhas pelos pais é uma coisa complexa. Pelo pai então é inexplicável. Nos momentos alegres agradecemos a ele por nos ter proporcionado a vida tão feliz. Nos momentos tristes o culpamos por nos colocar no mundo. Entre estes dois extremos ficamos bem cientes de que ele faz parte indissociável (esta eu fui no dicionário, meu pai merece) de nossa vida. Como se diz nas cerimônias de casamento, que nunca enfrentei, “na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe”.

Atualmente, feliz da vida, pois escrevo e tenho mais de dois leitores (Caliel, Gildo, Diretor Presidente, e eu mesma, são os certos), vejo que meu pai foi de uma importância enorme em minha vida. Tanto em Bom Conselho como no Pau Grande o meu contacto com ele foi pequeno, e muito menor do que com a minha mãe. Na época de minha formação isto era absolutamente natural. O pai ia buscar o sustento na rua e a mãe e os filhos comiam o sustento em casa. Em São Paulo houve uma mudança pelas condições em que vivíamos e tínhamos que enfrentar. Eu fui a primeira a me alfabetizar e poder andar na cidade, lendo os letreiros dos ônibus. Lembro ele dizendo nos pontos de ônibus:

- Eliúde, será que este vai passar mesmo em Vila Augusta? Olha que é da mesma cor do que vai prá Maia!
- É, pai, eu li, não tou doida
!

E lá íamos nós para a Vila Augusta, e muitas vezes me enganava e ia bater em Macedo.

- Sabe ler, né!? Não sabe de nada!

Voltávamos e eu com a cara mais lavada, ainda sorria, enquanto ele perguntava, enfezado, a outras pessoas como voltar prá Tranquilidade.

O fato mais marcante que me lembro do meu pai foi quando ele matou um dos nossos cachorros no Pau Grande. Como se diz hoje foi um assassinato culposo, sem intenção de matar. Havia formigas no sítio. Comiam de tudo e faziam aqueles buracos enormes, formando os formigueiros que pareciam castelos de areia na praia, que vi pela primeira vez em Santos. Não havia folha que escapasse. Meu pai comprou veneno em Bom Conselho e chegou lá com uns pacotes dizendo a minha mãe:

- Berenice, isto é veneno prás formigas. Guarda bem direito para as crianças não chegarem nem perto!

No outro dia pegou os pacotes e partiu para o mato. Fez o que devia fazer e voltou, antes tendo lavado as mãos com um balde para não ficar nelas, vestígios do veneno. Disse se jactando do feito:

- Quero ver agora danadas, se vocês vão comer mais minha roça!

No outro dia, ao dar comida aos cachorros, que nada mais era do que o resto de feijão com farinha que nós, humanos privilegiados, comíamos antes, Capeta não apareceu, só Zica. Até a quarta ainda tinha um molhinho de carne, eles adoravam, de quinta em diante, igual a nós, comíam por que o bucho estava roncando. Era segunda e nada deles aparecer.

Meu pai, talvez desconfiando do que acontecera, chamou eu e o Eraldo para procurar o cachorro. Não deu outra. Ele estava estirado e duro perto de um formigueiro. Deduzimos logo o autor daquele duplo assassinato: meu Pai. Eu era bem pequena mas gostava muito do Capeta. Lembro de Eraldo chorando, meu pai parado como estátua e eu sem saber o que fazer.

Eu pensei naquela época que este fosse o dia mais triste da minha vida. Não sabia eu que, com a devida mudança em nossas circunstâncias eu passaria por emoções iguais, numa cena bem parecida. Ao chegar em casa um dia, vinda do trabalho, presenciei Eraldo chorando, meu pai parado como estátua e eu sem saber o que fazer. A diferença é que meu pai jazia inerte sobre a cama e havia outras pessoas no recinto. Meu pai tinha morrido. Entretanto, não deu para deixar de comparar as duas situações, tão distantes no tempo.

Quando hoje lembro das duas cenas, e ao percorrer a vida por longos anos, me sinto tão pequena quando lembro das minhas emoções no leito de morte do meu pai. Por muito tempo me achei um monstro quando cheguei a pensar que havia sentido o mesmo nas duas ocasiões. Como posso ser tão má ao ponto de sentir a mesma coisa pela morte de Capeta e do meu pai?
Hoje racionalizo, recorrendo à minha infância e adolescência como culpadas pela minha monstruosidade, dizendo para mim mesmo:

- Se fosse hoje, as emoções seriam diferentes. Jamais iria sentir, na morte de um ente querido, o que senti por Capeta!

Minha cabeça dá voltas e eu me pergunto se Capeta também não seria também um ente querido. Divago, como só é permitido aos escritores fazerem, e penso numa frase que minha mãe gostava de dizer, quando se irritava com nossa situação:

- Gente pobre e cachorro é tudo a mesma coisa!

Não sei se ela estava certa mas, lembro sempre desta frase quando alguém me diz que estou precisando de terapia. Economizo com o psicanalista e ainda faço o que ele mandaria fazer: escrevo sobre minha vida. Acreditem, é mais barato e mais eficiente.

Se a vida do meu pai me influenciou, sua morte me influenciou mais ainda. Com ele morria uma parte de nossa comida e de nossas roupas e de minha escola. Só a partir deste triste dia tive que ir à luta de verdade. A escola, os empregos de doméstica, as brincadeiras de infância tardia na cidade grande, se não ficaram para trás, estavam mais distantes. Algumas pessoas agora precisam não só de mim, dos meus carinhos e meus afagos e sim do meu dinheiro. Tenho certeza, meus irmãos e minha mãe sentiram tanta falta de mim, quanto eu sentia do meu pai, certas horas. Hoje sei porque: Ele é que trazia o dinheiro e muitas vezes, ao procurá-lo não sobrava tempo para coisas mais agradáveis. Como eu queria tê-lo visto envelhecer e lhe proporcionar tempo para me fazer carinho. Não pude. É a vida de pobre.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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