quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Natal de Belém

Há um ano atrás eu escrevi sobre o Natal (http://www.citltda.com/2008/12/bodas-de-ouro-e-festas-natalinas.html). Tanto os maus escritores, como eu, quanto os bons como a Maria Caliel e o José Fernandes, escrevem neste período sobre este tema tão importante para a civilização cristã. Hoje estou em Belém. Igual ao que acontece em todo lugar, as atividades vão parando aos poucos, na mesma proporção que sobe o burburinho nos shoppings center, lojas, feiras e comércio em geral. Aqui em Belém parece que até a chuva de meio dia atrasa. Ou será devido ao efeito estufa? Não estando a fim de entrar no burburinho natalino, nos resta ler o Blog da CIT e escrever para ele sobre a data.

Para aqueles que têm uma fé muito grande em Jesus Cristo, o que escrevo a seguir não tem muita importância, para mim, cuja fé é derivada dos meus pais e é mantida sem aquela convicção da Lucinha, o que vou dizer talvez faça sentido: Não sabemos ao certo a data do nascimento de Jesus.

Esta data é tão importante para a cristandade que os historiadores a procuram de forma especial, embora isto, como disse, pouco importe para os verdadeiros cristãos. Não há dúvidas de que Jesus nasceu em Belém ou nos seus arredores, uma pequena cidade do sul da Judeia. Era época de recenseamento romano na região, igual será aqui no Brasil no próximo ano.

José e Maria foram a Belém, para fazer este censo, a que eram obrigados a participar, da mesma forma que hoje o somos, por lei, a receber o agente do IBGE e responder às suas perguntas. Diga-se de passagem, que o objetivo deste inquérito, em Belém, era o mesmo do de hoje, direta ou indiretamente, a cobrança de impostos. Na viagem, aos chegarem aos arredores da cidade, Maria começou a sentir as dores do parto, e não tendo tempo de chegar à maternidade mais próxima, deu à luz numa manjedoura, cercada de pastores e animais.

Os historiadores ainda dizem que, devido à resistência do povo judeu em se submeter a este recenseamento, pois ninguém gosta de pagar imposto, inclusive judeus como Maria e José, este recenseamento teria ocorrido um ano depois daquele do Império Romano em geral, lá pelo ano 7 antes de Cristo (a.C). E ocorreu no oitavo mês deste ano, ou seja no mês de agosto. De acordo com o que é relatado pelos textos bíblicos, no dia seguinte ao nascimento de Jesus, José fez o recenseamento da sua família, pois Maria enviou uma mensagem a Isabel relatando o acontecimento. Pela tradição judia, a apresentação dos bebês no templo teria que ocorrer até 21 dias após o parto. Sabe-se ainda que Jesus foi apresentado no templo de Zacarias, de acordo com os registros locais, no mês de setembro, num sábado. Como se pode ver num calendário do tipo que a Ana Luna nos enviou outro dia (embora este só vá até 1900), o mês de setembro do ano 7 a.C. teve quatro sábados: 4, 11, 18 e 25. Ora, se os censos, em Belém, ocorreram entre 10 e 24 de agosto, o sábado de apresentação seria o dia 11. Então, se todas as contas estiverem certas, Jesus teria nascido depois de 21 de agosto do ano 7 a.C. Eu, sem querer com isto mudar toda a dinâmica capitalista em torno da data, diria que foi no dia 22 de agosto, pois este era o dia de aniversário de minha mãe.

A pergunta relevante seria: Muda isto alguma coisa? Jesus seria mais importante ou menos importante para o mundo se o Natal fosse no dia 22 de agosto? Ao pensar em responder isto me deparo com um conjunto de dúvidas filosóficas, que tive vontade de falar com o Cleómenes Oliveira antes de escrever. Ao ter certeza de que, ao contar o que estava pensando, ele perguntaria, em tom de blague: quem é Jesus? Eu resolvi me coser com minhas próprias linhas, embora não saiba se elas são suficientes.

Dias atrás escrevi um artigo que teve como inspiração um filme (http://www.citltda.com/2009/12/quo-vadis-domine-eu-vou-pra-copenhague.html). Ao saber disso, pensando, com uma certa razão, que eu era um cinéfilo, uma das funcionárias do hotel me convidou para assistir a outro filme numa sala, própria para este fim. Nem é necessário dizer que chamei a “gangue da CIT” para o evento. O Jameson e o Oliveira foram. O Jameson saiu na primeira meia hora, eu e o Oliveira aguentamos o tranco.

O filme era: O Curioso Caso de Benjamin Button. Depois comentamos: põe curioso nisto. Era do tipo que passava no Cine Coliseu no Recife, em minha juventude, e que íamos porque dava “status”. O Coliseu era o Cinema de Arte. Assisti ao O Processo lá e, até quando me lembrava dele, nunca o entendi. O roteiro, do filme que comento agora, é, para dizer o mínimo, intrigante, além de fantasioso. Em resumo, o Benjamin Button nasce com 80 anos e morre com menos de um ano de idade. O filme é “assistível” pela angústia que nos causa, ao nos colocarmos na pele do protagonista. Ao mesmo tempo em que fica menos velho e mais forte fisicamente, ele se torna cada dia mais sózinho pela velhice e morte daqueles que o rodeiam.

Enquanto todos nós temos um prazer enorme de pensar no passado, de relembrar a nossa mocidade, o fato de nos tornarmos jovens, quando sozinhos, pode nos levar ao extremo sofrimento. Estaríamos na contra mão da vida. Aí temos que pensar: como é bom envelhecermos juntos! Entretanto, pensando bem, o bom mesmo é se pudéssemos rejuvenescermos juntos, todos viajando para o nascimento e não para a morte. Será isto possível? Talvez sim. Basta voltar ao passado com o espírito de que as pessoas que estão lá hoje, são iguais ao que fomos lá um dia, merecendo nosso respeito, e que, o que se faz lá, deve ser feito prioritariamente para eles, e não para nós. Dancemos com eles, cantemos para eles, toquemos para eles, nos comportemos para eles e aproveitemos o Natal, para vermos que, quando nos despimos da vaidade, do egoísmo, do preconceito, nos tornamos mais jovens, mesmo que o Natal seja no dia 22 de agosto. A data de nascimento de Jesus, assim, não teria muita importância, se estas premissas fossem satisfeitas.


Agora eu lembro, o Encontro de Papacaceiros seria em setembro, mas, mesmo sendo em janeiro, vamos tentar colocar em prática as premissas. Só assim poderemos ser mais otimistas do que o José Fernandes.
Um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo de 2017 d.C.

Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com
--------------
(*) As fotos são da CIT, com arte de Lucinha Peixoto, feitas para cumprir as obrigações para com seu curso em Belém.
(**) Quando falamos do José Fernandes, nos referimos a uma nota dele no nosso Mural (22.12.2009).
(***) As datas e cálculos de dias foram foram obtidos da Internet, acreditem quem quiser.

Nenhum comentário: