domingo, 6 de dezembro de 2009

O Papagaio Tenente



Recentemente o nosso Blog tem se esmerado em publicar artigos relacionados a animais e bichos de todas as espécies. Inspirada pelo artigo do José Fernandes (http://www.citltda.com/2009/12/crimes-contra-fauna-etc.html), eu aproveitarei esta onda. Olhem bem para trás, o Diretor Presidente escreveu sobre Avestruz, Macaco e Jacaré (http://www.citltda.com/2009/11/o-avestruz-o-jacare-e-o-macaco-viva.html), a Ana Luna atacou de Juca Pato que não era bicho mas de qualquer forma é pato (http://www.citltda.com/2009/12/juca-pato.html) e já mexeu com os pés das galinhas (http://www.citltda.com/2009/10/minha-avo-comia-pes-de-galinha.html). No artigo citado acima, o José Fernandes pegou logo a fauna toda chamando atenção para os papagaios e tartarugas e não esqueçamos suas brigas com a Lucinha onde se discutia a vida dos “bambis”, que também são bichos.

Quando escrevia, deste espinhoso cargo de Diretora-Presidente Porcina, aquela que era sem nunca ter sido, para recomendar aquele artigo, lembrei que minha família tinha um papagaio que, hoje digo, curti muito naquela época de infância. Fiquei com medo de escrever porque já fui muito criticada por estas coisas de cacófatos e outros crimes linguísticos e gramaticais, se alguém quisesse insinuar que o meu papagaio era um perequito. Quando vi o autor dizer que a maldade humana não tem limite nem na lei, que às vezes é perversa, resolvi enfrentar os maus insinuadores e escrever sobre meu humilde animalzinho.

Lembro como se fosse hoje, quando meu pai chegou com um bruguelinho de papagaio quase sem penas, que ele comprou na feira de Bom Conselho. Naquela época este negócio de IBAMA nem existia. Bom Conselho era como a Pasárgada de Manuel Bandeira, e eu podia dizer: “...eu tenho o passarinho que quero, na gaiola que escolherei” (Achei esta citação poderosa, Lucinha vai dizer que é brega).

Quando chegava um destes em qualquer casa, mesmo engaiolado, era uma verdadeira festa para molecada. Neste caso fiquei temerosa, se é que criança tem este sentimento, pois ele era muito pequenino e peladinho, pensava que ele ia morrer. Minha mãe, apesar de reclamar por mais um trambolho dentro de casa cuidou dele. Preparou um mingau, que não sabia bem de que era, e deu pro bichinho. Alegria geral, ele comeu com uma vontade maior do que a de político para ganhar eleição. Meu temor foi passando e vi que ele viveria.

A vida é muito engraçada mesmo. Vendo de longe no tempo, de vez em quando sinto um temor como aquele quando vejo a esculhambação nestes governos e que não entendo bem mas leio, vejo e ouço sobre corrupção, violência e miséria. Temo pela vida deste Brasil, e não vejo ninguém que possa fazer um bom mingau. Pena que não tenha pego a receita do mingau de Dona Berenice.

Com o tempo, surgiram as peninhas e ele foi ficando mais esperto. Vivia numa gaiola onde meu pai criava um Galo de Campina que fugiu. Se fosse hoje ele, meu pai, pegaria uns trinta anos de cadeia, pois tinha criado canários, extravagantes, “pintasilvas”, ferreiros e outros. Teria que contratar um bom advogado e advinhem que eu contraria? Nesta gaiola tinha um poleiro e ele ficava lá enquanto eu não o tirava para ele andar pela casa com aquele andar desengonçado, típico dos papagaios e dos bêbados. Meu pai comprou uma gaiola de papagaio para ele. Ele já estava bem lindinho.

Até este ponto nós o chamávamos de louro, ou meu louro, que é o tratamento genérico para papagaio. Vem louro! Me dá o pé meu, louro! E ele dava, começou a dar o pé cedo. Meu irmão Eraldo disse um dia:

- Ôxe! Este papagaio não tem nome não? O da casa de seu Agripino chama-se Plínio!

Isto nos despertou para necessidade de dar um nome ao louro. Hoje talvez corrêssemos o risco, com esta onda de TV, de chamá-lo de Louro José, ainda bem que foi muito antes. Foi na época em que passava quase todos os dias pela frente da nossa casa em posição de caminhada o Tenente Caçula. Não farei aqui uma biografia dele, mas parece que ele foi prefeito de Bom Conselho e era uma pessoa influente, pois o diálogo que eu ouvia todo dia entre ele e os meninos que brincavam na rua, e algumas vezes comigo era:

- A bênção Tenente Caçula!
- Deus te abençoe!

Dizíamos isto todos com as mãos levantadas. Não sei qual era o poder do Tenente Caçula com as hostes divinas mas, eu me sentia abençoada o dia inteiro, o Eraldo também porque o ritual era repetido quase todos os dias. Talvez o Tenente também se sentisse recompensado por aquela alegre e espontânea demonstração de respeito. Em homenagem a ele o nosso papagaio foi batizado de Tenente. Não sei se ele aprovaria se soubesse mas, tenho certeza que ele gostaria mais do que se o chamássemos de Louro Caçula.

Deste dia em diante era Tenente prá cá e Tenente prá lá. Ele entendia ou parecia entender pois dava o pé quando se dizia: me dá o pé, Tenente! Neste ínterim (esta foi para arrasar, sempre quis escrever isto) fomos para o Pau Grande e conosco foi o Tenente. Para ele não mudou muito. Continuava sendo alimentado pela nossa mãe e brincando com a gente. Agora até já se aventurava em subir numa trepadeira que havia no alpendre. E continuava mudo feito o Armando Falcão. Tentávamos de todas as formas conversar perto dele e nada, ele não falava, nem mesmo dizia: “nada a declarar!”

Associando ideias, algum tempo atrás usei a expressão: “Papagaio come o milho e perequito leva a fama”. Sempre eu a usei para dizer que alguém está pagando por outro, mas fui verificar se significava isto mesmo. Então eu fui ao “pai dos burros” que antes era o Dicionário e hoje é a Internet, e procurei saber a origem da expressão. Alguém imaginoso escreveu:

Provém da cultura Asteca, onde havia um guerreiro famoso conhecido por Papagaio. Apesar de ser grande guerreiro ele era mudo. Ele tinha um colega de nome Periquito. Nos combates era o guerreiro Papagaio quem derrotava seus oponentes, porém como era mudo não conseguia falar para o cacique o que havia acontecido. Quem fazia o relato era o seu amigo Periquito, que se aproveitava da situação para convencer o cacique que o triunfo na batalha se devia ao seu próprio combate.”

Se tivesse lido isto naquela época arranjaria um periquito para ser o porta-voz, do Tenente, e talvez o chamasse, o perequito, de Sargento. Na certa ele iria descrever em detalhes todas as tramóias que o Eraldo praticava e eu temeria pela vida do Sargento, todos os dias. Mas, era realmente angustiante conviver com o Tenente sem que ele exercitasse a função que o destacava entre os animais: a fala. Era como um professor que não dá aulas, um engenheiro que não constrói, um político que não quer o bem do povo, um funcionário público que não aparece na repartição, um padre que não reza, um médico que não se importa com os doentes, e outras tantas coisas que vemos todos os dias, mas nunca nos acostumamos com elas e nestes casos, realmente, o Sargento levaria a fama. E haja Sargentos.

Para concluir, o Tenente passou todos os seus dias, no Pau Grande, mudo e nos fazendo felizes, até que um dia desapareceu. Quando eu acordei, em um não belo dia, não o encontrei na gaiola ou em lugar nenhum. Procura aqui, procura acolá, culpa fulano, culpa beltrano e nada. O Tenente escafedeu-se. Soube um tempo depois que apareceu um papagaio morto no sítio vizinho. Eu não fui reconhecer o corpo do Tenente, nunca tive certeza se era ele mesmo, e não seria agora que ele iria dizer. Retiro deste episódio uma lição: Quando não falamos enquanto estamos vivos, depois de morto ninguém liga. Por isso hoje escrevo sobre a vida do Tenente, não por ele mas, por mim.

Sei que estou confessando um crime e nem sei se ele já prescreveu. Me penitencio junto à sociedade mas, não me arrependo de ter cuidado do Tenente. Antes que alguém venha me prender digo, na época do crime eu era menor, outros criminosos, meu pai e minha mãe já faleceram. Temo pelo meu irmão Eraldo se o crime for imprescritível. Sei que Caixa Dois prescreve rápido, ter um Tenente em casa não sei. De qualquer forma avisarei a ele que escolha rapidamente um Sargento para levar a fama.

Depois de ler o Mural de ontem, também aconselho a amiga Maria Caliel a arranjar um Sargento paraibano, dizem que são os melhores para ajudar no trabalho comunitário. E só para dizer algo que aprendi em São Paulo e o tenho “entalado na garganta” para escrever: Dura Lex sed Lex, no cabelo só Gumex. Desculpem, os não chegados ao latim, mas penso que não teria outra oportunidade de escrever isto, nesta vida.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com
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(*) - Fotos da Internet.

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