quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quo Vadis, Domine? Eu vou prá Copenhague.



Aqui em Belém não é só trabalho, felizmente. Recentemente, descobrimos, eu e o Jameson, que é meu companheiro de quarto de hotel, um aparelho de vídeo-cassete ligado à TV de nosso não tão confortável aposento. A TV fica enjaulada numa grade a quase 3 metros do chão de modo que você só a possa ver deitado, se não quiser ficar com um torcicolo dos brabos. Junto com ele estava uma fita do filme Quo Vadis. Pela a história deste filme não pude deixar de vê-lo. Meu pai dizia que o assistiu no Cine Rex, tão falado, encantado e decantado por todos os Bom-conselhenses saudosistas como eu. Eu o assisti depois, não me lembro onde, a primeira vez.

A expressão “Quo Vadis, Domine?” (Aonde vais, senhor?) é atribuída a São Pedro quando fugia de Roma para evitar ser morto pelos perseguidores dos cristãos. Na fuga encontrou Jesus carregando uma cruz e usou a expressão, à qual teve como resposta que estava indo à Roma para ser crucificado novamente, já que São Pedro o tinha abandonado e aos seus seguidores. Arrependido, São Pedro voltou a Roma unindo-se aos cristãos, sendo crucificado.

Quo Vadis é um filme baseado num romance polonês, cuja história se passa na Roma Antiga. No fundo é uma história de amor. Amor humano e amor divino. O amor humano é vivido por Lygia (Deborah Kerr) uma cristã que se apaixona por um centurião romano, o Marcus Vinicius (Robert Taylor). Nesta época, Nero (Peter Ustinov) era o imperador de Roma, e ateou fogo à cidade, culpando os cristãos pelo ato. O amor divino, é a fé dos cristãos no seu Deus enfrentando Nero e seus leões, morrendo como São Pedro ou sobrevivendo como os protagonistas do romance ou do filme.

A queimação de Roma enquanto Nero tocava sua lira e chorava menos por Roma e mais pelo grande artista que ela iria perder, é a cena mais tocante e inesquecível. No mundo moderno, talvez imitando Nero, resolvemos colocar fogo no nosso planeta. Será que poderíamos culpar os cristãos também? Se fizéssemos isto talvez estivéssemos sendo mais justos e corretos, com nossa acusação, do que Nero o foi.

A partir do século XV, a chamada civilização cristã ocidental começou a pensar que podia ser hegemônica ou em termos mais simples e rasteiros, que era a “dona da carne seca” e, em nome do cristianismo expansionista, cometeu todo tipo de crimes contra outras civilizações para impor seu estilo de vida. Quase conquistou o mundo pela sua presença em todos os continentes. Escravizando outros povos que não se rendiam ao império dos Neros modernos. Depois de pilhagens e mais pilhagens, o colonialismo gerou frutos e vítimas suficientes para alimentar a Revolução Industrial, que proporcionou a faca e o queijo para um padrão de vida nunca visto, e ao mesmo tempo criou condições tecnológicas para queimar o planeta.

Os mesmos cristãos que foram culpados por Nero de forma injusta, pelo incêndio de Roma, em nome de Jesus deram início ao incêndio do nosso planeta. O padrão de vida que foi gestado com os frutos da Revolução Industrial, que surgiu no centro econômico do mundo no século XVIII, é, em grande parte, culpado pelo que hoje se chama de “aquecimento global”, “efeito estufa” ou, mais precisamente, incêndio planetário, e que foi exportado para todo mundo. Atualmente, neste aspecto, podemos dizer que todos somos “cristãos”. Qual o país do mundo de hoje que não quer imitar o padrão de vida europeu-americano, que agora pode se dizer que é europeu-americano-japonês-chinês? Todos estamos queimando Roma, digo, a Terra.

Quando vemos um dos nossos índios, talvez da tribo fulniô para ficarmos pertos de Bom Conselho, com um câmera na mão e, não necessariamente, uma ideia na cabeça, nem imaginamos que é por ali que o planeta está sendo queimado. Basta ver quanto tem de petróleo envolvido na produção de tão útil apetrecho fotográfico. Ou quando vemos um filme como Quo Vadis a partir de uma fita de vídeo que teve sua contribuição para o aumento da temperatura global. Sem contar com a geladeira, liquidificador, o aparelho de ar condicionado, tudo produto da nossa civilização cristã ocidental que agora é mundial.

Estamos sim queimando o planeta. E a consciência disto está levando os governos a Copenhague, capital da Dinamarca. É a chamada COP-15, ou 15ª Conferência de Copenhague que, reunindo 193 nações, é considerado o mais importante encontro da história recente dos acordos envolvendo questões ambientais incluindo o problema do aquecimento global e mudanças climáticas. Aparecem aí questões como o impasse entre países desenvolvidos e em desenvolvimento para se estabelecer metas de redução de emissões e as bases para um esforço global de mitigação e adaptação por todos os países envolvidos. Como era de se esperar, os países desenvolvidos, com ênfase para os Estados Unidos, e agora para a China, com padrões de vida extremamente incendiários, ou prestes a tê-los, são os que mais reagem a mudanças. Não seria exagero cognominar o ex-presidente americano, George Bush de o Nero moderno e o Deng Xiaoping um sério candidato. O que seria injusto seria culpá-los sozinhos pelo incêndio do Planeta.

Quase todos os governantes com padrão de vida similar ao americano ou aqueles que querem chegar a ele, como Rússia, Japão, Brasil e Índia, para citar os maiores, tem sua parcela de culpa no incêndio, e o grande objetivo desta conferência é mostrar que as labaredas estão quase fora de controle neste incêndio. Cada um tem que fazer a sua parte, e embora seja um tanto injusto para aqueles que não aproveitaram os frutos do padrão de vida suicida dos mais desenvolvidos, a questão é secundária. Se o fogo ficar fora de controle morreremos todos queimados, pois ainda não produzimos nenhum organismo politicamente habilitado para fazer justiça em nível mundial. A ONU é um embrião cujo desenvolvimento é determinado pelos maiores poluidores do planeta, e sonhar com a ficção científica da chegado de um ser extraterrestre, para colocar ordem e impor justiça, é sonhar em vão. O engajamento e sacrifício de todos é a solução.
Em artigo neste Blog, tempos atrás, o nosso colega Cleómenes Oliveira (http://www.citltda.com/2008/12/bom-conselho-e-ecologia-por-quase-todo.html) dizia, referindo-se a Bom Conselho:

Foi a fase onde um colega meu aqui na empresa me contou a história de um fazendeiro que destruía todas as árvores de suas terras para plantar capim. Uma árvore morta dava para criar mais um boi. Perguntado se não poderia estar comprometendo suas terras no futuro, com a desertificação, altas temperatura, e comprometendo a vidas dos filhos, ele respondeu: Eles que cuidem dos filhos deles como eu cuidei dos meus. Será que conseguirão?

Apesar de achar o Cleómenes muito mais versado do que eu nesta questão, tenho que dizer que o colega citado era eu, e ainda não quero dizer o nome do fazendeiro. Por um motivo simples. São quase todos. E talvez este padrão de comportamento se repita em cada lar das zonas rurais e urbanas em todo planeta. A resposta seria a mesma para as perguntas: Comprar um automóvel, fraldas descartáveis, filmadoras, geladeiras, viagens, plásticos em geral, televisores, etc? Já pensaram o que acontecerá, se a posse de um automóvel, se transformar num símbolo de “status” como o é no ocidente, para todo o mundo, em nome deste louco padrão de vida? Todos os chineses, e com toda razão e justiça, quererão um automóvel. Nos padrões tecnológicos de hoje, teríamos um desastre de proporções gigantesca.

Nós, do Brasil, contribuímos pouco na tarefa de colocar fogo no planeta. Não tivemos o padrão de vida americano, nem acabamos totalmente nossas florestas, como eles fizeram. No entanto, nos últimos anos, em ritmo de Brasil Grande, riscamos muitos fósforos por aí. Pior de tudo, hoje estamos brigando pelos recursos do Pré-Sal. E esta é nossa grande contradição ao adotar também, o automóvel como símbolo de civilização. Se tivermos êxito em apagar o incêndio no planeta, o petróleo pode ficar inviável como base da energia mundial. Não adianta o Hans e o Fritz aperrearem a Mama e o Capitão (http://www.citltda.com/2009/11/os-sobrinhos-do-capitao-e-o-pre-sal.html) pelos recursos do Pré-Sal, eles não existirão.

Não há outra forma de resolver este imbróglio criado pelos “cristãos”. Temos todos que fazer o dever de casa. Isto envolve um esforço de auto-educação imenso pelo tempo que nos resta de vida e um maior esforço ainda da educação dos nos descendentes. Para nos salvar alguns tem que ser crucificados em Copenhague. Todos esperamos que sejam os “cristãos” verdadeiramente culpados. Será que eles encontrarão Jesus carregando uma cruz, como São Pedro, e o Obama perguntará: "Quo Vadis, Domine?" Mesmo que encontre e Jesus responda a mesma coisa que respondeu a São Pedro, será que ele voltará para ser crucificado? Pode ser. Talvez ele não queira, no que sobrar do planeta, ser lembrado, em algum filme ou romance, como o primeiro afro-descendente a ser chamado de Nero, tocando lira e chorando por não ser o mesmo artista que o verdadeiro Nero pensava ser.

O Cleómenes, ao ler isto, disse secamente: “Eu já comprei uma esteira de praia para pegar um bronze lá em Caldeirões dos Guedes.”

Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com
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P.S. - Independentemente das associações, espúrias ou não, entre o incêndio de Roma e o aquecimento global feitas acima, o filme Quo Vadis deve ser visto, como um clássico do cinema, que é. Talvez, também, pela a constatação, no final, de que Nero, mesmo depois de incendiar Roma e colocar a culpa nos cristãos, ou seja sendo incendiário e mentiroso, detinha um índice de popularidade de mais de 80%, pelo que se viu no Coliseu, sem estimativas das margens de erro.

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