quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ambiguidades & Cia.


"Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos.
"A língua é a mais viva expressão da nacionalidade."
(Napoleão Mendes de Almeida.)



Não sei se por falta de assunto ou não. Mas sei que voltei a este assunto: língua portuguesa. - Ambíguo, entre outras coisas, é o que comporta mais de uma interpretação. Na fala ou na escrita, é aquilo que não fica claro. E pode dar confusão mental, quando pinta ambigüidade.

Michel de Montaigne ensinou esta lição, há mais de 400 anos: "A frase tem três virtudes. A primeira: clareza. A segunda: clareza. A terceira: clareza". Nada mudou até os nossos dias. Pelo contrário, com a velocidade das comunicações, a clareza no texto ganhou mais importância. Ela se impõe como a grande qualidade do texto. Porque nós escrevemos para ser entendidos. Daí o esforço que fazemos para chegar lá. Isto é, para nos fazer entender.

Os pronomes possessivos de terceira pessoa, seu e sua parecem-nos inofensivos. Mas podem causar estragos, tornando o enunciado ambíguo. Assim, muitas vezes, eles sobram no texto. Vamos a alguns exemplos:

"A personal trainer da cantora Madonna revela os segredos de sua forma." Essa chamada está na capa da revista Veja de 19.11.2008. Pergunta-se: os segredos da forma de quem? Nem no texto isso é explicado. Tanto pode ser da preparadora física, quanto da artista. Eis uma das tantas dos possessivos seu, sua, causadores de muitas ambigüidades. Porque, no exemplo acima, sua forma, pode referir-se a uma ou à outra. Escreva-se desta maneira e adeus sentido ambíguo: "A personal trainer de Madonna revela os segredos da forma da cantora".

Outra: "O subprocurador encontrou-se com a senadora Roseana Sarney no aeroporto de Brasília. Durante o encontro, ele chegou a ensinar Roseana a utilizar alguns recursos do seu celular."

De quem é o celular? De Roseana ou do subprocurador? Para ser claro, o repórter tem opções. Poderia escrever: alguns recursos do celular dele. Ou dela. Tirando o possessivo seu, e as contrações dele e dela, seriam recursos de qualquer celular. De qualquer fabricante. E estaria claro.

Mais outra frase ambígua e longa: "Adriana Barreto lembrou que, no telefone, Plácido se referia ao senador em termos cabeludos e impublicáveis - e que, mais tarde, ACM se queixaria a sua mãe pelas palavras grosseiras do namorado." (Revista ÉPOCA, 24.2.2003 pág. 34.)
Vejamos: ACM se queixou à mãe de quem? Do próprio ACM ou de Adriana? E de quem é o namorado? Poderia ser namorado do próprio ACM, da mãe que ouviu a queixa; ou de Adriana. Ainda pode ser de outra pessoa!

Outra ainda: "Roberto reivindicou a Jarbas uma secretaria para acomodar seu filho, Carlos, que pretende fazer seu herdeiro político, mas o governador não atendeu". - (Coluna Pinga-Fogo - Jornal do Commercio - Recife, 13.02 2003).

Quem pretende fazer o herdeiro político. E de quem será o herdeiro? E Carlos é filho de quem? De Jarbas ou de Roberto? Mais uma causada pelo emprego do possessivo. Não precisamos reinventar a roda. Mas pode-se dar um jeito nessa barafunda, assim: "Roberto reivindicou a Jarbas uma secretaria para acomodar Carlos, filho do próprio Roberto e futuro herdeiro político do pai. Mas Jarbas não atendeu".

Agora, deixemos os possessivos pra lá, e vamos em frente com esta outra manchete do Jornal do Commercio de Recife: "Lula vai receber prêmio pela paz da Unesco." Ora, por que Lula merece ser premiado só porque a Unesco está em paz? - Parece-nos que a manchete quis dizer isto: "Lula vai receber da Unesco, prêmio pela paz."

A imprensa está cheia de ambigüidades. Com uma vírgula ou simples jogo de palavras, isso pode ser evitado. Duas frases em matéria jornalística servem de ilustração. Ao comentar a prisão de Suzane Richthofen, o jornal soltou esta: “Os longos cabelos, usados após a prisão para esconder o rosto dos fotógrafos e cinegrafistas, estavam divididos em duas tranças”. Enfim, os cabelos escondiam o rosto de quem? Dos fotógrafos e cinegrafistas ou da moça? Portanto, o período poderia ser escrito de várias formas. Fiquemos com esta: “Os longos cabelos de Suzane, que esta usou para esconder o próprio rosto, de fotógrafos e cinegrafistas, estavam divididos em duas tranças”.

Vamos à outra sentença bastante ambígua: “No Dia das Mães deste ano, Suzane teve uma forte discussão com os pais e levou um tapa na cara de Manfred”. Primeiro: a oração dá a entender que o Dia das Mães é só deste ano – e não das mães de todos os anos. Mas o dia é das mães de todos os anos e de todos os dias. Deste ano, dos anos passados e dos vindouros. Segundo: de quem é a cara que levou um tapa? De Manfred ou de Suzane? Vamos escrever de outro modo: - “Este ano, no Dia das Mães, Suzane teve forte discussão com os pais e levou um tapa na cara, dado por Manfred”.

De outra feita, falando na Rádio CBN, o cantor Moacyr Franco produziu esta frase: “Eu já gravei muita coisa mal”. Ficamos sem saber se Franco apenas quis pôr o advérbio no fim da frase ou se pretendia usar o adjetivo mau, ruim. Criou ambigüidade. Querendo Franco dizer que já gravou mal muita coisa, a frase está correta. Mas, se a intenção do cantor era dizer que já gravou muita coisa ruim, má, ordinária, aí ele tropeçou nestas duas palavrinhas que atrapalham muita gente: mal e mau. Mal é o contrário de bem. É advérbio e não varia.

Exemplos: “Às vezes eu gravo bem; outras vezes, gravo mal. E já gravei mal muitas coisas”. “Mulheres mal-amadas são ou foram vítimas de homens mal-educados e malcriados. Enfim foram vítimas de homens de maus bofes”. (*). Ver notas no rodapé.

Por outro lado, mau é antônimo de bom e sinônimo de ruim, perverso. “Essa comida é de mau tempero. O Lucas é um homem mau”. Mau, ruim são adjetivos e variam de acordo com o substantivo. “Esse restaurante serve má comida. Algumas pessoas são más. Homens maus praticam ações más. Manoel amanheceu de mau humor. Seus humores hoje estão maus”. Aqui, uma explicação: Podemos estar de mau humor ou mal-humorados (*).

Portanto, falando ou escrevendo, tenha-se sempre o cuidado pra não gerar ambigüidades. Do modo em que a frase foi posta por Moacyr Franco, criou-se ligeira confusão, quem sabe, erro mesmo, coisa que devemos evitar. Porque ouvintes e leitores precisam saber o que ouvem ou lêem. É preciso clareza. E quando escrevemos, o cuidado deve ser redobrado.

Vejam esta, ainda: "A ONU está à procura de um técnico para ocupar o cargo de diretor daquele centro de estudos sobre a pobreza que vai instalar no Rio". (Ancelmo Gois / Jornal do Commercio - Recife).

- E vão instalar mais pobreza no Rio? Já são tantos os pobres que habitam o Rio de Janeiro! Para derrubar o sentido ambíguo, escreva-se assim: "A ONU está à procura de um técnico para ocupar o cargo de diretor do centro de estudos sobre a pobreza, a ser instalado no Rio".

Sabemos que a imprensa tem pressa pra botar o seu bloco na rua. E que os seus agentes nem sempre são bem preparados. Portanto, não nos guiemos por ela, porque poderemos dar com os burros n'água. Nem só em assuntos de língua portuguesa. Noutros também.

N O T A S: - Mal e mau, muitas e muitas vezes funcionam como substantivo e como adjetivo: “O mau está sempre na tocaia {o elemento mau})”. “O mal por si se destrói {qualquer coisa má}).” “O mal (epidemia) se alastrou por toda parte”. “Os maus (adjetivo) políticos furtam todo o dinheiro do povo”. “Maus (adjetivo) pensamentos rondam a cabeça de muita gente”. – E mal pode ser até conjunção: “Mal chegaram, tiveram de partir” (= logo que, tão logo, apenas.)

O Correio Braziliense escreveu esta frase, no dia 1º.9.2009: "Quem apostou no Francenildo se deu mau". Dá pra perceber que trocaram seis por 106. Porque o certo é que se deu mal quem apostou no caseiro Francenildo.

Antes do acordão, o advérbio mal se ligava por hífen às palavras seguidas de vogal ou h (regra geral). Mal-amado, mal-assombrado, mal-educado, malcriado, malcomido, mal-humorado etc. Com o acordo, que chamaram de reforma, mudou tudo. Todavia, não esqueçam que, mesmo após o acordinho, o termo mal-estar se mantém com hífen: "Ele teve um pequeno mal-estar". E tem mais: antes do aordão, malmequer, era como está aí, tudo pegadinho. Agora, passou a ser mal-me-quer. Por quê? Deixemos na interrogação! É isso./.

José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br

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