quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Caras e Bocas



Aqueles que me lêem sabem que as novelas, mesmo que não seja o único, é um dos meus gêneros literários ou artísticos preferidos. De quando em vez escrevo aqui sobre elas, as que assisto, é óbvio. Ao contrário de Roberto Lira, não parei de ver Viver a Vida. Sinto-me até um pouco masoquista certas horas, porque a trama é cruel demais para nós pobres brasileiros, que já somos governados por um apedeuta, e que disso se vangloria.

Todo final de capítulo aparece alguém com uma conversa, que parece tirada do livro O Poder do Pensamento Positivo, mostrando quando e como enfrentou as dificuldades e finalmente venceu. Dizem que lá perto do último capítulo da novela o personagem destes depoimentos será o nosso apedeuta-mor com o seguinte teor:

- Companheiros e companheira! Eu saí de Garanhuns em Pernambuco ainda menino. Nasci analfabeto e minha mãe já nasceu analfabeta. Fui para São Paulo e lá vendo que a vida era dura demais, comecei a estudar e fiz até o terceiro ano primário. Fiz um curso de torneiro mecânico e ao começar a trabalhar me acidentei. Não esmoreci. Entrei no sindicato, aprendi a falar em público, comecei a dizer “Abaixo a Ditadura!”, e ela veio abaixo, gritei “Diretas Já” e elas, demoraram, mas veio também, me candidatei três vezes a presidente da república e finalmente aqui estou eu, substituindo um doutor que estudou até na sorboni, eu nem estudei mas sou doutor honoris causa por lá também. Jovens do meu país, quando estiver triste e com problemas, não titubeiem, entre para o Sindicato. Fiz isto e agora ajudo o povo a sair da merda!

Então entra aquela vinheta horrorosa e a música não sei de quem dizendo “sei não, sei não, a vida é uma grande ilusão...”, enquanto os tele-espectadores, talvez mesmo eu, já estaremos com os olhos marejados. Eu só queria ter a fibra do Roberto e deixar de ver Viver a Vida, mas, infelizmente, não sei jogar tênis.

Graças ao meu bom Deus, aqui em Belém também, com o horário de verão, a novela das 7 passou a ser a novela das 8, e eu estou adorando. Isto sim, é que é uma novela, que nós noveleiras, consideramos séria. Já começa pelo nome: Caras e Bocas. Profundo, surrealista, provocador, como deve ser um título de novela. Ai que saudade de Ti-Ti-Ti, Saramandaia, Da Cor do Pecado, Dancin Days, Celebridade e tantas outras. Como convém ao gênero literário, se tem alguma coisa a ver com a realidade, deve ser do seu lado bom. Deve fazer rir, e de preferência chorar de rir, que é o objetivo da CIT (Por que vocês acham que aturo esta súcia e estou tão longe de Recife?). Tem que ter bons bordões. Para aqueles que não entendem, os apedeutas em novelas, são aquelas frases que, de tanto ditas, terminam caindo na boca do povo. Quem já não disse: “Irei ao Encontro de Papacaceiros, porque lá, cada mergulho é um flash”? E assim por diante.

Caras e Bocas tem tudo isto e ainda mais. Por exemplo, o principal protagonista é um macaco. Na vida real ela é um macaca, chama-se Kate, que estudou para ser atriz no Circo do Beto Carreiro. Faz um papel masculino na novela, é o Chico. O Chico é um pintor de mão cheia e revoluciona o mundo das artes, setor pintura. Ele agora arranjou uma namorada, que usando os mesmos recursos de computação gráfica dos gêmeos de Viver a Vida, nos quais agora estou ficando uma craque aqui em Belém, é feita também pela Kate. Seja no papel de macho ou no papel de fêmea, a Kate “arrasa”, como Chico e sua namorada. A Globo ganhou tanto dinheiro com a novela que resolveu aposentar a Kate, e diz que ela vai ganhar mais do que um salário mínimo. Com certeza será mais uma a pleitear aumento ao próximo presidente, porque com o que temos, isto já era.

Entretanto, nesta novela, o personagem que mais me surpreende é o Cássio. Ele é um gay assumido, e eu já o admiro por isto. Como todos sabem, sou, com todas as minhas convicções cristãs intactas, uma simpatizante do movimento gay. As convicções católicas e de outras igrejas, são baseadas em passagens bíblicas apócrifas ou mal interpretadas ou vem do nosso caduco Código Canônico. Eu não acredito que Jesus condenasse um dos seus seguidores por ser um gay assumido. Mas talvez condenasse os enrustidos, porque um dia a verdade prevalecerá. Voltando ao ponto, o Cássio, descobre, depois de um relacionamento conturbado, que não é tão gay assim e se casa com uma mulher mais velha do que ele e vira um “Bofe Escândalo”. Quem leu este artigo até aqui, é porque viu a novela e sabe o que é um Bofe, mesmo que não seja um.

O personagem tem um bordão que de quando em vez me vejo usando: “Choquei!!!”.

- O Lula não foi a Bom Conselho. Choquei!!!
- O Cleómenes entrou num igreja em Belém. Choquei!!!
- O Andarilho só volta a escrever depois das eleições. Choquei!!! (de alegria)
- Em Garanhuns tem um ateu. Choquei!!!
- A Maria Caliel inaugurou o Blog em 2010. Choquei!!! (também de alegria)

Entretanto, o dia em que usei mais este bordão, foi quando soube que a Papacagay, não teve um lugar oficial na programação do 10º Encontro de Papacacaceiros. Choquei!!! e fiquei “rosa chiclete”, com a decisão do Quirino. Mesmo sabendo que ele é quem manda e tenha seus motivos para barrar grupos e pessoas, eu Choquei!!!. Mas, segundo minhas fontes, quem mais sentiu a proibição foram as moças casadoiras de nossa terra, elas perguntam: "Quem sabe se na Papacagay, não apareceria algum Bofe Escândalo?" Meninas, ainda é tempo de protestar, e eu estarei lá para ajudar vocês, com o meu Bofe velho de lado, é claro. E, cuidado com os Chicos, eles podem ser Kates. E aí, é a treva!!!

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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