quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Esse, essa, este, esta etc.




Certo dia, a Eliúde me chamou de "professor". Eu enchi o peito e fiquei todo prosa. Daqui a pouco, vou querer ser PhD de PN. Mas enquanto não sou PhD de PN, vou dando meus pitacos sobre língua portuguesa, coisa que desagrada a muita gente. Não sei se a língua desagrada. Mas meus pitacos, desagradam. Porém, de antemão, peço desculpas aos desagradados. E entro de fininho com as minhas lorotas sobre gramática e coisa e tal. Já comecei a tergiversar. Contudo, se a Eliúde pode vituperar, por que eu não posso tergiversar?

Aos fatos: sempre noto que o emprego dos demonstrativos esse, essa, este, esta, isso, isto, aquele(a), àquele(a), aquilo, àquilo, não é muito pacífico. Muitas e muitas vezes, as pessoas enchem um balaio desses demonstrativos e saem distribuindo a torto e a direito. Ou melhor, semeiam essas palavrinhas ao sabor dos ventos. E onde caírem, tudo bem. O vento os leva. Tudo bem pra essas e outras pessoas. Porque a gramática tem regras e regras. E essas regras não são por via de regra. (Aqui, volto a me lembrar do saudoso, discreto e talentoso escritor Graciliano Ramos, o velho Graça; e também, do polêmico, contraditório e desbocado jornalista Carlos Lacerda.)

O que se segue, tanto vale para a prosa, quanto para o verso e para a fala: os demonstrativos acima apresentam certas dificuldades no falar e no escrever. Tais dificuldades são mais notadas quando escrevemos. Porque, na fala, pode-se usar, numa boa, o estilo informal ou coloquial. Até mesmo para evitar ares de afetação descabida. Mas, na escrita, o furo é mais abaixo.

Atentem bem: os ditos pronomes servem para situar seres ou objetos no tempo e no espaço.

Localização no espaço:

Quando eu digo “Você tem coragem de usar esse sapato?” É porque o sapato está perto da pessoa com quem falo. Mas se eu estou bem próximo do sapato ou o pego e dirijo-me ao interlocutor, devo dizer: “Você vai sair com este sapato”?

Localização no tempo:

Este ano está sendo promissor”. É uma referência ao ano corrente. Mas, “a semana passada foi péssima; nem gosto de me lembrar dessa ou daquela semana”.

Quando o tempo está muito distante, usa-se aquele (a): “Jânio Quadros renunciou em 1961. Naquele ano eu morava em Recife”.

Em cartas, relatórios etc., este, esta, isto indicam o lugar onde se encontra o redator. Por exemplo: - De Florianópolis, escrevo para um amigo, assim: “Esta cidade tem seus encantos”. Refiro-me a Florianópolis, lugar onde estou. Mas ao amigo que mora em Niterói e está na própria Niterói, eu pergunto (na carta), falando sobre a cidade dele: “E como é essa tua cidade”?

Nos textos e dissertações que não se enquadrem nos exemplos citados, surgem outras situações. Às vezes, referimo-nos a alguma coisa que o leitor já sabe e, outras vezes, àquilo (*) que o leitor ainda vai tomar conhecimento. Então, usamos esse, essa, isso para o que já é conhecido do leitor. Ex. – “O Joãozinho é muito engraçado; e bonito que só o pai. Essa frase foi dita pelo Marcelo. De outro modo: -'"O Marcelo produziu esta 'pérola'": - O Joãozinho é muito engraçado; e bonito que só o pai”.

Vejam que antes já sabíamos qual a frase do Marcelo (e usamos essa). No outro exemplo, só depois é que foi anunciada a “pérola” que o Marcelo produziu (e por isso, empregamos esta).

A regra acima, é de emprego rígido. Obrigatória para quem quer falar e escrever bem. Dizer, falar e escrever são formas autênticas de pensar. Fazendo um parêntesis, notem que os verbos dizer e falar têm diferença. Dizer é dar recado. Falar, muitas vezes, é só blablablá. Daí o adágio: "Falou, falou e nada disse."

Nas emissoras de rádio ou na televisão, as pessoas falam que falam. Um professor falando da recente crise, disse: "Esse ano tivemos crise mundial. Mas o Brasil, saiu-se bem". Ora, ele se referiu ao ano em curso, ano corrente. Portanto, este ano. Outro fala sobre uma verba que foi aprovada há três meses. E diz: "Estes reccursos vão servir para a saúde dos pobres." Por que este, se os recursos só estão no papel? E, se saíram do papel, não estavam presentes naquele lugar. Então, esses recursos (que foram aprovados) vão servir para a saúde dos pobres.

Agora, atenção para esta frase proferida por Nelson Rodrigues, numa entrevista para o Jornal Nacional, da Rede Globo, em 25.5.1971, dada à repórter Teresa Cristina Rodrigues, prima do próprio Nelson: "Sou anticomunista. É preciso que o telespectador ouça isso. E sou democrata. Mas o sujeito não pode dizer 'sou democrata' sem o ridículo inevitável. Porque, falar em democracia hoje, em qualquer lugar do mundo, fica engraçado. Você pega o comunista, e ele se diz democrata tranqüilamente, desafiando o teto que deveria cair em cima dele."

Usei esta, pra indicar a frase, porque a sentença do Nelson ainda era desconhecida do leitor. E notem-se alguns detalhes que o Ruy Castro manteve ao escrever a frase: 1. É preciso que o telespectador ouça isso. O demonstrativo se refere ao fato de Nelson ser anticomunista, coisa que ele já havia dito, e que já era do conhecimento de quem o ouvia; 2. Aspas simples ( ' ). Aspas simples são aspas dentro de aspas duplas; 3. Períodos curtos, o que facilita o entendimento de quem ler, ao tempo em que economiza tempo.

De outro modo bem diferente, um sujeito está no mês de outubro, falando sobre fatos que ocorreram em fevereiro. E assim se expressa: "Neste mês... " - (fevereiro?) Ora, neste mês, seria se o fato houvesse ocorrido em outrubro, o mês presente, tempo onde está o falante. Outro: alguém fala de um costume que havia em 1990, e diz: "Este costume...". Por quê? Se o costume reinava em 1990, então, é aquele costume. Quando muito, esse costume. Ainda outro: um narrador assim se expressa, sobre um fato que aconteceu há 40 anos: "Nunca se justificou isto...". Se esse narrador quiser grau dez, diga: "Nunca se justificou aquilo." - E assim por diante.

Não raro, encontramos na literatura, o este para coisas ou pessoas já citadas. Principalmente quando se trata de pessoas. Isso ocorre porque, nas obras literárias, o valor estilístico prevalece sobre o valor gramatical. Mas, estilo também é uma arte. Não devemos pegar esse mote ao pé da letra e entender que assim escrevemos, porque esse é o nosso estilo etc. Vejamos: você, numa poesia, vai escrever menas (?) flores, só porque poesia é arte literária? Ou dizer como a atriz Carol Castro, numa revista de fofocas. Carol saiu-se com esta: "Acho ela em melhor forma do que eu". Isso só poderia ocorrer em poesias matutas, em noites de São João.

Observem estes exemplos tirados do Aurélio – Século XXI:

“E, em vão lutando contra o metro adverso, / Só lhe saiu este pequeno verso: / Mudaria o Natal ou mudei eu”. (Machado de Assis - Poesias Completas, p. 380).

ESTE, ESTA também designam a pessoa ou coisa à qual nos referimos por último; o último. Em tais casos, podem vir ao lado de AQUELE (A), referindo-se o aquele (a) à primeira das pessoas ou coisa citadas.

Ainda do Aurélio: “Como o céu se enche de estrelas, / Enche-se a terra de flores / Talvez ainda mais belas... / São duma só cor aquelas (estrelas), / Estas (flores) de todas as cores” (Conde de Monsaraz - Musa Alentejana, p. 49).

Mais um exemplo que serve para os dois últimos casos: “Na campa, rodeada de ciprestes, / lerão estas palavras os pastores: / Quem quiser ser feliz nos seus amores, / sigam os exemplos que nos deram estes” (os amores). (Tomás Antônio Gonzaga – Marília de Dirceu, p. 4).

Observação: - Quando houver dúvida, deve-se usar essa, esse, isso. Assim, a possibilidade de acertar é maior.

(*) - E por que àquilo (com acento grave). Porque o verbo referir(se) - pronominal - pede a preposição a. Daí a contração de a + a = à(quilo). – Exemplo: Refiro-me a um texto antigo = refiro-me àquele texto. É isso./.

José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br

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