quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Leilão no Interior



Adorei participar e ajudar a Lucinha Peixoto escrever sobre uma Festa no Interior, que foi o Encontro de Papacaceiros. Todos nos divertimos neste calor intenso de Belém, mesmo longe de nossa terra. O lugar onde se nasce funciona como um elástico forte que sempre nos mantém preso ao leito onde nossa mãe nos pariu. Com o tempo este elástico se corrompe, se esgarça, se afoloza, dependendo do personalidade de cada um. Por exemplo, o elástico de Zezinho Ponta Baixa, ainda está novinho, e é difícil tirá-lo de Bom Conselho. Já o elástico de outros parecem até que quebraram e estes não voltam jamais. Por falar nisso, por onde andam Carlinhos Mouco, o Zé Praxedes, o Balinho? O que, em suma quero dizer, é que o lugar onde nascemos, e seus arredores, sempre é importante.

Aqui em Belém, quando a saudade aperta muito, vou ler jornais de Pernambuco “On line”. Como não temos ainda a A Gazeta, me contento com o Diário de Pernambuco. Outro dia me deparei com uma matéria da jornalista Marisa Gibson (DP, 07/01/2009) que só não me surpreendeu por causa de uma carta que recebi de seu Seu Salviano, minha principal fonte em Bom Conselho, e que sabe tudo das mazelas que cercam a política, principalmente em seus aspectos eleitorais. O artigo da jornalista Marisa tem como título o mesmo que, sem nenhuma originalidade, dei a este que escrevo: Leilão no Interior. Sendo eu do interior e interessado no que lá se passa, vou aqui reproduzi-lo. Está entre colchetes [ ], para tornar a carta de minha fonte mais compreensível aos que estão mais por fora do que eu neste tema. Diz a jornalista, inicialmente:

[“Vereadores de cidades de pequeno e médio portes estão pedindo entre R$ 30 mil a R$ 60 mil para apoiar candidatos a deputado estadual e federal, enquanto prefeitos chegam a exigir algo em torno de R$ 100 mil. Um verdadeiro leilão - quem der mais recebe o apoio e a garantia de votos. Um escândalo. Do Sertão à Região Metropolitana. E não há reforma política, fiscalização da justiça eleitoral, financiamento público de campanha, nem lista fechada que impeça essa prática da venda de votos. A denúncia pública seria o único caminho, mas não tem um só candidato que se arrisque a fazer isso, com receio de não ser eleito, assim como do outro lado ninguém denuncia esse tipo de assédio, a não ser em caso de vingança, o que é raríssimo. Fica estabelecido o pacto do silêncio entre quem compra e quem vende, fortalecendo o império da corrupção ativa e passiva em todo o processo eleitoral e que se estende também até o pós-eleitoral, claro.”]

Vejam a carta do Seu Salviano na íntegra (escrita à mão com com caneta tinteiro, ele diz que é uma Park 51), intercalada por citações da matéria de Marisa Gibson:

Ilustríssimo Diretor Presidente,

Senti sua falta na terrinha. Se aqui passou, não veio visitar seu velho amigo. Estou me modernizando graças a minha filha, a Ritinha, como você sabe ela é professora do Estado e agora ganhou um computador e disse que agora estamos conectados. Ela até me mostrou num televisor um texto que parece um livro, e disse que era a sua empresa que estava escrevendo, é um tal de broque ou brogue, botei os óculos e consegui ler algumas coisas, mas doeu a vista e eu parei. Voltei pro papel.

Eu só sei que a política aqui está fervendo. Como não há eleição municipal, dizem que os candidatos a prefeito e a vereador estão descansando. Descansando nada! Este é o ano de fazer o pé de meia, com os que querem ser outras coisas como Deputado, Senador e Governador.

Você sabe que minha casa, aqui em São Rafael, fica perto do Parque de Exposição de Animais. Pois, imagine, que, talvez para fazer jus ao nome, agora é o centro de contactos políticos eleitorais de todo o Agreste Meridional. É um tal de entra e sai de carros de luxo, que você precisa ver. Virou programa turístico aqui para nossa comunidade. Óbvio, que nossas crianças, ainda tão desamparadas pelo poder público, aproveitam para ganhar um trocado como flanelinhas. Meu genro diz que não há época melhor.

Perguntei a ele o que estava acontecendo por lá, ele disse: tem leilão todo o dia. Não me surpreendi, pois o Parque foi feito para isto. Já vi muita gente melhorar seu rebanho comprando e arrematando no leilão. Mas por que o aumento do movimento?

Você sabe que nestas horas, não fico parado, encontrei força nesta alquebrada carcaça e fui lá. Quando entrei não vi um boi, uma cabra, um carneiro, um bode e nem mesmo uma galinha. Tinha era gente mesmo. Posso dizer que o galpão principal do Parque estava apinhado de gente. Fiquei prestando atenção nas falas e movimentos.

Não conhecia as pessoas todas, mas, deu para ver, pelo menos os de Bom Conselho, eram os que eu conhecia como “
cabos eleitorais”. Não vou aqui “dar nomes aos bois”, porque já disse, não havia bois lá, e também não importa.

Como você sabe, os “cabos eleitorais” são as pessoas mais importantes de nosso sistema eleitoral. Uns dizem que é o eleitor, mas se eles controlam os eleitores eles é que são importantes. Alguns pensam que um cabo eleitoral é apenas uma pessoa do povo, como Zé Pelo Sinal era um dos cabos eleitorais do Coronel Zé Abílio. Quanto engano nisso. Estes normalmente são os que tem contacto direto com o eleitor, os que vão de casa em casa, entregar o outro pé de sapato, distribuir ingressos para o almoço e transporte no dia da eleição, prometer a permanência no Programa Bolsa Família, e quando mais influente, garantir um financiamento para o programa Minha Casa Minha Vida. Há também os mais graduados, que podem ser vereadores, prefeitos, presidentes de partidos e mesmo deputados, que não querem mais se eleger, além, é claro dos “ex-tudo”.

Mas voltemos ao galpão. Logo ao entrar o que vejo? Uma discussão entre dois vereadores de municípios distintos e um de Bom Conselho. Os dois reclamavam que a escolha da cidade para ser a sede do leilão, não foi feita de forma democrática. O de nossa terra retrucava, que a CODEAM sempre teve sede em Garanhuns e ninguém nunca reclamou por ter sido escolhida na época da ditadura militar, porque o Presidente era o Bispo, e o vice era o Coronel comandante do 71 BI, e que também tem leilão lá. Deixei o debate acalorado e comecei a prestar atenção no que acontecia realmente, naquele espaço tão importante para nossa política.

Havia um palco e nele um homem com um microfone falava bastante alto, dizendo (conto de memória, e você sabe que na minha idade, memória é tão confiável quanto apoio do PMDB):

- Senhoras e senhores vamos começar a etapa de hoje do leilão de apoio político, nas próximas eleições. Hoje, especialmente, é um dia maravilhoso para nós porque estamos contando com a participação até de candidatos e pré-candidatos a senadores e deputados, de outras regiões do nosso Estado. O nosso primeiro exemplar, é um vereador, eleito com mais de 3.000 votos, com influência em nosso município e em municípios vizinhos. É firme e atuante contando com mais de 12 cabos eleitorais espalhados por toda a região. Vejam, os seus trajes, paletó de tropical feito no alfaiate, barba feita, cabelos sempre bem penteados. O lance mínimo para apoio até dezembro de 2010 é de R$ 5.000,00. Vejam senhores, isto já inclui o segundo turno, se houver.

Eu confesso que tomei um susto. Fiquei com o queixo caído. Mesmo com toda a minha vida voltada para observação de processos eleitorais, esta era a primeira vez que eu estava diante de tal evidência. Antes o apoio era obtido através de promessas para construção de pontes, calçamento, etc. Hoje era dinheiro vivo. Ali, pago logo após o lance vencedor. Fiquei ouvindo:

- Seis mil reais!

Gritou um engravatado que havia chegado numa Hilux prateada e com vidros fumê.

- O cavalheiro ofereceu seis mil. Quem dá mais? Quem dá mais?

- Dez mil!

- Quinze mil!

- E agora, senhores. Quinze mil! Quinze mil! Alguém dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, vendido o apoio deste nobre vereador ao cavalheiro. Por favor, passe no caixa para fazer o pagamente e acertar os detalhes do apoio.

[“Como a denúncia da farra com os recursos do Ministério do Turismo para promoção de festas e eventos no interior, em troca de apoio político, assustou um pouco, a comercialização do voto, através de dinheiro vivo, ganhou corpo assumindo proporções estarrecedoras. E tanto faz candidatos governistas e oposicionistas.”]

E o leilão continua solto. A platéia às vezes se agitava quando alguém dava um lance que estava fora da média. Alguns diziam:

- Lá vem este cara da capital inflacionar nosso mercado. Deveria ser proibido gente da capital vir comprar apoio aqui. Depois, pega o apoio e vai embora deixando a região na pior, e só volta depois das eleições. Isto deveria ser crime eleitoral.

[“No caso dos governistas, que têm mais poder de fogo, por estarem ao lado dos governos federal e estadual, vale também outras moedas como caminhões-pipa, hora-máquina para perfurar açudes, distribuição de remédios e outros tipos de benefícios fáceis de serem oferecidos e executados. A proximidade do carnaval também estimula o apetite, e com a secretaria estadual de Turismo devidamente enquadrada depois do escândalo dos shows da Empetur, a corrida, sobretudo na Região Metropolitana, é pela troca de apoio por doações financeiras para clubes, escolas de samba, caboclinhos e troças carnavalescas.”]

Alguns que estão no governo até aceitam outras coisas que não dinheiro, mas esta negociação é de outro tipo e se realiza no gabinete ou casa de cada um. Aqui é dinheiro vivo.

- Senhores vejam agora um ex-prefeito, com um potencial enorme de votos, para os lances dos senhores. Lance mínimo é R$ 40.000,00!

- Quarenta e cinco!

Penso, pela barba perfeita e traje impecável, este que deu o lance deve ser candidato a senador.

- Cinquenta mil!

- Cem mil!

Houve um silêncio na platéia depois deste lance. Este era da Capital. Alto de bigode e um jeito meio zen. Pelo jeito ele vai investir pesado aqui na região. Mas, guerra é guerra!

- Cento e vinte mil!!!

Este parecia estar desesperado. Pois este valor não era a média para ex-prefeitos. Se fosse um prefeito de cidade grande, vá lá, mas...

- Vendido para o senador!

O ex-prefeito ria por todas as bocas e estava mais feliz do que pinto em bosta. Já começou a sonhar com a prefeitura nas próximas, eleições. Arrematou dois cabos eleitorais por R$ 1.500,00 cada um.

[“A prática de leilão de apoios não é novidade. Sempre aconteceu. A novidade para as eleições deste ano, é que esse derrame de dinheiro pelo interior, que só movimentava o mercado a partir de março e abril, começou mais cedo e mais feroz. Ainda nem terminou a primeira quinzena de janeiro e muitos candidatos a deputado, vereadores, prefeitos e lideranças já bateram o martelo. E nada acontece. Está todo mundo aí livre, leve e solto, como se venda de votos e de apoios fosse algo normal. E não é. Afinal, eleição não é um negócio.”]

Eu já sabia que eleição era um grande negócio, e como qualquer negócio, o pobre é que paga o pato. No final, somos nós que financiamos estes leilões. Antigamente, existia um dito político que dizia: “O povo unido, jamais será vencido!”. Com o que vi, o dito passou a ser: “Políticos unidos, jamais serão vencidos!’

E que Deus e São Rafael lhe proteja em suas andanças pela floresta amazônica. Um abraço do amigo

Salviano

Quando for a Bom Conselho não deixarei de ir ao Parque de Exposição de Animais, que continua sendo de animais. Até agora não houve nenhum desmentido sobre o que escreveu a Marisa Gibson. E o Seu Salviano, nunca o vi com mentiras.

Não me contive, e mandei um e-mail para a Ritinha, filha do seu Salviano, pedindo para perguntar a ele, por que escolheram Bom Conselho para esta prática? Recebi uma resposta dela dizendo:

Papai manda dizer que o leilão não e só em Bom Conselho. O de Garanhuns é até mais concorrido. Dizem que um dia é no Tavares Correia, outro no Pau Pombo, outro no Castelo do João Capão e noutros locais. Dizem também que tem um Blog lá que faz umas enquetes sobre quem foi o melhor prefeito, melhor político, etc. Quem fica bem colocado sobe logo de cotação nos leilões. Eu, Ritinha, é que estou perguntando agora: Por que vocês não fazem uma enquete para ver quem foi o melhor prefeito de Bom Conselho?”.

Ainda não respondi o e-mail da Ritinha.


Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com

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