quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Lula, o Filho do Brasil



Estou em Recife. Não vim só assistir ao filme do Lula. Isto eu poderia fazer em Garanhuns no Cine Eldorado. É que tive pena de minha aluna e amiga Eliúde, sozinha na CIT, tentando dar conta do recado, enquanto outros estão em Belém, dando-se ao luxo de falar mal do meu conterrâneo famoso e ver novelas.

Eles sabem que isto é brincadeira, pois sei do esforço que eles estão fazendo para manter a empresa eficiente como uma fonte de informação e transformação de nossa realidade. Eles dizem que Bom Conselho é a causa, e eu, caeteense com muito orgulho, levo uma parte da causa para minha terra.

Mesmo que não tenha só vindo para ver o filme, é dele que quero tratar. Aproveitando um dia onde os ingressos são mais baratos e a meia entrada para idosos, convidei a Eliúde para ir comigo. Fomos a um cinema de um chópingue. Aqui, na Veneza Brasileira agora só tem cinema em chópingue centers. Sempre que vou, sinto uma saudade danada dos Cinemas Trianon, Art-Palácio, Moderno, Veneza e mesmo do São Luiz, que foi reinaugurado agora, mas, lembrando daquele bordão que Lucinha citou da novela: “cada mergulho é um fleshe”, dizem do São Luiz, que “cada ida é um assalto”. Não tem jeito, os chamados Multiplex são a bola da vez.

Fui à primeira seção do cinema. Quando fui tirar o ingresso, lá vem a tecnologia. Agora há uma tela de computador onde são mostradas todas as cadeiras do cinema, e podemos, ali, no ato de pagar o ingresso, escolher o nosso assento. São letras e números, peguei uma letra mais ou menos no meio, e, exercendo meu preconceito e superstição justificados pela idade, pulei o 7, o 13 e o 24, e escolhi duas cadeiras (Só votei 13 nas eleições passadas por causa do Lula, e garanto que se ele não me der uma resposta sobre se quer ou não a cadeira 13 de nossa Academia, este ano votarei em outro número. Se for a candidata dele atual, não votarei de jeito nenhum.). Inicialmente, pensei que a sala já estava cheia, todos assentos no computador estavam com a mesma cor. A mocinha me explicou que elas estavam iguais porque éramos os primeiros a comprar ingressos naquela tarde para ver a saga do Lula. Fiquei meio cabreiro. Será que as multidões de que falaram não eram verdadeiras?

Entramos no cinema e ficamos conversando, eu e a Eliúde, sobre o livro no qual o filme é baseado e que ela havia me dado de presente de amigo secreto no Natal. Por falar nisso, meu amigo secreto foi o Cleómenes, mandei uma Bíblia prá ele. Ele está muito precisado de uma. Não sei se ele já recebeu.

Voltando ao livro de Lula, Eliúde me falou que não o havia achado um mau livro, embora achasse que, para um biógrafo de Lula, a autora deveria se informar mais sobre seu ambiente de nascimento e vida até partir para São Paulo. Ela diz, por exemplo, que mesmo sendo o Pau Grande diferente da realidade de onde ele passou sua infância, acha muito difícil que ele e seus irmãos comessem feijão com farinha no café da manhã. Se isso realmente acontecia a situação era "braba" mesmo, pois eles comiam o feijão azedo. Era melhor comer só a farinha. “Com o nosso clima e sem geladeira, minha mãe tinha que cozinhar feijão todo dia. Botava a panela de manhãzinha e só ficava pronto lá para as 11:00 horas,” dizia Eliúde num animado papo. Mas isto eram detalhes.

Hora de começar a seção. Olhamos em volta. Contamos as pessoas. Onze e com nós dois, treze. Seria uma homenagem ao PT ou realmente não havia público? Enquanto me aboletava na cadeira, sem nenhum obstáculo craniano em minha frente, fiquei pensando no porquê, do baixo contingente de pessoas.

Depois do monte de propaganda que pagamos para assistir, o filme ameaça começar. Digo ameaça porque nunca vi uma lista tão grande de patrocinadores. Todos cheios da "nota" e de todos os ramos do capitalismo selvagem brasileiro. Eliúde me catucou e disse, com a modéstia que lhe é peculiar:

- Estou escrevendo minha história como retirante do Pau Grande. Tenho certeza o livro vai ser melhor do que este sobre a vida de Lula, pois eu a vivi. Será que preciso ser presidente da república para fazerem um filme sobre mim com este mundo de patrocinadores?

Ela mesma responde, com aquele ar de pobre sendo entrevistado pela TV:

- Com certeza!!!

Aí começa o filme. Claro que não vou contar a história. Só o faria se fosse para distribuir renda. Ou seja, tivesse a certeza que os pobres tivessem acesso a este Blog. Os ricos que vão lá ao cinema! Aqui vou dizer tudo por cima.

Prá começar, é um filme bem feito e com bons autores. De técnicas cinematográficas em detalhes não entendo muito e deixo aos expértes. Não é uma reprodução fiel do livro e nem poderia ser, livro e filme são dois meios diferentes de comunicação e linguagem. O que importa para mim é que mensagem ele passa para o espectador, para o público.

Semana passada ao ler, o que faço sempre, o Blog do Roberto Almeida (http://robertoalmeidacsc.blogspot.com/2010/01/uma-historia-bem-brasileira.html), que agora cita o nosso, e o nosso só não o cita, porque não adotamos ainda a citação de outros saites, dizia que devíamos desvincular a obra artística do atual momento político, para só assim poder conferir que o filme é um bom filme, “sem qualquer tom panfletário e sem intenção aparente de ajudar eleitoralmente seja qual for o candidato.”

Eu digo, o difícil é desvincular. E penso que nem precisa. Só bastava olhar para Eliúde, ali sentada, e tentar vê-la na pele de Lula, como retirante, que também foi, para ver que a mensagem seria totalmente diferente. Será que todos aqueles patrocinadores ficariam tão embecidos com a história de Eliúde? Como ela mesmo diz, só se ela fosse presidente da república e com 75% de aprovação popular.

Agora sejamos justos, não há nenhum tom panfletário e nem intenção de ajudar o Lula eleitoralmente. Por um motivo muito simples. O Lula não é candidato. Eu saí do cinema com menos vontade de votar em Dilma Roussef, que já era nenhuma, do que antes. Penso ser ela uma espécie de anti-Lula, pelo menos, do Lula que vemos no filme. Entretanto, se ele fosse o candidato, não teria para ninguém. Com a candidata não há filme que ajude.

Mas deixemos a política para os políticos, por enquanto e voltemos para o filme. A primeira minha decepção foi ver que o cinema passou por cima da melhor parte do livro que é aquela na qual a autora escreve sobre o “rebanho de crianças”:

“Criados como um rebanho, Luiz Inácio e seus irmãos cresciam junto aos filhos de tio Sérgio e outros primos. Sem vestir nenhuma roupa, ou vestindo pouca coisa, já que o clima quente não exigia mais do que um calçãozinho, as crianças, descalças, corriam por todo parte.”

A autora ou as suas fontes esqueceram de mim, quando me embrenhava pelos sítios junto com esta turma toda (ver http://www.citltda.com/2009/11/academia-em-jogo-complemento.html, para uma das nossas aventuras). Penso que ela não entrevistou o próprio Lula sobre esta fase de sua vida, pois se o tivesse feito, tenho certeza ele falaria de mim, da mesma forma que se lembrou, anos depois, em nosso encontro em Floresta (ver http://www.citltda.com/2009/10/o-encontro-com-lula.html, para uma descrição sumária deste encontro). Isto foi o que mais me doeu, além do fato dele não ter vindo a Caetés, para estrear o filme na cidade em que nasceu. Garanto que foi coisa de político que o acompanha, ou politicagem da grossa. Sobre isto eu permito citar a mim mesmo, o que escrevi noutro artigo deste Blog (ver http://www.citltda.com/2009/11/lula-em-bom-conselho.html, para o texto completo):

“Quanto a mim, estou um pouco triste. Mais uma vez uma promessa feita, embora não pessoalmente ao meu bravo povo caeteense não foi cumprida. A mesma notícia de Lucinha diz que o filme sobre a vida dele: “Lula, filho de Francisco”, oh! descupem, “Lula, filho do Brasil”, vai ter sua estréia em Recife, com a presença do nosso presidente. Eu tenho que protestar de público, se verdadeira a informação, pelo fato até inusitado. Em primeiro lugar, o nome do filme deveria ser "Lula, filho de Caetés". Este título seria muito mais realista, porque ele aqui nasceu e englobaria o outro. Em segundo lugar, deve haver cenas nele nas quais aparece nossa cidade, e seu povo deveria ser o primeiro a ver a si próprio na saga do nosso retirante maior. E em terceiro lugar, sem falsa modéstia, porque pessoas como eu, que povoaram sua infância de amor e carinho, deveriam ser figuras proeminentes no filme. Não posso dizer que tive a mesma influência que Dona Lindu em sua vida, mas eu mereceria estar lá, e representado, como pedi de outra feita, pelo garoto que gosta de brócolis, no comercial de TV. Eu era a cara dele. Por que então em Recife?”

Agora sei que nem Caetés aparece, nem as crianças. Fazer o que? Reclamar em um próximo encontro, quem sabe em Caetés. Sei que é difícil. Quando se deixa de tomar café da manhã ao cheiro “do feijão-de-corda azedo misturado à farinha de mandioca” é difícil ter boas lembranças.

Mas o difícil mesmo é ver o filme e não ir às lágrimas. Glória Pires, faz uma Dona Lindu tão perfeita, que o meu pranto foi maior por lembrar de uma prima minha, a Francisquinha. Até o menino Lula parece com ele. Eu estava presente quando eles pegaram o caminhão prá São Paulo. Ao ler o livro, a Eliúde lembrou do seu irmão trepado no pé de manga, o de Lula era um pé de mulungu, no qual muitas vezes subimos juntos. Com todas estas lembranças, eu e a Eliúde não parávamos de enxugar os olhos das lágrimas que brotavam feito nascente de rio. Eu, com o meu machismo restante, ainda tentava disfarçar, depois deixei rolar.

Ao terminar o filme e ouvindo a música cantada pelo nosso Luiz Gonzaga, pensei na mala dos retirantes, que é um saco, e em seu cadeado, que era um nó, e vi que todos na sala estavam com os olhos vermelhos.

Preciso dizer, antes de fechar que, no fim do filme, havia umas 60 pessoas na sala. Ainda eram poucas, mas, aquelas além das 13 que iniciaram, deveriam ser não simpatizantes e queriam ver o filme sem serem vistos. Não posso acreditar no que vem sendo veiculado na imprensa, de que o filme não tenha tido o público esperado. Talvez não sejam as multidões de acólitos que invadiram as seções de estréia. Porém, mesmo que tenham esquecido eu e o Frei Beto, penso que ainda haverá um bom público. Pelo menos, nesta seção, choraram todos.


Já havia concluído e o texto e mostrei a Eliúde. Ela leu e com aquele seu jeito de menina do Pau Grande, fez o seguinte comentário:


- Eu achei bom e concordo com tudo que você disse mas, me veio uma dúvida: Será que se a Dona Berenice Villela, minha mãe, e Dona Lindu, mãe de Lula, tivessem recebido o Bolsa Família, elas iriam para São Paulo? Eu acho que não. Hoje eu seria empregada doméstica em Bom Conselho, e Lula, talvez, gari em Garanhuns. Será que o presidente de hoje, que não poderia ser o Lula, daria Bolsa Família prá nós?

Fiquei sem resposta, mas coloquei a Eliúde como co-autora. Ela adorou.


José Andando de Costasjad67@citltda.com

Eliúde Villela - eliude.villela@citltda.com

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