segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O Deus de Jodeval



Alguns dias atrás a Lucinha Peixoto, que segundo o Diretor Presidente é a “faladeira” da CIT, e eu concordo e suavizo dizendo que “ela só abre a boca quando tem certeza”, disse-nos que havia acessado uns Blogs de Garanhuns e que havia feito até comentários num deles. O meu interesse pela comunicação eletrônica fez-me deixar um texto que estou escrevendo para o debate com o Roberto Lira (para não dizerem, como já estão dizendo que fugi), e ir à cata dos Blogs. Fui no de Roberto Almeida (http://robertoalmeidacsc.blogspot.com/) e no do Jodeval Duarte (http://jodevalduarte.blogspot.com/).

Ambos são extremamente interessantes. Sem querer fazer comparações entre eles, nem entre eles e o Blog da CIT, eu me permito dizer que, visivelmente, os dois tem propostas diferentes. Enquanto o do Roberto tende mais para o jornalismo diário, o de Jodeval tenta imprimir um ritmo mais literário, cultural e, porque não dizer, filosófico na abordagem dos seus assuntos. Ambos tem seus méritos inegáveis. Apesar de ter comentado com Lucinha que o Blog que serviria demais Bom Conselho, principalmente sua comunidade de fora, seria nos moldes daquele do Almeida (O Blog da Gazeta, ou como Lucinha sugeriu, A Gazeta “on line”, poderia seguir o modelo, sem querer me imiscuir nas coisas das terras papacaceiras, porque sou um estrangeiro bem tratado, digo: Luis Clério, tome para você esta missão, antes que algum aventureiro o faça), eu hoje quero comentar uma postagem do Jodeval do dia 2 de janeiro (http://jodevalduarte.blogspot.com/2010/01/um-deus-muito-estranho.html).

Sendo um ateu, num mundo deísta, o que mais leio é sobre Deus. Parece contraditório, mas não é. Alguns crentes nos tratam como inimigos figadais, e na luta pela sobrevivência de nossas ideias, e algumas vezes, sobrevivência física, temos que encará-los como “inimigos”, e nada melhor para vencer a batalha do que conhecer sua principal arma, no caso, Deus. Por isso, quando vi o título do texto do Jodeval: “Um Deus muito estranho”, parei e fui ler, com todo o interesse que Deus merece de um ateu.

Não repetirei aqui todo o conteúdo do ótimo texto (podem ver através do link acima). Em resumo ele se recusa a aceitar um “Deus que seleciona quem deve viver e quem não deve, quem deve ser feliz e quem não deve, quem deve ser rico e quem não deve.” Além de achar que este Deus sempre pareceu a ele um “Deus bizarro, seletivo, discriminador e cruel quando permitia - e permite - que milhões de crianças morram de fome, milhões de mulheres sejam espancadas todos os dias, milhões de homens permaneçam em trabalho escravo.” E conclui, “seguramente, isso para mim não pode ser um ser supremo.”

Quando o li, o que primeiro me veio à mente foi um artigo do nosso saudoso Marlos Urquiza (http://www.citltda.com/2009/06/castigo-de-quem.html), onde ele dizia quase a mesma coisa, noutra situação da vida e com outras palavras. Escrevi um artigo onde comentava a obra de Marlos (http://www.citltda.com/2009/08/um-tributo-marlos-sinais-da.html) e dali formou-se um debate extremamente proveitoso com o Roberto Lira (a quem estou devendo respostas, perdão Roberto) que pode ser acompanhado em nosso Blog. Agora o Jodeval faz mexer os meus genes ateus, que costumam dormir quando Lucinha fala, ou pede para o Roberto usar um crucifixo.

Sem ser literáriamente original, eu diria que concordo, em gênero, número, e grau com o Jodeval. Por que dar graças a Deus por está vivo numa tragédia como aquelas de Angra dos Reis, se morreram tantos outros? Por que Jameson criticaria Deus pelo Náutico ter ido para segunda divisão, quando o Sport foi também? Por que dar graças a Deus por Lula ser nosso presidente se ele pertence ao PT? Segundo Jodeval, estas contradições das religiões e crenças o acompanham desde a adolescência. Eu diria que estas contradições não acontecem somente dentro destas crenças e religiões. Elas são o cerne da ideia da existência de Deus. Só quando abandonei, um pouco além da adolescência, a crença na existência de Deus as contradições cessaram de existir.
Não são as religiões as culpadas pela contradição do senhor Supremo. As religiões foram criadas pelo homem para tentar garantir sua sobrevivência sobre nosso planeta. Para a continuação da vida. Como explicar, sem religião, às pessoas, como Jodeval mesmo diz, que não tem nem o que comer, quanto mais tino suficiente para superar a ideia de Deus, que um filho seu morre, e seus parentes morrem, e esta escolha não tem nada a ver com coisas fora do mundo? Quando o Marx, o Karl, não o Groucho, disse que religião era o ópio do povo, só não estava totalmente com a verdade porque na época ainda não se conhecia direito os efeitos do ópio. A verdade hoje seria: a religião é o açúcar do povo. O açúcar não anestesia, não vicia, todos gostam, mas traz sequelas e podemos viver sem ele. As sequelas são a falta de liberdade de pensar e agir e podemos viver sem ele, desde que queiramos esta liberdade.

Durante toda a existência humana, ou seja quando nosso corpo aprendeu a perguntar porque existe, o homem precisou de Deus. E o criou de várias formas. O fogo, o gelo, as florestas, o sol, a lua, em suas formas primitivas. Quando alguém morria pela queda de um raio e sua mãe se desesperava, era a hora de alguém da “elite religiosa” ou “elite política” dizer: São os desígnios de Deus. Fosse ele o sol, a lua ou figura de pedra em forma humana. A ideia foi se sofisticando, e as elites foram criando seus Deuses, em forma cada dia mais aperfeiçoadas, pois deveriam suprir a necessidade de explicações para o povo a respeito das atitudes divinas. Moisés, um baluarte na liderança do seu povo, criou o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, através do Pentateuco. Outros o aperfeiçoaram ampliando a Bíblia. Os livros das religiões orientais tinham o mesmo propósito: Prover Deus.

Entretando a ideia de um Deus que ajude ou atrapalhe nossas vidas é contraditória de saída e hoje surgem cada dias mais adolescentes com as dúvidas do Jodeval. Eu não sei quais as crenças ou não crenças dele. O que conheço dele são apenas suas manifestações em seu excelente Blog (adorei a ideia do Sebo, gostaria de ter a maioria das obras na Biblioteca do nosso Blog), mas, só ter a coragem de levantar as dúvidas, já me deixa como um seu fiel admirador. Não sei se posso dizer assim, mas o farei: Quem diria, fui encontrar um ateu em Garanhuns. Será que encontrarei um em Bom Conselho? Eu tenho muito esperança no Roberto Lira.

Cleómenes Oliveira – cleomenesoliveira@citltda.com

P.S. – Este artigo já estava pronto, quando, ao enviá-lo para Eliúde publicar, normalmente, às 6:00 horas do dia seguinte, fui ao Mural e me deparei com uma nota do Roberto Lira sobre o mesmo texto do Jodeval. Caro Roberto, cada dia tenho mais esperança.

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