sábado, 16 de janeiro de 2010

São Sebastião



Espero que a festa de São Sebastião sobreviva ao Encontro de Papacaceiros. Não tenho mais medo do choque com a Papacagay, pois esta parada bonita e justa não será oficial. Outros anos virão. Tenho medo do grupo dos Pacachaceiros. Este é perturbador. Ouvi dizer que, no ano passado se desgarraram da serenata e se dirigiram para o Corredor, onde a festa do santo mártir se realiza há quase cem anos. Graças a Deus, contam, não houve nada, porque os componentes já chegaram só com o “bafo de onça”. Espero que este ano tudo corra em paz.

Eu sempre fui devota de São Sebastião. Acho linda a sua história. Conta-se que ele foi um soldado romano, na época do imperador Diocleciano, e que, por tratar bem os cristãos, foi condenado à morte por meio de flechas, o que gerou todas as imagens dele até hoje, tornando-se um símbolo para o martírio, dentro do catolicismo. Entretanto ele sobreviveu às flechadas, pois aos ser jogado em um rio como morto, estava vivo, e ajudado por Santa Irene continuou sua ajuda aos cristãos. Foi posteriormente encontrado pelo imperador e enviado novamente para a morte, agora por espancamento. Mesmo assim não morreu e teve que ser trespassado por uma lança.

Minha admiração por ele hoje é por sua resistência heróica ao castigo para não sair dos seus valores e determinações. Quando vemos hoje a crise de valores cristãos dentro de nosso meio social, minha vontade é chamar por São Sebastião. Mesmo dentro das religiões vemos crescer o desamor e o preconceito em prol de atitudes conservadoras e muitas vezes pueris.

Minhas fontes murmuraram haver ouvido em Bom Conselho recriminações e até ofensas a mim e àqueles que simpatizam com o movimento gay. Este movimento nunca foi novidade lá, embora de outra forma. Em minha infância e adolescência, entre colegas, já comentávamos, à boca pequena o comportamento de algumas conhecidas nossas. Ouviam-se rumores vindo do Colégio N. S. do Bom Conselho, do Seminário e de outros setores sociais de nossa terrinha. Fuxicos e mais fuxicos. O Diretor Presidente pensa que só fofocavam entre os homens. Mas, mulher também é gente. E já naquela época existiam os gay, as lésbicas e os simpatizantes. Nada mudou com o tempo. Nem o preconceito. Pensando bem, talvez tenha mudado a resistência de alguns ao serem flechados, espancados e lanceados, como São Sebastião, quando resistem á exclusão social determinada pela sua coragem em se mostrar como são ou querem ser.

Vejam o que é o meu ranço católico. No parágrafo anterior não tive nenhum problema em relacionar a resistência do santo mártir àquela que hoje existe nos vários movimentos de excluídos, como gays, lésbicas, negros, pobres, mulheres, ateus e outros. Entretanto, fico pensando na reação das autoridades constituídas de minha Igreja Católica e me vejo traumatizada por uma culpa que me foi inculcada ainda criança. Se antes, criticava minhas colegas lésbicas, pelas costas, pedia perdão a meu confessor pelo pecado venial, hoje as apoio totalmente e meus confessores dizem que é pecado mortal. Apego-me, então à Bíblia, principalmente aos Evangelhos e peço para me dizer como conciliar o amor ao próximo com o preconceito contra os gays. Nunca me foi explicado nem com lógica nem sem lógica tais contradições. Mas sinto ainda culpa. Graças a Deus esta culpa foi cada dia se tornando menor do que meus valores realmente cristãos e pelos quais luto, para que minha Igreja, acorde um dia.

Das festas de São Sebastião tenho muitas lembranças. Vinha da Praça da Bandeira, dobrava à esquerda na loja de seu Tenorinho, passava de frente do Cine Rex, da empresa que gerava energia elétrica, loja de seu Massinha, consultório de João Butler e finalmente a festa.
Não era uma festa do porte daquela da Sagrada Família mas tinha seus atrativos para uma mocinha em idade de "entrar no mercado". Embora devo esclarecer que, para nós consideradas moças direitas (não sei com autorização de quem) "entrar no mercado" era um flerte, um olhar, pegar na mão e, no máximo um beijinho inocente. Hoje, sei que para "entrar no mercado" é muito salutar levar uma camisinha. Mas, também entrávamos na igreja, rezávamos e, muitas vezes pagava minhas promessas com São Benedito por ele me ajudar nas provas no Ginásio. Afinal de contas, mesmo naquela época, já pensava que não havia preconceitos de cor entre os santos. São Benedito e São Sebastião se entendiam bem.

O que eu mais admirava nas novenas deste mártir e santo católico era um hino que falava na peste. Para mim era estranho, quando um verso dizia: “...livrai-nos na peste, São Sebastião!” Hoje, mesmo se tivesse ido ao Encontro de Papacaceiros (choro por não te ido), iria dar uma passadinha no corredor e cantaria: “...livrai-nos do preconceito, São Sebastião!”

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

P.S. – Quando já havia terminado este artigo, ontem fui ao SBC para ver se já havia notícias, digo, fotos do Encontro. Estavam saindo naquele momento. Ainda deu prá ver o Luiz Clério, o Beto Guerra, o Pedro Ramos, Roberto Lira e outro que não conheço. Espero que seja o Padre Nelson dando apoio espiritual a Roberto Lira. Comecei a ver as outras, só comecei, tenho assunto para o ano todo.

LP

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