sábado, 23 de janeiro de 2010

UM BOM CONSELHO




Há sentimentos sem agasalho espalhados pelas ruas da cidade. Quem sabe não passa nalguma rua uma saudade embutida em corações que se apaixonaram tendo os paralelepípedos por testemunha? Talvez a própria lua, ou uma vizinha curiosa no postigo da janela em sinuosas curiosidades?

Do outro lado da praça, abraços desprotegidos de censura se redefinem em novas formas de sentir o amigo, o vizinho que se foi pra longe da terrinha, o colega de escola que ainda carrega na sacola antigas aventuras de tempos idos, recuperados pela “borracha” a despeito das rasuras.

No passar dos automóveis, a clara evidencia de felicidade no olhar a rua, a mesma rua; a praça, a mesma praça; o colégio, o grupo escolar, a casa em que nasceu o pé de “pau” que nos guiava na referência dos primeiros encontros dos namoros de então. A leveza interior que sentem no constatar tudo isto e “carimbar” o passado com o passaporte da emoção.

Há sentimentos sem agasalho se enroscando em cada aperto de mão ao amigo; em cada verbalizar do “por onde andas?”, do “o tempo não passou pra você!”; em cada história recuperada nos “papiros” que o tempo não desvirginou – histórias das namoradas, dos professores duros, da austeridade do Professor Valdemar Santana, das primeiras decepções afetivas e talvez até dos “chifres” colocados ou recebidos. Enfim, histórias e estórias sem arco e sem velha, mas que acomodam sentimentos que cada um parece carregar consigo. Quem sabe não servem de álibi para quando o banzo invadir e a primeira lágrima exigir uma explicação?

Um clarinete que toca, um teclado que toca, um pistão que toca, retocam os afetos que se descobrem a granel em plena praça. A igreja Matriz abençoa os ecos do amor fraternal conjugado na primeira pessoa do singular, enquanto o tempo, do alto da suprema corte da sabedoria, nos fortalece a despeito dos cabelos brancos, das faces não mais frescas como outrora.

A hora do retorno certamente chega. Quem se vai deixa-se em cada aconchego dos parentes e amigos. Leva consigo o sentimento do “beber na fonte”, na mesma lógica dos Santos Óleos que a igreja católica santifica num único dia para os atos litúrgicos do ano todo.

Há sentimentos sem agasalho espalhados pelas ruas da cidade. Passado o “frio”, cada filho retorna a casa na própria terra. OUTROS, para lugares distantes, onde o destino, por insensatez, ironia ou destemor, levou pra lá. Talvez porque “missão de destino” seja mesmo a de não concentrar talentos numa única cidade. Por isto ele, o DESTINO, NOS DEU ESTE “BOM CONSELHO”...

Carlos Sena - csena51@hotmail.com

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