quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

CLARICE E GILDO




Clarice e Gildo, uma bela conjugação! O texto está bem dimensionado, bem dirigido e articulado no sentimento e na forma de expressão de singularidades. Adoro Clarice, mas ela em vida não foi clara, pois preferiu (ou não) assim ser. Contudo, a pernambucana Clarice (sei que não é de nascimento, mas por convicção) parece de fato que é da nossa terra - ranzinza, sem levar desaforo prá casa, provavelmente mal amada no afeto, encontra nos mistérios das letras as configurações dos seus próprios mistérios. Morou na Praça Maciel Pinheiros no Recife, quando criança, partindo para outras paragens que tudo indicam, não terem alterado sua sizudez. Até nisto somos privilegiados, pois "A HORA DA ESTRELA" reflete um pouco da sua obra que, na minha humilde avaliação, supera todas as demais. Não na falta de talento, pois toda sua obra é arte e talento ao mesmo tempo. Mas vejo na HORA DA ESTRELA uma foto do Nordeste de antigamente - sofrimento, fome, êxodo, opressão dos mais pobres pelos mais ricos, submissão, etc. Tudo numa época que hoje não nos dá saudades, porque superamos muitos desses aspectos que nos revelavam ao mundo e ao SUL MARAVILHA como se fossemos uma ilha sem sedução; um poço de pobreza e gente feia, desdentada, subnutrida, que rendeu muitos votos aos barões do café e do leite quando da lógica politiqueira dominante era a do café-com-leite.

Clarice e Gildo têm, na minha ótica, muito em comum. Claro que conheço mais ela do que ele, mesmo sendo seu conterrâneo e também fui colega de grupo Escolar Mestre Laurindo Seabra. Leve-se em conta que Clarice se despe em seus livros, mas Gildo não! Provavelmente se despe muito na afetividade, posto ser leve, feito uma música doce. Clarice se permite mais em função do que está posto e por isto mesmo é universal em sua obra.

Li a HORA DA ESTRELA e não aconselho ninguém a conhecer Clarice se não for por este livro antológico. Tanto que apenas dei olhadas em outros, pois era como se eu não quisesse misturar os temas, pois MACABÉIA - a grande estrela, no fundo tem um pouco de todos nós nordestinos. Não na pobreza, mas na obstinação com que encarou a vida que não pediu, trocando-a em nome da que pedira sem ter certeza desta diferença.

Gildo e Clarice estão ótimos no texto que ora leio e faço esta "viagem". Não sei se Gildo sabe, mas Clarice fazia questão de passar ela mesma sem videotape. Ela mesma nua e crua com sua bebida, seu cigarro e, provavelmente, como falei, com sua dor de amor. Talvez sua infelicidade consentida, pois não se permitiu a amores ortodoxos, talvez pela sua história de vida e moradas em vários locais, como que querendo nos dizer que, se não fixou-se em um local mais ao ponto de criar limo, talvez seja isto sua "víscera psicanalítica"...

Sinto Gildo meio triste. Na última vez que o vi na Praça da Matriz em Bom Conselho tive esta impressão mais forte. Mas intuo que seja isto um estado de vida consentido como o foi o de Clara. Também sou íntimo dela, daí a Clara. Mas Gildo não é infeliz e nisto está a diferença de sensibilidade. Evidente que não posso comparar personalidades tão díspares, mas tão singulares.

Assim, adoro Clarice Lispector no auge da sua estrela. Macabéia não sai de mim como se a própria se incorporasse e se me fizesse presente. Desses presentes que no dia de natal a gente não encontra, posto que sentimento não se coloca numa caixa, passa o fitilho e se oferece. Sentimento é pra sentir, daí minha angústia, pois deveria haver mais alternativa para isto, como por exemplo ir aos céus e voltar em vida.

Carlos Sena - csena51@hotmail.com

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