quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Deus e o Saci Pererê




Comecei a escrever este artigo logo que vi um comentário do Sr. Nivaldo Tenório, que não conhecia, sobre a enquete proposta no Blog do Roberto Almeida, a qual também comentei, e inclusive escrevi algo a respeito aqui (http://www.citltda.com/2010/01/enquete-de-deus.html). Era para ser um simples comentário sobre um comentário, mas foi crescendo, crescendo e crescendo pelo incentivo da bela forma de escrever do Sr. Nivaldo e pelas ideias nele expostas que resolvi ir além e publicá-lo aqui por permitirmos textos mais longos. Desde já coloco nosso Blog à disposição do Sr. Nivaldo Tenório.

Até que enfim um escrito à altura da enquete. A hipótese levantada de que a fé é uma questão de predisposição, com o que eu concordo inteiramente se colocarmos uma pitada de cultura, é explicada de uma forma brilhante. No Blog da CIT, onde escrevo com mais frequência, tenho um debate com o bom-conselhense Roberto Lira (espero que ele considere este escritos como pertencendo ao debate, senão vou ficar como fujão mais tempo), sobre o que é genético e o que não genético nesta corrida humana entre as “duas eternidades – o passado e o futuro – e o desejo de escapar ao pior de todos os absurdos: a morte” (só por esta frase, já veleu a pena a enquete).

Minha posição “mutatis mutandis” é semelhante à sua. A morte é o principal horror para a vida. Biologicamente, morrer, para o homem, é a perda de consciência, e o fim de tudo. A luta pela vida é o principal motivo de qualquer ser vivente, seja ele vegetal ou animal. Sendo crente ou não crente, queremos viver. Isto é determinado em parte por nossa carga genética e em parte por nossa herança cultural. Ao longo da história, em termos de fé, a parte genética foi dando um espaço cada vez maior à carga cultural. Os animais não tem fé, os homens da caverna a tinha muito pouco quando adoravam coisas da natureza como o fogo, a água, etc. Isto acontecia pela atividade genética ou os genes que tentavam se proteger para continuar vivos e assim continuar com a vida, e gerando uma cultura dirigida para isto. Esta atividade genética de explicar as coisas, entender as coisas, dominá-las, foi, ao longo da vida evolutiva humana, dando lugar à cultura como mentora da fé. A fé e principalmente as religiões, que eram sua materialidade prática, geraram a ideia de Deus, de várias formas e formatos. Ou seja, durante muito tempo o homem criou Deus, só muito recentemente, na casa dos milhares de anos, o homem teve capacidade para criar Deus à sua imagem e semelhança, com o advento das religiões monoteístas, que podemos chamar de modernas.

Milhões de anos se passaram para chegarmos neste nosso momento de evolução onde pudemos descobrir que aquilo que criamos durante todo este tempo para nos proteger era uma quimera, criada pela necessidade de fugir de nossa incompreensão da natureza fora e dentro de nós. Quando você diz que: ‘Somos um projeto fadado ao mais irremediável fracasso.”, eu tenho a mais perfeita concordância, se você se refere a uma sociedade como a nossa que se prosta diante de um Ser Supremo, esperando que ele reverta esta tendência, simplesmente porque dizer e acreditar que ele não existe “aumenta em muito as chances de sofrimento”, o que é uma verdade.

Chegamos a um patamar evolutivo em que podemos reverter o passado. A Ciência e a Tecnologia, gerada pelos nossos mais brilhantes “genes” e cultura gerada por eles, já esticaram nossa vida, já curaram nossas doenças, já somos bilhões de pessoas, quando poderíamos ser apenas milhões porque a maioria teria sido exterminada por doenças e catástrofes naturais. Apesar de não estarmos sabendo lidar bem, certas vezes, com estas novidades, não é um retorno à fé que curará estas falhas. Quando acontece uma tragédia como no Haiti, então é um "prato cheio" para aqueles culturalmente condicionados à ideia de Deus. Conte-se quantas Igrejas havia no Haiti, e quantos hospitais ou escolas. Talvez não precisa ir lá, basta contar isto em Salvador da Bahia, nosso Haiti, segundo Caetano Veloso, na época colonial.

Sua hipótese de pré-disposição é apenas um fato estatístico envolvendo genética e cultura, que sempre envolveu a religião. E sempre a religião suplantou o genético e também outras formas de cultura, pelo menos até agora. Por exemplo, Darwin, em sua juventude estava preparado para ser um sacerdote, na esperança de que a vida tranqüila de padre rural lhe permitisse explorar sua paixão pelos besouros. Você diria: o Darwin, tornando-se ateu em sua maturidade, tinha uma pré-disposição para isto. Eu concordo, mas tenho certeza que em sua época muitos mais se dedicaram à religião do que a ciência, ou não se tornaram ateus, mesmo que tivessem esta pré-disposição. Na época de hoje, nenhum jovem quer ser padre para estudar a natureza. Se ele quiser fazer isso ele vai para uma universidade, e lá aumentam suas tendências para o ateísmo (vejam um pouco abaixo o que entendemos por ateísmo), porque ele aprende métodos e maneiras de lidar com o mundo com os quais antever a possibilidade de sobreviver sem religião e sem Deus.

Aproveito a grande oportunidade do brilhante comentário sobre a enquete para aclarar alguns conceitos, sobre a minha não-crença no Ser Supremo, a que eu chamo de ateísmo. Nem todos tem a mesma ideia do que isto seja. Muitos dizem: “...este não vai à Igreja, é um ateu.” Muitas vezes o indivíduo em questão não dá um passo sem fazer uma oração e beijar sua medalha pendurado no peito. Outras vezes, encontramos pessoas muito interessadas no tema da existência ou não de Deus, provocando uma grande confusão na cabeça das pessoas, como o fez o Roberto Almeida, com a enquete comentada por você. Dizer que o objetivo da enquete por ele proposta equivale a discutir se Deus existe ou não existe, é tão verdadeiro quanto dizer que na enquete proposta por mim, o que queria se saber era se Saci Pererê existe ou não. Eu posso achar que Saci Pererê existe e não ver nenhuma relação de sua existência com o que aconteceu no Haiti. O mesmo acontece com Deus.

Seria um contra-senso como diz você em seu comentário:

Deus não existe, é claro. Ou pelo menos não existe um sujeito que pode tudo e não faz nada além do que já estava feito e que passa os dias da eternidade – como se não tivesse nada mais pra fazer – olhando pelo buraco da fechadura, como um voyer, nossas falhas, nossos tropeços e contabilizando aqueles que vão para o céu e os que sofrerão no inferno, um lugar de muito ódio que foi projetado pelo Deus do amor. Um contracenso, no mínimo.”

Esta discussão é tão séria, empolgante e complicada, que vou transcrever uma citação do físico e prêmio Nobel (e ateu) Steven Wienberg, que é citado por Richard Dawkins (No livro Deus um Delírio, que se encontra na nossa estante na Biblioteca do Blog da CIT, como uma forma de incentivo paro o livro ser comprado), diz que, para que a palavra Deus não se torne completamente inútil, ela deve ser usada do modo como as pessoas normalmente a entendem: para denotar um criador sobrenatural "adequado à nossa adoração", e vai em frente:

Algumas pessoas têm uma visão de Deus tão ampla e flexível que é inevitável que encontrem Deus onde quer que procurem por ele. Ouvimos que "Deus é o supremo" ou que "Deus é nossa melhor natureza" ou que "Deus é o universo". É claro que, como qualquer outra palavra, a palavra "Deus" pode ter o significado que quisermos. Se alguém quiser dizer que "Deus é energia", poderá encontrar Deus num pedaço de carvão.”

E eu acrescento, com esta visão de Deus, que serve apenas para político dizer que não é ateu, sem a culpa por ter mentido, é claro que Deus existe e teve influência no Haiti. É uma pena que tenha matado a Dra. Zilda Arns. Com este significado até eu. Ser ateu seria até uma impossibilidade prática.

Mas se adotarmos a definição do criador sobrenatural, que é o conceito corrente, a coisa muda de figura. Para o ateu ele não existe, e não se pode fazer confusão dizendo que a pergunta da enquete significa, na essência, se ele existe ou não. Talvez seja por isso que o Roberto Almeida diz que a enquete “não rendeu, como era esperado, tanta empolgação e mobilização quanto as "pesquisas" anteriores, quando” ele fez “consultas a respeito de políticos.” Não poderia mesmo, pois a pergunta foi mal formulada, e os ateus convictos não puderam votar, pelo que expliquei no outro artigo acima citado, onde argumento que o "não" é a única resposta viável para quem tem alguma dúvida sobre a existência de Deus. Isto se explica com mais clareza com Julian Baggini, citado no mesmo livro, com um definição, não única, mas adequada de ateu:

"O que a maioria dos ateus acredita é que, embora só haja um tipo de matéria no universo, e é a matéria física, dessa matéria nascem a mente, a beleza, as emoções, os valores morais — em suma, a gama completa de fenômenos que enriquecem a vida humana".

Ao que o autor do livro complementa, dizendo:

Os pensamentos e as emoções humanas emergem de interconexões incrivelmente complexas de entidades físicas dentro do cérebro. Um ateu, nesse sentido filosófico de naturalista, é alguém que acredita que não há nada além do mundo natural e físico, nenhuma inteligência sobrenatural vagando por trás do universo observável, que não existe uma alma que sobrevive ao corpo e que não existem milagres — exceto no sentido de fenômenos naturais que não compreendemos ainda. Se houver alguma coisa que pareça estar além do mundo natural, conforme o entendemos hoje, esperamos no fim ser capazes de entendê-la e adotá-la dentro da natureza.”

É neste sentido que digo: chegamos a um patamar evolutivo único na história da raça humana, onde nossa consciência pode abdicar das “divindades” e gerir seus próprios destinos. Estas divindades que criamos no passado nos geraram princípios e atitudes éticas fundamentais para nossa sobrevivência, mas também geraram, em todas as épocas, efeitos colaterais pela necessidade de uma “casta” que se apropria de Deus para dispor normas e costumes, muitas vezes, contrárias até à nossa própria sobrevivência. Em suma, chegamos a um ponto que se abandonarmos Deus, certamente, não voltaremos à barbárie, se para isto nos prepararmos. Infelizmente, isto não se aplica ainda a alguns países, que talvez, o Brasil seja um deles, e, sem dúvida não se aplica ao Haiti, eles ainda precisam do Cristo que não tombou com a tragédia, nem que seja para fins turísticos. Ajudemos a eles a lidar com elas, porque outras poderão vir.

Cleómenes Oliveira – cleomenesoliveira@citltda.com

P.S. – Resolvi que o título deste artigo seria o mesmo que o Roberto Almeida deu a uma postagem, em seu excelente Blog, no qual eu faço um comentário sobre os primeiros comentários da enquete. Espero que ele não se importe com este pequeno plágio, que não implica nenhum desrespeito àqueles que tem fé e crêem em Deus. Eu também não acredito em Saci Pererê, e penso, nem o Roberto.

CO

Nenhum comentário: