terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

EU E CLARICE




Compreender vai além do entendimento. Transcende o que se vê e o que se é. Compreendendo, aprende-se e em aprendendo-se, repete-se, e em repetindo-se, vive-se, em viver, percebe-se que “viver não é vivível”. Existe uma dicotomia em compreender: está preso a uma situação ou interioriza-se. E em não interiorizando não anda, caminha. E aí há uma grande diferença. Assim é Clarice. Uma interjeição em alguns momentos, em outros um parágrafo que não tem fim.

A minha relação com Clarice sempre foi obedecendo estes dois ângulos.

Um misto de compreensão, busca, entendimento. Ela fala, eu escuto. E juntos chegamos a um denominador comum.

Nunca foi fácil entender Clarice. Mas uma vez entendida, amada sempre! Clarice sempre se apresentou como um mistério, uma esfinge com um enigma a ser decifrado. Contudo, o maior mistério de Clarice é não ter mistério. Foi assim o meu encontro com Clarice: sem mistério. Viver com Clarice é um turbilhão de inquietações. É sair da zona de conforto que todos almejam. O conhecido entedia, entorpece, acomoda, daí o grande mistério de Clarice.

Ela sempre mergulha no desconhecido e com isso leva ao inexplorado. Tempos idos que convivo com Clarice, agora sem mistérios. A minha relação com Clarice começou lá pelos idos dos anos setenta. Lembro-me bem. Era uma tarde de Outono, destas tardes que nos convida a sair de casa e aproveitar o tempo que nem é frio e nem é quente.

Era uma bucólica tarde de Domingo, aqueles dias em que a vida nos convida a sair sem direção, a deixar afazeres e bússola de lado e sair, andar, viajar com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, leve, solto. Foi um dia assim que conheci Clarice. Estava imerso neste movimento quando me deparo e paro em frente a uma livraria, das muitas que o Rio de Janeiro possui, mas esta foi à livraria do meu encontro com Clarice. E lá estava ela, impassível, senhora de si, resoluta. Meio devagarzinho, com timidez, que me é peculiar, me aproximei, segurei-a em minhas mãos e a partir deste momento não me separei mais da Clarice. Amor à primeira vista!

Hoje, Clarice faz parte da minha vida, não consigo nas minhas andanças por este mundo de meu Deus, ficar longe da Clarice,ela sempre me acompanha. Foi através dela que alarguei o meu entendimento. Apaixonei-me por esta ucraniana, brasileira nordestina e carioca: Clarice Lispector.

Gildo Póvoas - gildopovoas@hotmail.com

-----------

(*) Fotos da Internet.

Nenhum comentário: