terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

História do Brasil Politicamente Incorreta - O Samba



Por conta deste troca-troca de presente de Natal caiu em minhas mãos um livro que eu comecei a ler e não parei. Seu título é: Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Quando o começamos a ler parece que aquilo que seu Waldemar Gomes, Frei Romeu Perea, Armando Souto Maior, e outros professores de História do Brasil, nos ensinaram, não valia mais nada. E o pior de tudo é, quanto mais avançávamos na leitura, mais suspeitas tínhamos dos livros tradicionais, e o autor, Leandro Narloch, um jornalista de 31 anos mostra que fez uma pesquisa, que penso ser séria, pela citação adequada das fontes, para mim confiáveis. Não posso comentar todos os capítulos aqui, mas o farei ao longo do tempo, de acordo com a oportunidade. Só espero que os jovens que nos lêem não sejam reprovados em História no Vestibular. Então continuem acreditando nos seus professores até passar nele. Depois...

Parece que hoje é uma oportunidade para começar meus comentários do citado livro. Como tenho obrigação li o Blog da CIT, e o assunto do momento é carnaval, e especificamente, o carnaval de Bom Conselho. Eu quero ir mais longe um pouco, entretanto, tenho que parabenizar os que trataram do tema. Eu penso que o que falta é liderança social e política, para resgatar nossos valores, não só carnavalescos, mas culturais em geral. Saímos de uma cidade que era líder da educação no Estado, para uma que esperava ser líder na produção de salsicha, e nem isto está sendo. A programação do chamado “carnaval do povo”, pelo que vi, vai ser ao som do “detonation” baiano, e o povo, garanto vai rebolar prá valer. E se o Alexandre Tenório e Diretor Presidente estiverem corretos nossos “líderes”, estarão detonando em Tamandaré. Mas, não vim aqui para comentar isto, e sim, talvez, ser mais politicamente incorreta ainda.

Num dos artigos fala-se em Escola de Samba em Bom Conselho, lembram até da Deusdete, e eu me lembro também da irmã dela, cujo nome não me lembro, Zezé Miranda, Nadja e Neide de Dona Gilda, e outras moças da “sociedade”. Sempre falo em “sociedade” a qual não pertenci, e hoje fala-se em Carnaval do povo, enquanto a “sociedade” vai para Tamandaré. Enquanto houver esta divisão horrorosa, a História será sempre a história da “sociedade”. Em termos nacionais, tivemos nestes últimos anos uma verdadeira chance histórica para superar isto, e o nosso apedeuta-mor quer estragar tudo tentando eleger a apedeuta-sub-mor para presidente. Eu não estou em campanha ainda. Paro por aqui.

O que quero dizer é que há um capítulo no livro só sobre o samba. O autor começa mostrando as origens do carnaval e seu rebatimento no Brasil, dentro de sua concepção correta (do carnaval) de virar um pouco as coisas pelo avesso. Era uma espécie de catarse coletiva onde os costumes eram questionados, no entrudo, no mela-mela, na irreverência, etc. E isto ainda existe em muitos lugares como existiu em Bom Conselho um dia, e foi contado por nossos articulistas. Entretanto, ele pergunta: “Como seria o carnaval organizado por Mussolini?” É fácil de imaginar. Seria um espécie de desfile patriótico com todos marchando em linha reta, e um grupo de pessoas sentadas dando notas aos participantes. Ontem vendo o glamoroso desfile das escolas do Rio de Janeiro, não tive como não associar ideias com o que havia lido, e o autor também o faz.

Em 1937, ano em que o governo de Vargas se tornaria uma ditatura bem parecida com a italiana, foi instituído que todos os sambas-enredos deveriam homenagear a história do Brasil”. O autor levanta a ousada hipótese de que se não fosse a influência do fascismo italiano, o famoso desfile do carnaval brasileiro não existiria, e o samba que conhecemos hoje seria muito diferente. Nos seus primórdios o samba era perseguido por ser uma manifestação cultural dos negros, depois da influência fascista, o governo passou a incentivá-lo, o carnaval e as músicas populares. Na realidade os primeiros sambistas tiveram mais influência européia do que dos negros, ou de outro grupo social ou étnico, e isto se aplica, principalmente aos primeiros sambistas: Pixinguinha e Donga, que em 1917 registrou o primeiro samba gravado na história. E estes sambas que hoje animam a Sapucaí tinham pouca relação com os seus ancestrais.

Até a ideologia nacionalista ficar forte no Brasil, depois do Estado Novo, o samba brasileiro era mais inspirado em novidades européias e americanas e formado por instrumentos de sopro ou piano. Da mesma forma que na Europa o nacionalismo unia os intelectuais, e por este nacionalismo, eles descobriram que deveriam buscar uma alma nacional, da autêntica raiz da pátria, e começaram a valorizar o folclore, recuperando canções, danças, e vendo no mestiço, no caboclo, no popular esta autêntica raiz.

Para dar exemplos, em 1936, a Ação Integralista Brasileira, criada nos moldes do partido facista italiano, tinha 1 milhão de filiados. E o autor comenta, de uma forma que me soa bastante atual em termos de popularidade de governantes, que “o impressionante é que quase todos os outros 38 milhões de brasileiros levavam os integralistas a sério.” Isto levou a alguns intelectuais, seus integrantes, como Luiz da Câmara Cascudo, a escrever 31 livros sobre folclore. O líder do integralismo, Plínio Salgado, junto com o poeta Menotti Del Picchia e o escritor Guilherme de Almeida, “divulgou o movimento Verde-Amarelismo ou Escola da Anta. Defendeu ali, sem ironia, a anta como símbolo nacional.” E eu pensava que o tucano tivesse algo de originalidade. Com estas e outras, nos foi inculcado o “complexo de Zé Carioca”, que nos leva a um mal-estar com expressões culturais que não pareçam genuinamente brasileiras.

Depois de tudo isto, foi um passo para “folclorização” do samba. “O marketing da pobreza deu certo”. O samba seria, em seu novo estilo a imagem de expressão cultural dos morros e dos negros. Era folclore, e deveria ser preservado de influências externas. “Já nessa época, Carlos Lacerda falava de música dos pobres como se ela fosse o samba original, que luta para não ser deformado pelo capitalismo. Na verdade, aconteceu o oposto. O samba nasceu com músicos que queriam ganhar a vida e agradar o público, e não fazer autoetnografia.”

O capitalismo “selvagem” continua a imperar. Não foi superado. E nem o nacionalismo tacanho, que de uma forma ou de outra, nos faz louvar o Galo da Madrugada por tocar só frevo, ou somos contra o axé baiano. “Mea culpa!” Mas, viva o Carnaval de Olinda, e seja o que Deus quiser!

Vocês sabiam que a origem da feijoada é européia? Aguardem. Se a ansiedade for muita, comprem o livro, vale a pena.

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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