sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Carnaval de Bom Conselho



Estamos tão longe mas não saímos de Bom Conselho. Nosso Blog é dirigido à nossa terra e, como não poderia deixar de ser, nesta época, ao seu carnaval. Recentemente lemos dois dos artigos nele publicados que falam da folia de Momo na terra do Coronel Zé Abílio e do Zé Bebinho, para abarcar todos os espectros sociais. Nosso colega Jameson Pinheiro escreve sobre um possível renascimento do carnaval de rua (http://www.citltda.com/2010/02/carnaval-no-beco-do-dr-raul.html), enquanto o nosso conterrâneo Alexandre Tenório descreve a falta que ele faz (http://www.citltda.com/2010/02/o-carnaval.html).

Aqui em Belém deve existir carnaval também, mas como eu não o procuro, fico fazendo de conta que não existe, e refletindo sobre o que se escreveu e sobre meus carnavais em Bom Conselho.

Eu nunca fui um grande folião. Nem também era totalmente imune aos festejos desta efeméride que, como sabemos se fortaleceu pela influência da Igreja Católica na Idade Média, com a criação da Quaresma. Como todos sabem a Quaresma são os 40 dias de jejum que antecedem a Semana Santa. Ora! Como iria se passar 40 dias sem muitas diversões, e ninguém é de ferro, as pessoas daquela época resolveram se divertir antes e fundaram o Carnaval. Portanto, o carnaval é uma festa de respeito, ou era, até que em Olinda se resolveu entrar Quaresma a dentro.

Na minha infância e adolescência em nossa terra o carnaval era animado. Ainda menino, lembro das Moreninhas, que meus pais diziam que era formado por mulheres de “vida fácil”. Naquela época nunca entendi o que era isso, e hoje sei que ele estava totalmente errado, porque Oh, “vidinha” difícil! Tínhamos o Paga-Nada, cujo gerente era o Brás, que saia junto ao bloco, não dançando, mas com um terno branco, chapéu e óculos escuros. Um amigo de meu pai saía nele e um dia eles foram lá em casa comer uns quitutes que minha mãe preparou para a ocasião e tomar uma “zinebra gatinho”, uma espécie de cachaça estilizada. O Paga-Nada era verde-amarelo. Até hoje quando vejo um jogo da seleção brasileira me lembro deles, formando duas filas de passistas, uma sanfona atrás tocando um frevo do ano que passou, o estandarte na frente, e mais na frente um homem que era o “baliza”, fazendo piruetas e rodando um macete na mão com uma bola na ponta.

Todos tinham esta formação e me lembro do O Vencedor, cujo organizador era Zé Pelo Sinal. Era, se não me engano, Encarnado, Azul e Branco. Era o maior rival do Paga-Nada nas demonstrações de eficiência carnavalesca. Eu não vi, mas conta-se que quando eles se encontravam numa rua, cruzavam as bandeiras, e, às vezes pela inconsequência de algum comentário dos figurantes, “o pau comia no centro”, e, as balizas serviam de porrete.

Havia outros blocos, menos tradicionais que surgiam e depois desapareciam, como o Vera Cruz, o Amigo da Onça, no qual uma vez eu quase saí. Era só para meninos. Havia as Escolas de Samba, formadas por moças da sociedade bom-conselhense. Lembro de uma, a Deusdete, mas havia muitas outras todas orgulhosas de participar do carnaval de rua.

Ah! Pela manhã saiam blocos também. Era o entrudo ou mela-mela. Lembro da Tiririca, dos pobres, gerente Frederico, e da Turma do Funil, dos ricos, gerente Ivan Crespo. Uma das cenas mais vivas que tenho na memória dos nossos carnavais, foi aquela onde Ivan Crespo colocou um menino dentro do funil, e fazia o passo, enquanto a multidão se melava e delirava. Inclusive eu, totalmente vermelho de “roxo-rei”, aquela tinta de parede.

O carnaval do Clube dos 30, e das sedes dos blocos, eram a apoteose. A cena que o Alexandre descreve da multidão descendo seguindo seu Zé de Puluca, enquanto ele tocava Quarta Feira Ingrata era antológica:

É de fazer chorar
Quando o dia amanhece
E obriga
O frevo acabar
Oh Quarta Feira ingrata
Chega tão depressa
Só pra contrariar.....


Mas, o que vemos nos artigos citados, que se referem ao Bom Conselho de hoje? O Alfredo Camboim, e o cito, por que o Beco leva o nome do seu pai, fazendo um esforço para resgatar nosso carnaval de rua. Entretanto, por que no dia 6 de janeiro, e não nos próprios dias de carnaval? A resposta está no outro artigo, do Alexandre, que lamenta a morte do carnaval de rua em Bom Conselho. Todos saem da cidade e vão para as praias. Eu também lamento e me penitencio por não fazer como ele, e ir para nossa terra no período de Momo. Isto não acontece somente com Bom Conselho, embora algumas cidades tenham se salvado desta decadência momesca. Eu penso, que daí do Agreste Meridional, se alguém quiser ter um carnaval animado, junto dos seus conterrâneos, tem que ir para Tamandaré. Da última vez que fui, tinha tanta gente de Bom Conselhos e adjacências, que não seria difícil formar o Paga-Nada e O Vencedor outras vez.

Em artigo anterior o Alexandre sugeriu que a Papacagay saísse no carnaval e não no Encontro de Papacaceiros. Eu pergunto, porque o próprio Encontro não é no Carnaval? Penso que o Trio Papacaceiro estaria lá do mesmo jeito, animando algum bloco, e ajudando a restaurar nosso carnaval.

Bem, o que posso dizer, finalmente, é que é uma pena eu não poder acompanhar a folia solitária do Alexandre, vestido de árabe. No próximo ano, me espere que estarei a seu lado vestido de judeu, para brincarmos juntos, em paz e harmonia.

Bom carnaval e boas reflexões!

Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com

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