quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Estadista Mundial e o Fêmur Quebrado



Dias atrás eu descrevi, neste Blog, um comício de inauguração de uma Unidade de Saúde em Paulista-PE, onde estavam o meu conterrâneo Lula e sua candidata Dilma. Lá, no palanque, já era visível o sofrimento físico do meu amigo de infância, pela sua cor e pelo suor que jorrava pelos seus poros presidenciais. Lembrei de nossas partidas de bola de meia, com a meninada nos sítios de Caetés, onde nossas cútis pareciam as de peles-vermelhas, aqueles índios americanos, que víamos no cinema.

Cheguei até a comentar com a minha amiga Eliúde, o aspecto anormal do Lula. Mas pensei com os meus botões: que nada, o cara é forte como um touro. Deve ser o efeito de uma cálice de 51 que ele tanto gosta, e eu também. A gente fica queimando por dentro e para os outros parece que também estamos queimando por fora. Aquilo não era nada.

Algumas horas depois vi estampada nos jornais a notícia de que ele havia passado mal, quando já estava no aeroporto. Ele teve, segundo os noticiários, uma crise hipertensiva, gerada pelo estresse, e que no artigo anterior, num acesso crítico, disse que foi devida às “gafes” em profusão, cometidas pela ministra candidata. Sei lá.... Arrependimento também causa bilouras.

No dia seguinte estava eu fazendo uma compra num supermercado, numa dessas lojinhas que ficam fora dele para aumentar o lucro das redes americanas, com o seu aluguel. A mocinha que estava em via de me atender, atendia nervosa uma chamada telefônica. Ela estava tensa e com ar de tristeza ao ouvir o outro lado da linha. E de quando em vez dizia:

- Não é possível!

Eu, esperando estava, esperando fiquei, e mesmo sem querer ouvia os lamentos da pobre moça. Término do telefonema, telefone no gancho, e leve lacrimejar nos olhos da triste mocinha. Não me contive e perguntei:

- O que aconteceu, posso ajudar?

Ela respondeu que não, mas começou a contar o que aconteceu.

- Imagine o senhor. Minha avó tem 84 anos. Quinze dias atrás, levou uma queda e fraturou o fêmur. Ela mora só com uma filha, que, na hora, não estava em casa. Ao chegar ela havia se arrastado até uma cama e estava lá gemendo. Minha tia então telefonou para o SAMU. Depois de horas veio uma ambulância e ela foi levada para o Hospital Miguel Arraes. Até ontem, ela ficou por lá esperando uma cirurgia. Ontem, até que enfim, a cirurgia foi marcada para hoje. Prepararam minha avó para a operação. Ficou até sem comer, a pobre, desde ontem. Hoje minha tia foi lá e encontrou minha avó comendo outra vez e sem nenhuma cirurgia. O médico que ia operar faltou ao plantão por algum motivo. Agora é esperar outro outro dia.

Ouvi calado e depois comprei o que tinha que comprar e não disse nada a não ser talvez, uma interjeição de espanto, como Nossa Senhora! ou Virgem Maria! Entretanto, a biloura de Lula ainda estava fresca na minha cabeça e não podia deixar de fazer comparações.

Eu soube que fizeram tantos exames em Lula, que lá para o fim ele já gritava: “Aí não, Aí não, aí vocês já furaram! Vocês querem me dar uma overdose de exame?” “Não façam isso, olhem que eu sou o presidente da república, mais respeito comigo! Aiiiiiii!”
“Pelo amor de Deus, eu juro que não fumarei mais esta maldita cigarrilha! Talvez, só um cigarrinho de fumo de corda, enrolado em papel de seda como meu pai fazia!”

Em suma foram muitos exames para dizer que nosso mandatário maior teve uma crise hipertensiva. E se ele tivesse quebrado o fêmur? Certamente, ele seria levado de helicóptero para o Hospital Miguel Arraes. Lá chegando passaria pelo leito da pobre velhinha de 84 anos, com o mesmo problema que ele. E, mesmo com o fêmur quebrado, sabendo de seu amor pelos pobres e doentes públicos, o seguinte diálogo poderia acontecer:

- Companheira da terceira idade, soube que você também quebrou o fêmur. Você já foi atendida?

- Ainda não, mas prometeram para amanhã, farei uma cirurgia, já estou até sem comer!

- Doutores, eu não posso passar na frente desta velhinha, só vou fazer meu tratamento depois do dela. Há quanto tempo ela está aqui?

- Quinze dias!

Respondeu uma das enfermeiras de plantão.

- Companheira da terceira idade, neste caso eu tenho que passar à sua frente, você entende, companheira, hoje vou ser Estadista Mundial!

- Que Deus o proteja!

Disse velhinha, sem ainda desconfiar que o médico faltaria ao plantão no dia seguinte. Não sei nesta hora que escrevo, se ela já foi operada, sei que o Lula já é Estadista Mundial, com biloura ou sem biloura.

José Andando de Costasjad67@citltda.com

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