segunda-feira, 1 de março de 2010

Cuba Lança Mas Não Convence



Enrique Ubieta Gomes é um escritor cubano e teve um artigo reproduzido esta semana pelo ótimo Blog do Jodeval, de nossa ex-pátria mãe Garanhuns, e que agora adoraria ser como nós, com estátua e tudo: A Cidade do Lula. Eu, sou apenas um rapaz latino-americano, de Caetés, sem dinheiro no banco. Por favor, Jodeval, não saque a arma no "saloon", eu sou apenas o cantor... Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar mate-me logo! À tarde, às três, que à noite tenho um compromisso com a Democracia e não posso faltar, por causa de vocês. E, para ficar em harmonia com os belos versos do Belchior, de nossa juventude, digo que sou um rapaz cujos conhecimentos de espanhol já foram melhores nos tempos da universidade.

Naqueles longínquos tempos queríamos aprender este idioma para entender melhor as mensagens do Fidel Castro, de Che Guevera e dos demais heróis de Sierra Maestra. Dizer que devemos ser firmes e fortes sem perder a ternura ficava muito melhor “ouvível” quando dizíamos: “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás!” Atualmente, sendo sincero, já tropeço em artigos simples como este a que me refiro. Portanto, se houver falha no entendimento, não vamos culpar o Zapata, pois ele já morreu.

Pelo que ele diz, nunca houve e não há condenação em Cuba sem processo judicial, desde o início da revolução cubana. Mesmo aqueles que eram sumariamente fuzilados no “paredón”, o foram, porque, depois de um processo judicial concluiu-se pela sua culpabilidade. Era mais ou menos assim:

- Camarada olhe bem para este homem. Veja o seu olhar suspeito. Tudo leva a crer que ele é um reacionário. Nunca vi um dos nossos com um olhar destes.

- Eu não estou notando nada, camarada. Parece-me um olhar como qualquer outro!

- Você está ficando fraco camarada? Não estás vendo? A última vez que vi este olhar foi nos cassinos de Havana, na época de democracia burguesa onde quem só comiam eram os ricos. É um olhar de ambição, de concupiscência, de anti-revolucionário, enfim!

- Já que você tem dúvidas camarada, que tal abrir um processo judicial para o caso? Em nossa revolução ninguém é condenado sem antes ser julgado, isto é a ordem de cima, temos que ser fortes, mas perder a ternura jamais.

- Está bem. Você será o advogado de defesa e eu sou o promotor público, representando o Estado Revolucionário. Vou também ser o juiz porque minha patente é maior do que a sua. Qual o crime então?

- Olhar anti-revolucionário. Pena prevista varia de 20 anos de reclusão até pena de morte, por fuzilamento. E o ponto básico para minha defesa é que vi este mesmo olhar no nosso Comandante Fidel, no dia da vitória em Sierra Maestra. E como sabemos, ele é nosso ídolo, nosso deus, nosso tudo. Ter o olhar dele, já e uma bênção! Então, peço a absolvição do réu.

- Camarada, jamais o Fidel teria um olhar como este! Você estava longe dele naquele dia. Se esta é sua única argumentação, eu peço a pena máxima para o réu. E na qualidade de juiz, já conclui que eu estou certo, e portanto declaro o réu culpado, e ele será morto por fuzilamento.

- Temos um problema camarada. Nossas armas estão sem munição, como iremos fuzilá-lo?

- Não tinha pensado nisto! A jurisprudência manda, a partir de comportamentos de nossos chefes, que em casos como este, deixe-se o culpado sem comida até a morte. Quando isto acontecer, sempre podemos dizer que foram os lacaios americanos e anti-revolucionários que o convenceram a fazer greve de fome, para fazê-lo de herói. Mas nós teremos nossas consciências tranquilas de ter executado apenas o que determinou o processo judicial.

- Entonce, viva La revolución!!!

- Viva!!!

O que sinto é não poder escrever isto em “cubanês”. Ficaria muito mais realista e verdadeiro como o artigo do Ubieta Gomes.

Já havíamos lido alguma coisa deste autor. Perguntado, numa entrevista (http://www.filosofos.org/modules/news/article.php?storyid=32), sobre o que ele achava quais seriam, atualmente, os pontos fortes da revolução cubana, ele resume como sendo:

“1. La revolución cubana tiene hondas raíces en la historia nacional;

2. La coherencia histórica del discurso revolucionario cubano, especialmente el de su máxima dirigencia, aún cuando pueda admitirse la existencia de diferentes etapas, y la transparencia de ese discurso;

3. La consecuencia en los principios, y la certeza popular de que existe una conciencia ética vigilante en la máxima dirección del país;

4. El capital humano creado por la revolución: médicos, ingenieros, científicos, creadores de las ciencias y las artes, especialistas en deportes;

5. La cultura política de las masas, que se sustenta en una comprensión clara de sus derechos sociales.”

Não farei a tradução mas tentarei comentar estes pontos.

Que a revolução cubana tem fundas raízes na história cubana só é um fato se pensarmos e aceitarmos como correta sua forma de nascimento, a que todos nós demos razão em nossa juventude. Uma reação de um pequeno grupo de pessoas lutando contra uma ditadura típica das republiquetas latino-americanas, na época. Entretanto, sua base ideológica e filosófica marxista nunca pertenceu à história da américa latina, pelo simples motivo de que sempre tivemos mais escravos do que operários. Aqui no Brasil, quando começamos a ter operários, depois de Getúlio, talvez, foi preciso uma luta muito dura para não tornar este país nem fascista e nem marxista. Por causa desta luta, que foi a base da história política do Brasil contemporâneo, caímos numa ditadura militar que durou mais de 20 anos. Em Cuba a revolução foi mais fácil pelas características do país em termos de população, geografia e mesmo de política pois é difícil se imaginar um ditador mais canalha do que foi o Fulgêncio Batista. Nisto tivemos um pouco de sorte, se pudermos falar assim, tivemos ditadores, mas foram poucas as canalhices do tipo Fulgêncio.

A coerência histórica do discurso revolucionário cubano está, especialmente a de seus dirigentes máximos, sendo extinta com o Fidel. Nem o Raul está mais aguentando, mesmo, que do palácio onde mora, ele ainda não consiga ouvir o clamor das ruas e do povo, pela altura dos muros que o protege. Entretando, agora o clamor dos cubanos de Miami e dissidentes do regime já é ouvido pela internet. Fidel não consegue mais falar 6 ou 8 horas seguidas, fazendo desmaiar de fome as criancinhas que eram levadas pelas professoras revolucionárias para ouvi-lo. Os dirigentes do Partido vivem com medo de perder as benesses que lhe foram proporcionadas durante todos estes anos, enquanto o povo faz fila para comprar seu “pollo” de cada dia no barracão. E aqui entra a ideologia burra da igualdade cega entre as pessoas, gerada pelo lema marxista: “De cada um a sua capacidade e a cada um de acordo com sua necessidade.” Um médico em Cuba, com várias pós-graduações e larga experiência deveria ganhar o mesmo que ganha qualquer operário ou agricultor. Ambos dão o fruto de sua capacidade para o sistema econômico, e recebem de acordo com suas necessidades fisiológicas, 7 dólares por mês.

Ora, se a cultura política das massas tivesse chegado ao ponto de assimilar isto de uma forma a sedimentar-se no comportamento de sua população, o ideal socialista teria sido atingido. Mas, isto só pode acontecer se notícias do mundo exterior não forem permitidas, como se estar fazendo na China censurando a internet, ou se usando repressão política para implantá-la à força, para de uma forma ou de outra fazer o povo acreditar que há uma consciência ética dos dirigentes máximos do país.

Por isso, o Ubieta acha que Fidel é insubstituível em Cuba. E talvez seja mesmo. Quem conseguiria falar tanto tempo quanto o Fidel, não dizer nada e ser aplaudido e até venerado? Quem sabe no último encontro, pela troca de gentilezas, o Fidel não tenha convidado o Lula para substituí-lo? Se não o fez, é porque meu conterrâneo indicou a Dilma para substituí-lo, que é menos querido em Cuba do que o Zé Dirceu, que, até agora, o Lula não conseguiu ressuscitá-lo.

Uma coisa a revolução cubana fez por Cuba: Educou os cubanos. É verdade o que diz o Ubieta, quando menciona o capital humano criado neste período. Em todas as especialidades, inclusive nos esportes, Cuba se desenvolveu, enquanto aqui neste Brasil ainda engatinhamos. Alguma coisa boa eles fizeram. Mas, não precisam destruí-la com os rompantes do Fidel, do Raul, do Ubieta e até dos apoiadores de outros países, que ao invés de ajudar os cubanos, ajudam os seus dirigentes a permanecer no poder, mesmo como múmias.

Conversei com uma pessoa que foi a Cuba fazer um curso de especialização. Ela ficou num hotel 5 estrelas, pois eles existem lá também. Os seus colegas cubanos eram proibidos de entrar no restaurante onde ela comia. Só entravam os hóspedes. Para admitir a entrada deste povo socialista, era necessário a intervenção dos estrangeiros garantindo que eles pagariam pela sua comida. Quando eles entravam comiam com um vigor digno de qualquer dos nossos pobres em festas de aniversário do Recife. Nos laboratórios só havia luvas para os estrangeiros. A vontade de visitar outros países era tanta, que muitas vezes se tornavam subservientes. Um dos instrutores do curso era um espanhol que por ser estrangeiro, podia sair de Cuba e voltar para sua família que era cubana, e de lá trazia muitas coisas que seus colegas nem de longe poderiam sonhar. Certa vez ele disse para esta minha amiga:

- Para viver em Cuba é preciso ter FE.

Ela ficou sem entender, já que as crenças religiosas em Cuba não são muito incentivadas. Diante do seu rosto de espanto, ele falou:

- FE, aqui quer dizer Família Estrangeira!

Será que o povo cubano terá que fazer uma nova revolução para usufruir de um uma revolução que foi boa, enquanto durou? O mundo mudou, o leste europeu mudou, até a China está mudando. Só quem não muda é Fidel. Mas, reconheçamos, ele sempre teve boas intenções. Entretanto, com se diz, “de boa intenções o inferno está cheio”, e se Obama retirar o bloqueio econômico a Cuba, Fidel poderá acompanhar suas boas intenções. Lá na ilha, a Democracia burguesa, já seria uma revolução desejável.

Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

P.S. – Este artigo já havia sido escrito, quando vi no Blog do Jodeval, por um pedido do Roberto Almeida, uma tradução para o português do artigo do Ubieta. Infelizmente, o meu espanhol é mais fraco do que o do Jodeval, para traduzir o texto acima. Mas, como dizia alguém: “A gente não falamos o espanhol, mas quando lemos nós entende tudo.”

ZC.

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