sexta-feira, 5 de março de 2010

Medicina e Saúde



Durante toda nossa estada em Belém, minha saúde viveu sem cuidados. Não sou um hipocondríaco de plantão, mas, vou ao médico fazer os “check-ups” da vida. Dizem que quando se passa dos 50, mesmo que não sintamos nada, o melhor é cair em campo procurando doença.

Dias atrás recebi um e-mail do nosso colaborador Alexandre Tenório lamentando a desativação do nosso Blog, e pedindo explicações, pois o Blog já se tornou um serviço de utilidade pública para Bom Conselho, e já é querido como qualquer ente familiar, segundo ele. Ficamos felizes por um lado e não tanto por outro lado. Felizes porque conseguimos fazer algo de útil, e não tanto, porque isto aumenta nossa responsabilidade. Levanto este ponto aqui porque poderia muito bem dizer que paramos, um pouco, nossa participação no Blog porque fomos ao médico. Todos entenderiam, porém, seria uma mentira. Paramos para conversar diante do fato da perda de dois importantes componentes da equipe. Entretanto, pela carga de trabalho e saudade a que fomos submetidos, tenho certeza que todos nós fomos aos médicos quando chegamos.

Dizíamos que fomos procurar doenças. Nada mais salutar. O pior é quando as encontramos. Graças a Deus, até agora depois de furadas mil, passagens por túneis iluminados, dificuldades de colocar o xixi no frasco, asco em colher outros materiais, não encontramos nada, ainda.

Para completar, fui ao médico que, para nós homens do interior, machistas de Papacaça, é o pior: O urologista. Devo confessar envergonhadamente, que esta não é a primeira vez, e sobrevivi bem a experiências anteriores. Sinto-me machista ainda “ma non troppo”. Entretanto, sempre é como a primeira vez. Aquela emoção e angústia dos momentos que antecedem à consulta. O coração bate mais forte quando a secretária diz: fulano, pode entrar! Aquele médico ali em minha frente, com aquelas mãos grandes cruzadas sobre a mesa diz: “Mostre os exames!” Começa a lê-los com aquela cara de bom entendedor, para o qual duas palavras bastam, franze o cenho de quando em vez, e por fim, expele palavras das quais esperamos fogo:

- Seu PSA está muito baixo. Este ano não precisamos fazer o toque!

As portas do céu se abriram, e anjinhos apareceram cantando Aleluia. Por este ano estou livre, mas no próximo tem...

Fui também a outras especialidades ou tipos de médico. Eles só tiveram duas coisas em comum: Todos chegaram atrasados e todos me pediram exames de tudo. Eu penso que o médico moderno está se tornando um leitor de exames. Nenhum deles tem, nem podem ter, aqueles momentos de conversa e apalpação com os pacientes. O tempo é curto. Ah! Que saudade dos tempos de Bom Conselho. Dr. França, Dr. Raul, Dr. Zé Barbosa da minha infância a adolescência.

Lembro de Dr. Raul fazendo exame médico em todos os estudantes na Secretaria do Ginásio São Geraldo. Todos o conheciam. Ele conversava com os estudantes. Nunca me lembro de ter recebido um pedido de exame de laboratório lá. Penso que eles já sabiam quais eram nossas doenças. Bastava olhar para nós e notar aquele olhar triste, tez amarelada, olhar profundo, para eles perceberem que exageramos no trabalho manual. Não precisava exame para isto.

A experiência era tanta que surgiu a estória, não sei se verídica, e por isso não nomeio ninguém, de que, um médico da cidade, depois de tomar umas e outras, foi tirar a pressão de um paciente. Ao colocar aquilo de que não sei o nome técnico no braço do paciente, errou e colocou em seu próprio braço. Começou a bombear o ar que pressiona o braço, e deu seu diagnóstico preciso: “Meu filho, você não tem nada, você só está bêbado!”

Hoje, como em qualquer lugar, em nossa terra deve ser diferente. Desde muito já existem laboratórios de exame na cidade. Eu até soube pela Rádio Papacaça que perdemos uma boa Secretária de Saúde Municipal por causa de um laboratório. Faltava-lhe tempo para servir a dois senhores: o público e o privado. Esta notícia me deixou muito feliz porque pelo menos já se sabe a distinção entre um e outro, lá por aquelas bandas.

Uma pessoa de quem me lembro agora, que não era médico, mas contribuiu muito com a saúde em Bom Conselho, foi o Prof. Joaldi Soares. Ainda hoje tenho uma marca no meu corpo feita por ele, penso a quase 50 anos: Vacina contra varíola. Penso que foi a dor que senti que me faz lembrar. A vacina vinha numas cápsulas de vidro bem fininha e que eram quebradas na hora e o Joaldi passava aquele caco de vidro na minha perna para cortar, o sangue sair e o vírus entrar. Dor bendita é a da vacina! Lucinha diz que chora quando vacinam o neto dela, de pena e de alegria. Pena daquele choro que corta o coração e de alegria porque este choro será transformado em sorriso por um longo tempo. Eu não sei avaliar este sentimento porque não casei, e se tenho filhos e netos não o sei. Apesar deste não ser um artigo de negativas, deu-me vontade de citar o Machado de Assis, para pensarem que o Blog da CIT também é cultura, quando ele faz Brás Cubas dizer: “ Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Tenho que terminar pois esta frase me deixou pessimista e estar na hora de continuar a procurar doenças. Hoje vão me ver por dentro e a cores. Espero que não esteja tão feio quanto por fora. No próximo ano, continuarei procurando. Um dia eu encontro e aí os médicos terão mais o que fazer.


Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com

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