sexta-feira, 12 de março de 2010

O BABA-OVO



Como alguns devem lembrar e outros lembrarão quando os meus artigos, ou minhas crônicas, estiverem juntinhos num livro, eu vivi um tempo em São Paulo, mais especificamente em Guarulhos. Não vou aqui descrever ruas e situações do bairro onde morava porque hoje leio sobre aquela cidade, e fora o aumento dos carros e da criminalidade tudo parece o mesmo. O bom mesmo é lembrar de pessoas. Entre uma conversa no laptop e outra lembrei de seu Pedro Anésio. Este era o seu nome, não sei se completo, penso que havia outro no final mas nunca soube como era. Esta é um pouco de sua história.

Ele era amigo do meu pai e da família, em geral. Era zelador de minha escola e fazia uns bicos noutro órgão público mas eram bicos particulares, fazendo alguns serviços para as pessoas que lá trabalhavam. Todos os chamavam seu Pedro. Era casado e tinha dois filhos um pouco mais velhos do que eu e nos encontrávamos de vez em quando.

Ele sabia ler e escrever direitinho, dizem que aprendeu quando foi numa missão no exército para um outro país e lá aprendeu a falar a língua de lá, parece que era espanhol, e também a escrevê-la, ao chegar aqui foi um pulo para ler e escrever este português que eu ainda arranho.

Uma das características dele, notada por quem convivia por um pouco tempo, era sua incapacidade de discordar das pessoas e além disso, tudo que ele dizia era no intuito de concordar com o seu interlocutor. Meu pai dizia:

- Estou para conhecer alguém que tenha algum atrito com seu Pedro!

Realmente era difícil ou impossível de encontrar. O Padre Bernardo, lembro bem, alto loiro, fabricado dentro do padrão de qualidade Europeu, era o mais ignorante dos homens. Ignorante no sentido de que só falava como se fosse dar “patadas”, e se o retrucassem, ele dava mesmo:

- Você pensa que o solo sagrado de nossa igreja é o seu cocho de capim para você vir aqui comer nele? Retire-se, imediatamente...

Dizia ele enquanto eu comia um biscoitinho inocente depois da comunhão. Naquela época, quando nos confessávamos ficávamos sem comer até depois da comunhão. Se qualquer coisa fosse ingerida configurava um pecado mortal. Dizem que a Aparecida uma amiga minha comeu escondido uns amendoins e ficou com cara de paçoca por um mês. Quem se atreveria?

Pois bem, nem o Padre Bernardo dizia um tantinho assim do Seu Pedro. E vice-versa. O Padre sempre dizia:

-Ah! Se houvesse pelo menos uns poucos paroquianos como ele!

Lembro de um diálogo dos dois que resume um pouco suas personalidades.

- Seu Pedro, o senhor não tem comparecido à Igreja como deveria. O que está acontecendo?

- O senhor tem razão padre. Agora virei mais vezes!

- Quanto tempo faz que o senhor não se confessa? Não comunga?

- Pouco tempo padre, mas se o senhor quiser eu me confesso agora.

- Não é preciso ser todo o dia Seu Pedro, só quando o senhor sentir que tem algum pecado.

- Será que eu tenho, Padre?

- Seu Pedro, o senhor está me irritando. Quem deve saber isto é o senhor!!!

- Perdoe Padre, devo me confessar por isso?

- Não Pedro vai cuidar dos teus afazeres!

E lá ia Seu Pedro procurando alguém para não discordar. Se alguém passava por ele durante a noite e dizia bom-dia, ele olhava para o céu e respondia: “pois não é que já está amanhecendo, bom-dia!

Havia um jornalzinho na escola onde eu estudava e Seu Pedro falou com o diretor para escrever numa coluna chamada Mural, onde todos colocavam opiniões sobre vários assuntos da igreja, das pessoas e até da política do município. O Diretor concordou com prazer. Uma vez o Dr. Castanho, parece que ele era advogado, colocou uma poesia de sua lavra no jornal, não me lembro toda mas apenas da seguinte estrofe:

“Os dias se vão ligeiros
Como urubus altaneiros
Que apesar dos aceiros
Acham carniça ligeiros”

Seu Pedro, no outro número colocou uma notinha no Mural, elogiando a poesia do Dr. Castanho:

Parabéns ao Dr. Castanho pela velocidade dos seu urubus. Uma obra prima!”

E o Dr. Castanho, não via nem o que estava escrito depois dos parabéns, e se enrolava na sua vaidade de poeta das aves negras. O Pedro continuava benquisto por toda a comunidade.

Ele tocava serafina na igreja. Aquele instrumento era sua vida. Eu penso que toda aquela bondade planejada para com todos era só para ter o privilégio de tocar a serafina nas festas, e principalmente, quando havia encontros da comunidade. Ele era chamado sempre. Com este comportamente não discordante todos gostavam dele e em resposta, ninguém era capaz de falar mal dele, salvo o Padre e alguns amigos, que ele nem considerava. Alguns deles diziam:

- Pedro, tu não estás vendo que Herculano está te fazendo de besta, está explorando teu prestígio em proveito próprio? Ele diz que tua serafina é o melhor da redondeza, mas quando a festa é mesmo de santo ele chama o Elias prá tocar!

- Vocês tão é com inveja, Elias toca algumas vezes quando eu não quero.

Mesmo com todas estas críticas o Seu Pedro continuava sem discordar de ninguém, e ninguém discordava dele em público. Entretanto, quando ele se aproximava, entre amigos se dizia: "Lá vem o baba-ovo! "

Quando eu vim para o Nordeste ele ainda era vivo, soube que tocou a serafina a vida toda, morreu com 82 anos. Eraldo, meu irmão, disse que hoje ninguém sabe nem quem foi Seu Pedro. Se cada história tivesse uma moral eu diria que a de Seu Pedro tem uma: “Para viver muito babe o ovo, para ser lembrado, morda ele”.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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