terça-feira, 16 de março de 2010

RECIFE - A SEGUNDA PÁTRIA



No dia em que escrevo é o aniversário de Recife e de Olinda. Não vou historiar sobre estas duas belas cidades, que olham uma para outra há mais de 470 anos. Relação entre irmãs, nem sempre pacífica e sem desentendimentos. No final, como boas irmãs, elas se entendem. Vê-las-ei por outro ângulo. O de uma terceira cidade tão distante e tão perto. Bom Conselho.

Os vínculos entre estas três cidades são evidentes. Noves fora política partidária, Olinda teve dois dos seus melhores prefeitos vindos de Bom Conselho. Alguém já disse que uma das grandes vocações dos jovens de Bom Conselho era ser prefeito de Olinda. Este é um vínculo visível e real mas, o principal é aquele que por muito tempo, junto com o Recife, existiu, o de ser a Meca das pessoas de Bom Conselho, em busca de estudo e oportunidades.

Deter-me-ei em Recife, pois este foi o meu caso. Terminado o Curso Ginasial no Ginásio São Geraldo, que sempre nos iluminou e prometia que nos daria no futuro o segredo da vitória. Mas, aonde? Ficar entre os quatro muros da terrinha era muito pouco para mim, embora reconheça que cada um tem seus objetivos e, assim alguns ficaram e fizeram lá sua vitória. Eu e outros que pretendíamos mais e tínhamos condições materiais para isto, emigramos, e, sem cálculo preciso, o destino de 90% era, inicialmente o Recife. Alguns ainda iam dar um passeio por Garanhuns, mas terminavam no Recife.

O Recife foi a segunda pátria de muitos de Bom Conselho. Uma pátria bonita, nem sempre generosa mas, sempre acolhedora. Cada um tinha a sua dificuldade específica. Alguns em seus apartamentos alugadas em local nobres, outros em pensões insalubres, outros em casas de parentes, outros ainda em casas próprias para onde traziam outros que não as tinham. E todos a procurar colégios, para estudar pela manhã, pela tarde, pela noite. Todos, de uma forma ou de outra conseguiam o seu canto. Para aqueles pouco estudiosos, mas com grana, ainda restava o Carneiro Leão, que diziam ser PP, pagou passou. O mais procurado era o Colégio Estadual de Pernambuco, o chamado Ginásio Pernambucano. Eu fui para lá mas, não foi fácil conseguir vaga. Era uma verdadeira Universidade, pela qualidade de seus professores, os quais encontrei muitos deles depois na UFPE.

Este colégio me dá saudade, não somente pelos colegas que tive ou pelas boas horas pelas quais lá passei. Me dá saudade maior é de uma educação pública de qualidade. Posso até dizer que ele foi um marco da educação pública no Brasil. Com a decadência do Colégio Estadual, perto da década de 80, a educação pública foi também a pique.

Mas não é só de educação que quero falar deste Recife mais do que quatrocentão. Havia o Gemba, na Rua da Aurora, que tinha um sorvete obrigatório para quem ia assistir a alguma filme no Cine São Luiz, e que tinha um paletó para entrar. O Art-Palacio, o Cine Trianon, o Cine Moderno, e mesmo o mais novo deles o Cine Veneza. Naquela época ainda existia um cinema em cada bairro. Em Casa Amarela podíamos ir para escolher entre três, inclusive o Albatroz.

As ruas calmas e tranquilas, mesmo nos dias de semana, com dois ou três fuscas passando pela ponte Duarte Coelho, os passeios entre as Ruas Nova e Imperatriz, com a visita obrigatória à Viana Leal, onde andei pela primeira vez numa escada rolante. Ali eu não sabia que ainda ia rolar tanto pelo vida e pelo mundo. Uma olhada na vitrine muito bem feita da Slopper e nos cartazes dos cinemas ali perto.

Esperar, em dias de competição que os barcos a remo singrassem o Rio Capibaribe, enquanto admirava as belezas do Teatro Santa Isabel e mesmo o modernismo do prédio dos Correios. Não havia assaltantes, ladrões, e nem mesmo víamos policiais.

Mas nem só do espírito vive o homem, principalmente o homem novo e hormonalmente instável. Barão do Rio Branco, Rua da Guia, Rua do Bom Jesus, enfim, Recife Antigo, hoje um ponto turísticos de nossa “quatrocentona” cidade. Naquela época não íamos lá para correr atrás do Bloco da Saudade, íamos para não fazer grandes esforços manuais e não ficar na saudade. Muitos dos bom-conselhenses machões que conheci na minha época, e que contavam grandes façanhas sexuais nas reuniões das praças e rodoviária de Bom Conselho, chegaram aqui mais virgens do que a Venus de Milo. Normalmente, esta virgindade era curada com uma doença venérea na Rua da Guia e adjascências.

Camisinha naquela época só de bebê pagão. Tínhamos a maior vergonha de chegar na farmácia de Ivan e comprar, e mesmo aqui em Recife, arriscávamos na loteria. Parece mentira mas nunca acertei no azar grande. Na pensão onde morava, meus colegas, depois do passeio, passavam três dias indo ao banheiro preocupados, e quando gemiam, eram logo alijados do convívio no banheiro. Tinha que começar no Benzentacil, e usar outro banheiro, até parar de pingar.

Atualmente é muito diferente. Mas, sabe de uma coisa, vamos ficar por aqui para não conspurcar nossa saudade de nossa bela segunda pátria.

Diretor Presidentediretorpresidente@citltda.com

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