segunda-feira, 22 de março de 2010

Sobre médicos





Hoje escrevo sobre um tema que é tabu. Dele, as pessoas não falam às claras. Só às escondidas. Têm medo. Vamos a ele, por ser oportuno.

Agripino Grieco foi um crítico mordaz e observador arguto. Nascido no fim do século XIX, faleceu em 1973. Vejam algumas frases dele, sobre médicos: "Médico, por não ter um só cliente, suicidou-se: tinha que matar alguém." "O médico L, matou um cidadão a tiros. Como se não bastasse um simples receituário." "Médico a querer cuidar do pai. Assustadora possibilidade de parricídio." "O médico, deixando de clinicar, passou a escrever. Lucraram os doentes, mas a literatura saiu perdendo." A alguns pode parecer brincadeira. Mas Agripino Grieco sabia do que falava.

Este escrito vem a propósito de um artigo que li no Diario de Pernambuco, de 27.2.2010, de título "Doutor em quê?", escrito por um pós-graduando em Direito. O articulista diz que, ao prestar socorro a um seu familiar, deparou-se com fato lamentável, na emergência de um hospital particular, em Recife. Ele preferiu não citar o nome do hospital. Disse que uma enfermeira, sempre solícita, chamava uma jovem médica, tratando-a pelo seu primeiro nome, sem antepor o indesejado "doutora". E a mediquinha desfilava acima e abaixo, com seu telefone celular, que mais parecia um adereço. A enfermeira perguntava à médica, qual a dosagem de medicamento deveria ser aplicado em outro paciente.

Chamou pela terceira vez, sem receber nenhuma atenção. Até que a médica se irritou e disse à enfermeira: "Até parece que você não sabe ler", mostrando o pernóstico Drª, bordado no jaleco, seguido do seu nome. E acrescentou: "Passei por uma faculdade para chegar aqui. Dessa forma, eu não atendo ninguém". O autor do texto disse que viu as lágrimas nos olhos da humilde enfermeira, por ter passado por tamanha humilhação, frente a vários pacientes. A cena causou revolta em todos. Porém, recobrando o fôlego, a enfermeira respondeu de imediato: "Desculpe, doutora, mas a questão não é o seu título, e sim, a vida de uma pessoa. E, a propósito, eu também sou formada em enfermagem, pela Universidade Federal de Pernambuco".

Ora, "doutor" não é pronome de tratamento. É só um título acadêmico, conferido a quem defende tese. Pode ser também, título honorífico, concedido a quem se engaja numa causa e nela se destaca. Isso é uma verdade que não exige prova. É, portanto, um axioma. - Conversa, puxa conversas: há uns cinco anos, li, na Folha de São Paulo, o desabafo de uma psicóloga. Ela falava com segurança e exemplificava com detalhes. Afirmou e reafirmou que os médicos, em geral, não consideram, nem um pouquinho, os outros profissionais da área de saúde. - Porém, esses relatos não me trouxeram nenhuma novidade.

Durante toda a minha vida, conheci pouquíssimos médicos educados. Conto nos dedos, talvez dois ou três. Entre estes, cito o doutor Agnaldo Jurema, otorrinolaringologista, já falecido. Este era médico e amigo dos que lhe procuravam. Conversava com o paciente, olhava para ele, perquiria e ouvia. Vinha receber o cliente na porta de sua sala, chamando-o pelo nome, antecedido de senhor ou senhora. E mais, coisa raríssima no meio médico: se o doutor Agnaldo atrasasse 20 minutos no horário da consulta, pedia desculpas ao paciente.

Outro, foi o doutor Hélio Ferreira de Araújo, na cidade de Palmeira dos Índios (AL). O doutor Hélio era tão cuidadoso que todos os seus receituários eram datilografados numa Olivetti velha. Isso foi no tempo da máquina de escrever. Contrariava, assim, esse mau costume dos médicos, na sua grande maioria, que produzem aqueles garranchos, para mais se distanciarem dos seus clientes. Por falar em garranchos imprestáveis, causadores de tantos enganos em balcões de farmácias, há uma ginecologista em Garanhuns, cujos garranchos nos seus receituários, já me fizeram ligar de Recife pra Garanhuns, para poder comprar um medicamento para uma sobrinha minha. Em quatro farmácias, ninguém conseguiu ler. Uns diziam pode ser isso; outros, pode ser aquilo etc.

Saindo dos garranchos para outro tipo de desconsideração, há um certo medalhão no Unicordis - Espinheiro, que atrasa cerca de três horas, sistematicamente, para atender pacientes com hora marcada. Todos os dias a pisada é essa. Creio que esses ditos pacientes, além de pacientes, são masoquistas. Porque eu não me submeto a um desrespeito desse tipo, ainda que o tal médico fosse o mais preparado cardiologista de Recife. Já disse isso a dois dos seus colegas.

Tenho comigo, duas entrevistas de médicos, nas páginas amarelas da revista Veja. A mais recente, de 14.10.2009, com o título: Caixa-preta na cirurgia, é do doutor Ben-Hur Ferraz Neto, chefe do Programa de Transplantes do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e um dos médicos mais conceituados em transplantes de fígados. Nela, o doutor Ben-Hur, entre outras verdades ditas, apresentou duas propostas que, infelizmente, ele nunca vai conseguir vê-las concretizadas: a primeira é o uso de monitoramento eletrônico nas salas de cirurgias, tal como as caixas-pretas dos aviões. Porque é ali que o doente está totalmente indefeso: anestesiado, semidespido, à mercê de médicos e auxiliares destes. A segunda proposição: que a consulta médica só deveria ser paga a partir da segunda, isto é, da volta do paciente ao médico. Porque, na primeira, o doente não sabe como vai ser recebido pelo médico. Isto é, ele corre sério risco de pagar pra ser mal-atendido (por um estúpido). Se isso ocorrer, o pobre paciente já perdeu o dinheiro e vai procurar outro médico. Também no escuro, ou seja, correndo o mesmo risco de dar de cara com outro casca-grossa.

Na outra entrevista (revista Veja, de 11.9.2002 - amarelas), cujo título é: Médicos ditadores, o doutor Luiz Roberto Londres, dono da Clínica São Vicente, um dos hospitais mais renomados do Rio de Janeiro, depois de muitas assertivas, diz: "Médicos que dão mais importância a si próprios do que aos pacientes devem ser evitados". E continua: "Nos dias de hoje, o paciente é tratado como um número de estatística, um corpo desprovido de vontade e de história". Essas frases são uma verdade cristalina. Os médicos passam uma superioridade tão aterradora, que, numa simples consulta, o cliente não se arrisca a outra coisa, a não ser concordar com eles. Isso chega a ser burrice dos usuários de serviços médicos.

Voltemos aos meus exemplos: certa vez, após esperar 3h40 para ser atendido numa volta a um médico, por pura incompetência dele, eu lhe disse: a sorte de vocês é que médicos não morrem. Ele se espantou e disse: que é isso, eu já perdi vários colegas só este ano. Eu, então, respondi-lhe: duvido, porque eu conheço médicos com 300, 400, 500 e mais anos. Aí ele pediu que eu parasse com isso, para entrar no tema que me levara ali. Trocou de medicamento e de nada adiantou. Foi quando me indicaram o doutor Sérgio Paulo, que me curou com um simples creme Canesten e uns comprimidos anti-inflamatórios.

De outra feita, voltei para entregar exames a um neurologista do hospital Português. Aguardei a minha hora. Quando a atendente me mandou entrar, eu bati na porta e entrei. O dito médico estava conversando com outro. Eu dei bom-dia. Nenhum dos dois respondeu. Fiquei em pé olhando pra eles. Daí a pouco, puxei uma cadeira e me sentei, já que não fora convidado a sentar. Foi o bastante para que os dois se levantassem e saíssem da sala, sem nada dizer. Nem me olharam. Esperei 15 minutos e me preparei pra sair. Foi quando o dono da sala entrou. E eu disse: já estava de saída. E ele: como, se ainda não lhe atendi? Eu retruquei: pela maneira como eu fui recebido, posso dispensar seu atendimento. Ele calou-se. Mostrei os exames e nem escutei o que ele disse a respeito. Nunca mais voltei lá. E só posso voltar, se for levado por outra pessoa, desacordado. Isso vale também para o cardiologista do Unicordis.

Creio que nas faculdades de medicina deve existir uma cadeira própria pra ensinar arrogância, superioridade, prepotência e mau tratamento. E que essa disciplina deve ser pré-requisito para colar grau em medicina. Assim, os médicos estariam aptos para exercer essa enorme distância que existe entre eles e os pobres mortais. Mas há mínimas exceções na regra geral. E essa regra geral nos leva a supor que médicos não morrem, como eu já disse a um deles. Só as vítimas deles é que morrem. Essas vítimas são apelidadas pelos médicos, de pacientes.

Na semana passada, em conversa com um médico amigo meu, este contou-me um fato também inusitado: um médico fez uma cirurgia num rapaz e, no dia, seguinte, foi visitar a vítima da cirurgia. Então, perguntou-lhe como estava. Ao que o rapaz respondeu, inocentemente: estou bem, graças a Deus. E o médico: graças a Deus, não, graças a mim. Esse é fato verídico, não é enfeite, não.

Há poucos dias, levei minha esposa a uma urgência hospitalar. Ela foi atendida por uma médica educada, que a pôs para receber soro. Mas, às 19h, terminou o seu plantão e veio um médico para rendê-la. Logo de chagada, ele demonstrou toda a sua boçalidade. Minutos depois, ele entrou no ambulatório, vizinho à sala de repouso e me perguntou: como está dona Conceição? Eu lhe respondi: daqui a pouco, vamos aferir a situação dela. Ele prontamente entendeu que eu estava querendo ser igual a ele, e cortou ligeiro, dizendo: se é assim, eu vou lhe deixar aqui no plantão e vou embora pra casa. Eu não engoli e retruquei, no mesmo tom: e amanhã você vai fazer duas audiências ali no Fórum, em meu lugar. Ele calou-se.

Quem quiser saber mais um pouquinho sobre médicos e o que mais acontece nos corredores da medicina, leia o livro: "SEM ANESTESIA, o desabafo de um médico - OS BASTIDORES DE UMA MEDICINA CADA VEZ MAIS DISTANTE E CRUEL", do doutor Alex Botsaris (Editora Objetiva Ltda. - Rio - 322 páginas). Botsaris é clínico geral e acumpunturista no Rio de Janeiro, formado em 1981. Ele começa narrando como se deu a morte de um filho seu, que foi levado a um dos melhores serviços de terapia intensiva para neonatos, num hospital do Rio de Janeiro. O seu livro é recheado de casos clínicos, estudos científicos e dados de pesquisas. Nos agradecimentos iniciais, o doutor Botsaris cita 28 médicos e médicas que colaboraram na elaboração do seu livro.

Se algum médico, por acaso, ler este texto, não há por que se ofender. Poderá até fazer uma auto-análise. Se ele for exceção, que bom! Se não for, paciência. Não é problema meu. É dele mesmo. E quem quer que seja, pode pedir-me mais esclarecimentos sobre o que ora afirmo. É isso./.

José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br

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