sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Exibida



Eu gosto muito de narrar os episódios que aconteceram comigo, mas, o que gosto mesmo de fazer é falar de pessoas. Pessoas interessantes, sensatas ou não, burras ou inteligentes. Como dizia meu pai, todas são filhas de Deus.

Hoje me lembrei da Analu. Ela morava perto de mim mas não na mesma rua. Era mais velha do que eu, e só sei disso porque quando eu era bem menina era já era uma moça, penso, lá com os seus 20 e poucos anos. Ela era professora de um escola mais longe e todos os dias passava em frente da minha casa e cumprimentava a todos. Andava sempre bem vestida e dizia que seguia as tendências da moda à risca.

Mesmo com a diferença de idade ela sempre falou comigo. Quando pequena falava para uma menina, quando fui ficando mocinha falava para uma adulta. E assim desenvolvemos uma amizade com distância regulamentar, pela diferença de idade e também de comportamento. Eu era um pouco tímida, e ainda sou, introvertida, ensimesmada, e ela ao contrário, e talvez mais do que o contrário, não perdia a oportunidade para aparecer, e adorava ser admirada em voz alta por todos.

Naquela época não havia possibilidade de se pertencer a algum movimento social de jovens radicais, como hoje existe, com os “punks”, “emos”, “góticos” e outros. Embora não tenha certeza, não a vi mais nesta época, mas, ela deve ter pelo menos se vestido como “hippie”, o movimento radical mais antigo. E mini-saia estou certa que usou.

Ela era cantora e exercia este ofício, principalmente, na igreja. Dizem também, que ela se apresentava algumas vezes em rádios, em programas de auditório. Mas, pelo que eu sei, nunca foi uma profissional. Compunha também e fazia poesias que recitava para qualquer recalcitrante que se dispusesse a ouvi-la. Recitava poesia também de outros autores. Lembro na igreja, o padre Bernardo em dias de santa paciência dizia:

- Analu, tens alguma coisa para nós hoje?

- Sempre tem, não é padre!!! Vocês querem que eu cante ou recite uma poesia?

Era nessa hora que eu deduzia não ser a Analu uma boa cantora, mesmo sem entender muito da arte do bel canto, pois todos preferiam que ela recitasse.

- Oh! Analu, recita aquela do laço de fita, é tão bonita!

Dizia Isabel, um beata que já havia dado uns “dois tiros na macaca”, como se dizia da moça que não casava depois dois 25 anos, cada tiro era mais 25.

- Se o Padre Bernardo permitir!

- Pode recitar Analu, eu já conheço a poesia, Deus também ajuda quem ama!

E ela, fazendo todo o gestual necessário, começava a bela poesia do Castro Alves (eu lembrava de alguma coisa, mas hoje, com minha nova memória, a Internet, lembro de tudo):

Não sabes crianças? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.
Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,

Formoso enroscava-se
O laço de fita.
Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro

Num laço de fita.
E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.
Há pouco voavas na célere valsa,

Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...

Teu laço de fita.
Mas ai! findo o baile, despindo os adornos

N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.
Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!

Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.

Além dos trejeitos da recitação desta bela poesia ela apontava cada vez paro o laço de fita de uma menininha pequena, no colo da mãe, que nada entendia. Nesta época eu já entendia um pouco, não tudo, mas ficava observando Analu, com sua desenvoltura no seu monólogo teatral. Ao terminar, ouviam-se as palmas e os olhos dela brilhavam, como sendo aquele seu momento mais feliz.

Eu penso que todos gostavam da Analu, menos ela mesma. Digo isto porque o seu comportamento levava muitas vezes a inimizades gratuitas. Bastava ela olhar para alguém e não o ver aplaudindo suas performances e aquela pessoa era riscada do seu “caderninho”. Tanto que, se quiséssemos ser amigos dela tínhamos que aplaudí-la e elogiar os seus feitos, fossem eles quais fossem.

Talvez isto explique porque ela sempre foi minha amiga. Eu sempre aplaudia suas performances, vestes e atitudes. Não era uma atitude de subserviência a Analu, era apenas a forma de uma menina ou adolescente tímida de admirar alguém muito diferente dela e que no fundo queria mesmo era imitá-la. Hoje, vendo através do túnel do tempo com muitas décadas, não sei se realmente ela era minha amiga, ou se pelo menos me havia notado, além de meus elogios e aplausos.

Depois perdi Analu de vista. Ela mudou de bairro ou de cidade, não sei. Entretanto, deu tempo para ver que ela foi ficando cada dia mais só e mais triste. Nem todos gostavam de tudo que ela fazia e ela sempre passava a não falar com aqueles que assim procediam.

Lembro ainda de três pessoas, que até ela sair do bairro, ainda mantinha uma relação de amizade: O Padre Bernardo, Seu Pedro Anésio e eu. Digo isto porque ela, pelo menos, falava comigo, sem saber qual o grau de sua amizade. Talvez, se eu tivesse a vivência que tenho, eu chamaria a Analu para uma conversa franca, tentando mostrar que uma opinião sincera, mesmo crítica, pode fazer parte de uma grande amizade, e que ela iria terminar sozinha se continuasse com aquele exibicionismo doentio.

Se esta crônica fosse escrita para crianças ela terminaria aqui. Mas correndo o risco de transformar alguma criança, que leia o texto, em exibicionista, devo continuar. Como se diz, tirem as crianças da sala. Soube, por meu irmão Eraldo, que a Analu é hoje uma grande atriz de teatro, e já trabalhou até na TV. Se tem amigos, não sei. Será que ela se importa com isso? Talvez ela dissesse o contrário do que minha mãe ensinava:

- Mais vale dinheiro na caixa do que amigos na praça!

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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