quinta-feira, 8 de abril de 2010

Minha Casa, Minha Morte



Atualmente trabalhamos em casa, todos da CIT. Temos nosso laptop, uma conexão tartaruga, mas que funciona. Ao contrário do meu amigo José Fernandes, adoro TV. Isto não desmerece nenhum de nós dois, eu penso. Não gosto de todos os programas, prefiro as novelas, mas de vez em quando vejo os telejornais, junto com o meu marido, que assiste as novelas comigo, fingindo que está dormindo.

Ontem, pela manhã liguei o aparelho e vi uma tragédia. O Rio de Janeiro estava literalmente debaixo d’água. Deus mandou a chuva, não para o sertão sofredor, do nosso Nordeste, mas para uma cidade que já tem um volume d’água, que é mote para sua beleza. A cidade parou. As cenas que a TV apresentava provocavam nossos sentimentos de medo e expectativa de mais tragédias. Num morro em que uma encosta rolou um conjunto de casas e pessoas parecia esperar, diante do perigo, que o restante do morro rolasse como num imenso tobogã. Eu fiquei pensando o que leva as pessoas a se arriscarem tanto e permanecerem impassíveis nas áreas de risco. A conclusão é clara, como não eram as águas que escorriam pelo morro, tornando a Cidade Maravilhosa, menos maravilhosa: A vida delas estava ali. Naquelas casas construídas ao longo de toda uma vida de agruras e lutas. Minha Casa, Minha Vida.

Lembrei que este é o nome de um programa de habitação gerido pela Caixa Econômica Federal, com o qual o governo federal se propõe realizar o sonho da casa própria para milhões de brasileiros. Segundo o site da Caixa, o Minha Casa, Minha Vida viabiliza a construção de 1 milhão de moradias para famílias com renda de até 10 salários mínimos, em parceria com estados, municípios e iniciativa privada, e vai impulsionar a economia, gerar empregos e trazer reflexos positivos para toda a sociedade. Enquanto muitos países diminuem os investimentos por conta da crise financeira internacional, o Brasil gera novas oportunidades de desenvolvimento para que a roda da economia continue a girar.

Nada contra um programa como este. Apesar de algumas falhas apontadas, as intenções do programa são boas. Entretanto hoje, juntando a tragédia do Rio de Janeiro com o folhear dos jornais, me deparei com algo que penso ser extremamente grave. Eu já havia ouvido que um dos grandes empecilhos para o programa é a falta de terrenos em grandes cidades. E li que muitas obras do programa estão sendo financiadas em áreas de risco.

Um colunista de Brasília que tem uma coluna no Diário de Pernambuco, Luiz Carlos Azedo, cita o governador do Rio de Janeiro criticando os moradores do local do deslizamento, chamando-os de irresponsáveis, por ocuparem edificações de vários andares, construídas em áreas de risco. Esta imputação de responsabilidade dos moradores, já seria grave por si mesma, porque ele é um dos responsáveis pela segurança dos moradores, e neste caso, também o prefeito. Como sempre penso em Bom Conselho, fico pensando no que o Diretor Presidente falou sobre a ocupação da Serra de Santa Terezinha.

Entretanto, o pior estava por vir. O colunista diz que estas áreas estão sendo consolidadas pelo Minha Casa, Minha Vida, e que há 10 mil cariocas morando em áreas de risco, por onde deveria começar o programa. Fiquei fazendo cálculos, embora, como seu Clívio deveria saber, se lembrasse de mim, que não sou boa em matemática. Neste caso dar para imaginar juntando as grandes capitais brasileiras e mais Bom Conselho com as habitações que lá já existem na Serra, o quanto de pessoas agora serão sagradas oficialmente em risco de vida, com subsídio governamental. Isto é grave. Muito grave.

A esfera de governo mais ligada a isto é o Município, porque é o ordenador do solo urbano. A responsabilidade dos prefeitos aumenta de forma acentuada, diante dos eventos naturais catastróficos cada vez mais freqüentes. E como qualquer equipe de governo eficiente sabe: “é melhor prevenir do que remediar”. Não permitamos que em outro lugar, como no Rio de Janeiro, com quase 100 mortos, o programa, passe a se chamar de Minha Casa, Minha Morte.

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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