terça-feira, 13 de abril de 2010

Nossa Igreja Católica evoluiu um pouco



Ano passado, depois de uma frase minha no Blog da CIT, num artigo que nem tratava diretamente do tema (http://www.citltda.com/2009/03/o-dia-internacional-da-mulher.html), o aborto, houve um debate que incluiu várias pessoas de nossa terra. Alguns de saudosa memória, como O Andarilho, outros, além de mim, como Felipe Alapenha, Cleómenes Oliveira, José Fernandes, Edjasme Tavares, José Taveira Belo, Carlos Sena e ainda outros, dos quais me falha a memória. A frase foi a seguinte: “Para sua reflexão: Se você descobrisse que sua filha ou neta, de 9 anos de idade, foi estuprada e está esperando filhos gêmeos, de quem você aceitaria um conselho, do bispo ou do médico?”

Eu, sendo católica, sei quanto espinhoso é este tema para nós. Ficamos sempre entre a cruz e caldeirinha. Se por um lado devemos prezar a vida sempre, em casos extremos de opção entre vidas, a quem devemos escolher? Nunca fomos a favor do aborto pura e simplesmente, mas em certos casos, onde há interferência direta de uma feto sobre outras vidas, não temos como não ter nossas dúvidas, mesmo sendo Católica Apostólica Romana.

Muitos dizem que só se pode ser católica se seguirmos à risca o catecismo e as regras de nossa Santa Madre Igreja. Isto é a mesma coisa que dizer: parem de pensar, parem de evoluir, parem de serem humanos. Vemos hoje, a Igreja às voltas com o problema da pedofilia e outros pecados contra a castidade praticados por seus padres, e perguntamos, culpa de quem será este procedimento criminoso? Penso ser, em grande parte, de normas anacrônicas do nosso Código Canônico. Este reflete as práticas milenares da Igreja Católica, eivadas, historicamente, pela natureza rudimentar do conhecimento teológico que não acompanhou outras formas de conhecimento, nem a evolução social.

Vide, por exemplo, o celibato sacerdotal. Há uma grande discussão se Jesus teria dito aos apóstolos, que eles fossem celibatários, como um conselho ou como uma imposição, quando no evangelho de Mateus(10, 37-39) ele diz: "Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim. E aquele que ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim. Aquele que não toma a sua cruz e me segue não é digno de mim. Aquele que acha a sua vida, vai perdê-la, mas quem perde a sua vida por causa de mim, vai achá-la". Outras religiões onde o casamento é permitido, citam São Paulo: "Se alguém deseja o episcopado, deseja uma boa obra. Importa que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, sóbrio, prudente, conciliador, modesto, hospitaleiro, capaz de ensinar" (1 Tim 3, 1-2).

O que levou aos católicos defensores do celibato a concluir que este não é obrigação imposta por Deus, mas um conselho de Jesus, transformado em preceito pela Igreja, pelos nossos códigos. Sei que o tema afeta toda a igreja ao ponto de um documento de 2008, aprovado por 430 delegados que representavam os 18.685 padres das 269 dioceses brasileiras – que participaram do 12º Encontro Nacional de Presbíteros – propõe a busca de alternativas para o celibato sacerdotal, para ser enviado ao Vaticano. Sei que alguns dirão que é padre quem quer e tem que ser celibatário, entretanto ninguém me tira da cabeça, que, na época em que vivemos, as crimes sexuais e esvaziamento da nossa Igreja em termos de sacerdotes, tem muito a ver com a imposição do celibato, aos nossos padres.

O celibato entrou aqui apenas, com se diz, como Pilatos no Credo, para introduzir outra vez a questão do aborto, que deu origem ao debate de que falei acima. Minha frase, naquela ocasião se referia, principalmente, ao comportamento do nosso Arcebispo na época, D. José Cardoso Sobrinho, que lançou mão dos códigos para sair excomungando todo mundo, inclusive médicos, pais e, talvez até a menina de Alagoinha que foi estuprada pelo padrasto aos 9 anos, engravidando de gêmeos. Isto foi em fevereiro de 2009. Agora outro caso semelhante ocorreu em Jaboatão com outra menina de 10 anos. Em ambos os casos, a família resolveu apelar para o aborto legal.

Desta feita, o novo arcebispo de Recife e Olinda, D. Fernando Saburido, assim se manifestou: “A decisão é dos pais, que têm toda a liberdade para agir da maneira que acharem convenientes. Se há consenso médico de que a vida da mãe corre risco, o aborto é algo a ser considerado. Porém, a Igreja é contrária ao procedimento. Nunca vou me antecipar porque esta decisão é da família da menina. E defendo a preservação da vida.” (Diário de Pernambuco, 10.04.2010).

Ainda hoje eu responderia minha pergunta, que deu origem ao debate, optando pelo médico. E não estou tão longe da opinião do nosso novo arcebispo. Mas estou a quilômetros de distância da opinião do seu antecessor, que igual a inquisidor na idade média, saiu brandindo excomunhões para todos os lados. Penso, que pelo menos nisto, com o nosso novo arcebispo a Igreja evoluiu. E pode evoluir ainda mais se os seus dirigentes reconhecerem que Deus e seu filho Jesus não mudaram, mas nos deram liberdade para a cada dia conhecermos mais deste nosso mundo, muitas vezes tão cruel, e que precisa muito deles para viver melhor. E ninguém humano tem o apanágio da verdade. Graças a Deus!

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com

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