segunda-feira, 19 de abril de 2010

Nossa Igreja evoluiu, mas não tanto



Alguns dias atrás escrevi sobre a decisão de uma família de fazer abortar um feto gerado por estupro cometido numa menina de 10 anos em Jaboatão (http://www.citltda.com/2010/04/nossa-igreja-catolica-evoluiu-um-pouco.html). Naquele dia, ao ver uma declaração no nosso atual arcebispo, D. Fernando Saburido, como católica praticante, mas sem me colocar como massa de manobra de certos homens que compõem a nossa igreja, fiquei alegre. O nosso arcebisbo dizia: “A decisão é dos pais, que têm toda a liberdade para agir da maneira que acharem convenientes. Se há consenso médico de que a vida da mãe corre risco, o aborto é algo a ser considerado. Porém, a Igreja é contrária ao procedimento. Nunca vou me antecipar porque esta decisão é da família da menina. E defendo a preservação da vida.” (Diário de Pernambuco, 10.04.2010).

Relembrando o comportamento do seu antecessor, D. José Cardoso Sobrinho, achei esta posição um avanço, ainda pequeno, mas um avanço. Eu sou do tempo que, em Bom Conselho, se uma mulher quisesse entrar de calça comprida na Igreja, poderia até ser enxotada. Pegar na hóstia era um sacrilégio que rendeu a D. Lila quase a excomunhão, por ela ter colocada a hóstia dentro do missal, talvez pensando que assim viveria mais tempo com Jesus. Até cruzar as pernas, quando sentada dentro da Igreja, era motivo de admoestação. Uma freira mostrar os cabelos nem pensar, gerando o ditado, “é mais escondido do que cabelo de freira”. Na missa, o padre dava as costas para os fiéis, e dizia palavras (em latim) incompreensíveis mesmo para o sacristão ou ajudante de missa que, junto com o padre era o que falava: “Dominun vobiscum”, dizia o padre. “Et cum spiritu tuo”, respondia o ajudante. Como eu gostaria de ajudar na missa. Mas, sendo mulher, nem se fosse freira, D. Maria Francisca ou D. Lourdes Cardoso. E outros costumes mais.

Atualmente, as mulheres vão de calça comprida, saias não muito longas, pegam na hóstia, as freiras mostram o cabelo sem medo do fogo do inferno, entendemos o que o padre diz e ainda nos cumprimentamos no final, enquanto o padre de frente para nós, diz: “Vão em paz e o Senhor vos acompanhe.” Eu tenho certeza que Nosso Senhor vai mais feliz hoje, conosco para nossa casa, do que quando era mandado ir em latim.

Nossa Igreja evolui com o tempo. Mas esta foi sempre uma evolução lenta e muitas vezes cruel do ponto de vista humano, com mortes, defecções, revoltas e erros de todos os tipos. Entretanto, esta evolução sempre se deu por iniciativa de católicos, conscientes, como eu me considero, que são antes de tudo cristãos, e depois católicos. Eu sou daquelas que não crêem que não ser católico seja um pecado mortal, e mesmo quem não é cristão, é filho de Deus. Afinal de contas Jesus era judeu. Sou contra o celibato sacerdotal, por que não vejo sentido nenhum neste comportamento, e, se existe algum, ele é nocivo à própria Igreja como já cheguei a comentar no artigo anterior. Sou a favor do aborto quando estão em jogo a vida de mais de um ser humano, atestado pela medicina, e em casos de menores, esta decisão deverá ser da família, que era a mesma opinião do arcebispo. Sou a favor do controle da natalidade, porque o julgo um dos remédios para tanta miséria em que vivem crianças em áreas excessivamente povoadas. E, em relação a isto não entendo como nossa Igreja, que ama tanto a vida é contra o uso da "camisinha". Sou a favor do sacerdócio para mulheres, e por causa disto já disseram até que eu queria ser bispa de Rainha Izabel. Só posso dizer que seria uma honra muito grande. Mas prefiro ser vereadora em Bom Conselho.

Tenho certeza, que no rol dos católicos não estou só. Há pressões e mais pressões para que a Igreja se renove muito mais do que o fez até agora. Entretanto, fiquei um pouco triste ao ler os jornais subseqüentes e encontrar a seguinte nota do D. Fernando Saburido.



Infelizmente, onde penso que o ele acertou, que foi no Diário de Pernambuco, ele diz que a entrevista é tendenciosa, embora considere que possa não ter sido claro. Que pena, e eu que pensei que ele havia sido bastante claro, e se a entrevista é tendenciosa, ela tende para onde? Contra a vida? E a vida da criança estuprada, não conta? Como ele garantiria que existiria uma família que se dispusesse a adotar o bebê, oferecendo-lhe afeto e dignidade, se o que mais temos em nossas ruas são crianças abandonadas, enquanto nossa Igreja, cuida mais dos interesses materiais do que humanos e espirituais. Quantas creches caberiam no Hospital da Tamarineira ao invés do Shopping Center? Hoje, tenho certeza, a cruz de madeira que D. Hélder Câmara usava, vale mais do que as cruzes de ouro e pedras preciosas que alguns de nossas autoridades ecleciais usam. Perdoe-me Jesus, se estiver pecando por pensamentos, palavras e obras.

Bem, eu ainda continuo achando que nossa Igreja evoluiu com nosso arcebispo atual em relação ao antecessor. Pelo menos ele não excomungou ninguém, ainda. Mas, não evoluiu tanto quanto eu pensava.

Lucinha Peixotolucinhapeixoto@citltda.com


P. S. - Quando este artigo já esta pronto, vi uma declaração do D. Fernando Saburido, no Diário de Pernambuco (18.04.2010), se referindo aos casos de aborto e pedofilia, que é a seguinte:


"A Igreja tem passado, ao longo da história, por muitas tribulações e esta não será a última. Ela é formada por homens e mulheres cheios de virtudes e também de pecados. Acima de tudo, porém, está a graça de Deus que a guia pela ação do Espírito Santo. É preciso, então, levantar a cabeça e seguir adiante, esforçando-se para corrigir os erros e crescer na santidade, dom mais precioso de Deus, que recebemos no Batismo."


Fiquei mais tranquila porque estou seguindo seu conselho, pois expor a opinião é uma tentativa de corrigir nossos erros.


LP
--------
(*)Se a imagem da nota não estiver legível, clique nela para ver ampliada.

Nenhum comentário: