quarta-feira, 14 de abril de 2010

O Primeiro Emprego



Quem leu o que escrevo até agora sabe que eu trabalhei quando criança tomando conta de outra criança. Depois de longo tempo eu cresci. Completei 10, 12, 15, 18 anos, e assim por diante. Trabalhei em várias coisas e lugares, mas, o que considero mesmo o meu primeiro emprego, eu o consegui aos 19 anos. Foi numa fábrica chamada Tapetes Bandeirantes, parece que era na Mooca, um bairro de São Paulo. Eu viajava todo dia para lá.

Sofri todo o processo de “empregamento”. Exames médicos, documentos, assinatura da Carteira de Trabalho pela primeira vez, filiação ao Sindicato, que parece era dos Tecelões. Eu, ao contrário do colega retirante, Luiz Inácio, nunca me meti nestas coisas de reuniões sindicais. Era um pouco alienada embora menos do que hoje. Só sei que era uma época conturbada na fábrica. De vez em quando havia greve que eu só não furava se não me deixassem passar pelos piquetes.

Era uma fábrica grande e, como o nome diz, fabricava tapetes, bem lindos, por sinal. De todos os tipos e tamanhos. Umas máquinas enormes faziam grande parte do trabalho e deixavam um pouquinho para ser feito pelos trabalhadores inclusive eu. Hoje eu fico meditando, revivendo o meu castigo. Alguns dizem que por mais humilde que seja o nosso trabalho é importante para sociedade. O meu era ficar sentada num banquinho não muito confortável e olhar um monte de fios, penso que eram de algodão, que corriam como cachoeira à minha frente. Ficava ali paralisada, tesa, mumificada, olhando os fios passarem. Minha grande função social era, quando naquele meu setor quebrava um fio, a máquina parava, então eu me levantava do banquinho e emendava o fio, apertava um botão e a máquina voltava a funcionar.

Eu era uma “emendadeira de fios”. O meu chefe de setor, seu Honório me dizia com orgulho também de sua função, que se o fio não fosse emendado, toda a produção parava, e adeus tapetes. Sem tapetes, a fábrica não vendia, sem vendas não tinha dinheiro para nos pagar, se não havia dinheiro, também adeus nossos empregos, adeus à escola dos meus irmãos mais novos, etc. etc. E sempre repetia:

- Eliúde, você é a mais importante pessoa nesta fábrica!

No início aquilo me enchia de orgulho e ainda por cima tinha meu salário todos os meses. E ainda me gabava ao encontrar minhas colegas e dizer:

- Estou trabalhando na Tapetes Bandeirantes.

O tempo foi passando, passando e eu emendando, emendando. Era uma boa operária pois em nenhuma das minhas sessões houve demora na emenda dos fios. Até que um dia, uma colega minha, que tinha a mesma nobre função noutro setor, a Licinha, quando chegamos juntas ela disse que estava com sono, pois o filho dela estava doente. Nesse dia, certa hora, ouvi um alarido no setor onde ela trabalhava. A linha de produção estava parada, e eu me dirigi até lá. Ouvi o seguinte diálogo, entre seu Honório e Licinha:

- Licinha, você estava dormindo!?

- Seu Honório, me desculpe, não dormi bem ontem, meu filho está doente.

- E o que é que a fábrica tem com os problemas de seu filho, Licinha?

- Mas, seu Honório, eu prometo ao senhor que isto não ocorrerá mais. Isto nunca aconteceu antes, não vai se repetir.

- Sinto muito, Licinha mas vou ter que comunicar isto ao gerente de produção.

No outro dia a Licinha foi demitida. Quando ela soube chorava e esbravejava contra aquela situação do trabalhador. Eu me penalizei com a situação dela, com aquela revolta de gente covarde, que não ousa mais do que chorar baixinho. Não fiz nada no momento. Mas começou um processo dentro de mim que me fez duvidar, pela primeira vez, da conversa melosa do seu Honório. Um dia perguntei a ele:

- Seu Honório, qual a função social da Licinha agora?

- Não me amola, Eliúde, senão tu serás a próxima a ir prá rua!!!

Foi aí que descobri que covardia não é uma doença incurável, nem virtude é um vício insanável. Me virei para o seu Honório e disse:

- Vá tomar no.... Seu filho da...

Nunca mais vi o seu Honório. Espero que ele tenho ido para onde o mandei, junto com seu discurso sobre a função social do trabalhador. Resolvi voltar para o Nordeste, para o Recife. Não esperava que a situação aqui fosse melhor para uma despossuída como eu. Sofri muito ao deixar minha família, mas, não aguentava mais São Paulo e, pelo menos fiquei mais perto do Pau Grande. Vim pela Itapemirim, cuja diferença para o pau-de-arara, era muito pouca. Ainda penso que deveria ter sido líder sindical, entretanto tenho medo de que não tivesse estudado, como o fiz, ao ponto de querer me tornar escritora, uma profissão tão nobre quanto a do meu colega retirante Luiz Inácio.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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