quarta-feira, 7 de abril de 2010

Os fariseus e a dignidade



O Blog do Jodeval é bom porque é instigante. Tanto pelas postagens diferentes quanto pela dificuldade de achá-las. Eu não sei porque não há um índice de matérias nele, o que facilitaria tremendamente sua leitura, quando, como é o meu caso, quero reler algum texto antigo. Caro Jodeval tome isto mais como uma sugestão do que como uma crítica, pois sempre pode ser um “estilo”.

Até que enfim encontrei a postagem que é de 31.03.2010, tendo como título: “Cuba e a ignorância instrumentalizada”. É uma reprodução de um artigo do Emir Sader, sociólogo e cientista político, com várias obras sobre o assunto: Cuba. No Blog do Emir, onde se encontra o original, seu título é o mesmo que eu dei a este escrito: Os fariseus e a dignidade.

Inicialmente o professor pergunta: “O que sabem os leitores dos diários brasileiros sobre Cuba? O que sabem os telespectadores brasileiros sobre Cuba? O que sabem os ouvintes de rádio brasileiros sobre Cuba? O que saberia o povo brasileiro sobre Cuba, se dependesse da mídia brasileira?”

A resposta, para ele, é: “nada”. E culpa a mídia brasileira, a grande imprensa, as grandes empresas de comunicação por isto. No final cita um belo poema de José Marti, mártir da independência cubana, que se, por um lado, mostra a necessidade de decoro dos homens para viver, por outro, justifica a existência de alguns homens que se arvoram de ter o decoro de muitos homens, quando diz:

Há de haver no mundo certa quantidade de decoro,
como há de haver certa quantidade de luz.
Quando há muitos homens sem decoro, há sempre outros
que têm em si o decoro de muitos homens
...”

São estes homens, revolucionários ou mesmos visionários, que se rebelam contra aqueles que roubam aos povos sua liberdade, que é o mesmo que roubar o seu decoro. E conclui:

Nesses homens vão milhares de homens,
vai um povo inteiro,
vai a dignidade humana
… ”

Ninguém poderá duvidar da beleza e da veracidade da mensagem neste poema. Toda nação precisa de homens de decoro, de líderes éticos, que carreguem um povo inteiro e dignifiquem o homem. O que o poema não diz é que, quando estes homens não se tornam heróis e mártires, como o próprio autor, eles podem virar uma farsa ao querer impor seu decoro aos outros homens, que não mais o aceitam.

A Revolução Cubana completa 50 anos. Os revolucionários fizeram pelo seu povo coisas admiráveis, no campo da educação e da saúde. Carregaram o decoro do seu povo em direção à dignidade humana. Isto é inegável. Entretanto, eles não acompanharam a evolução do “decoro”. Num mundo globalizado, sem respaldo de outros países, com a descrença quase geral no governo de partido único, sem a liberdade de iniciativa e comércio, com medo do capitalismo, que hoje tende a ser domesticado pela crise, já devem existir homens em Cuba com “decoros” diferentes daqueles dos heróis de Sierra Maestra.

Agora eu pergunto: O que sabem os leitores dos diários cubanos sobre o mundo? O que sabem os telespectadores cubano sobre o mundo? O que sabem os ouvintes de rádio cubanos sobre o mundo? O que saberia o povo cubano sobre Cuba, se dependesse da mídia cubana? Eu diria, quase nada. O que eles sabem é o “docoro” imposto por líderes gagás, que sentem saudade de Stalin, e se esfalfam em criticar os países da antiga União Soviética, como “democracias burguesas”. São os novos “decoros” que precisam ser assimilados pelos Castros e desiguais dirigentes do Partido.

Como já disse em outro texto (http://www.citltda.com/2010/03/cuba-lanca-mas-nao-convence.html), foi uma luta muito grande do povo cubano, para chegar aonde chegou, e pela visão tacanha dos seus líderes, e outros da América Latina que querem impor seu “decoro”, viver na igualdade da miséria. O leste europeu acordou, a China está despertando e alguns saudosistas ainda dizem que devemos salvar Cuba do capitalismo e da democracia burguesa. Isto, aqui no Brasil, virou querela política. Quem é contra Fidel é de direita e quem é a favor é de esquerda. Isto é uma bobagem. Ser contra a ditadura dos Castros é apenas bom senso.

Ainda bem que o meu conterrâneo Lula desmente muito bem esta divisão pois nunca teve viés ideológico nenhum, desde pequeno, ele sempre quis o melhor viesse de onde viesse, e se deu bem. É um grande presidente, talvez por isso. Seu erro, levado por uma política externa equivocada, é paparicar demais ditadores. Infelizmente, tenho que citar a grande imprensa, pois não sou jornalistas e sei que todos escrevem melhor do que eu, embora sem concordar com tudo:

Por ocasião da desistência de Fidel Castro de continuar controlando com a pesada mão da ditadura sanguinária a população de Cuba – já que a suposta revolução socialista falhou -, alguns líderes e intelectuais cubanos se manifestaram decepcionados com Lula, que só teve elogios àquele que vê como herói em vida. Não faltou quem tivesse dito perceber que a trajetória do ex-líder sindical tinha sido, afinal, absolutamente pessoal e não político-ideológica. De mera ascensão ao poder e autopromoção. Afinal – porque bastaria ter lido s palavras do próprio: “Eu nunca fui esquerdista”. (Livro dos Políticos – Heródoto Barbeiro e Bruna Cantele).

Uma das coisas das quais discordo no texto acima, é quando ele diz que a revolução socialista falhou. Penso que ela apenas caducou. Mas falhará em Cuba se outros homens, com “decoro” diferente, não assumirem para si o decoro da maioria dos cubanos, deixando de lado o "decoro" dos dirigentes atuais.

Zezinho de Caetésjad67@citltda.com
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(*)As caricaturas são do livro citado no texto.

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