terça-feira, 6 de abril de 2010

A PRAIA



Durante a narrativa de minha vida eu pulei alguns fatos importantes e sempre que os lembro volto a eles. Eu não sei se ocorre com todo mundo que emigra do interior para o litoral, mas, comigo o desejo de conhecer o mar era uma ideia fixa desde quando meu pai se aproximou de mim, com aquele seu olhar manso e sua barba rala e disse:

- Eraldo e Eliúde falem com sua mãe que ela tem uma novidade prá vocês!

Eu já sabia qual era, pois no Pau Grande não tinha precisão de ficar atrás das portas para ouvir a conversa dos outros, simplesmente os quartos não tinham portas. Havia apenas um pano alongado, pendurado em dois pregos fincados nos frechais da porta. Ouvíamos quase tudo. E minha mãe se esforçava bastante quando ela e o meu pai partiam para os “finalmentes”. Se o esforço para ouvir aumentasse as orelhas, as do meu irmão Eraldo, certas noites, deveriam ficar maior do que o Pacaembú, que foi o lugar maior que eu fui em São Paulo, mas esta é outra história.

Já tinha ouvido falar no mar, mesmo em Bom Conselho. Diziam que era uma imensidão de água e que era mais fundo do que o açude de Seu Vitinho, lá no Papacacinha. Ouvi um dia uma história na casa de Seu Miguel Gordo, de que um menino caiu no mar, e veio uma cachoeira, e o levou até o estrangeiro. Enquanto contava, Seu Miguel pigarreava entre uma tragada e outra num cigarro de fumo de rolo, e dizia:

- Não foi nem pela força da cachoeira só! Foi pelo sal que deixou o menino leve. Dizem que o mar é tão salgado que nele ninguém afunda. Tem tanto sal que eu podia salgar toda minha carne de sol, com um caneco d’água.

Ele era vendedor de carne nas feiras. E eu ficava só ouvindo e imaginando. Depois esquecia e ia brincar com o papagaio. Quase esqueci o mar até quando soube que em São Paulo tinha mar, o Caetano, mentor intelectual da aventura do meu pai, disse. Aí eu pensei de novo. Quando cheguei lá descobri que em Guarulhos não tinha mar. Diante da situação da minha vida não posso florear aqui dizendo que fiquei decepcionada e “desmaiosa” porque não veria aquele montão d’água. Minha vida corria normalmente sem o mar.

Um belo dia na escola, o Serginho, meu colega me golpeiou (será que esta palavra vai ter um bom efeito literário?) com uma pergunta:

- Eliúde, tu queres ir à praia com a gente?

A gente, de que ele falava, era a família dele, e eu, diante daquele duro golpe de palavras (dramatizando), fiquei pasmada e sem saber o que responder. Primeiro ainda não juntava o mar com a praia e ficava pensando no menino de Seu Miguel Gordo. Segundo tinha que pedir aos meus pais, e além disso, não sabia nem o que ia enfrentar nesta tal de praia.

Ao chegar em casa disse a minha mãe da proposta. Ela reagiu bem mas com uma restrição:

- Onde é que vou arranjar uma roupa de praia para tu ir à praia. Teu pai não pode comprar agora. É melhor deixar para depois.

Eram argumentos quase definitivos para a desistência. Aquela história de que brasileiro não desiste nunca só ouvi muito depois dito pelo Ronaldo, o fenômeno gordo, que foi o primeiro a desistir de emagrecer, mesmo antes da Ivete Sangalo também desistir. Mas, naquela ocasião isto foi verdade, não sei como, minha mãe arranjou um maiô com os vizinhos. Não era um biquíni de bolinha amarelinho tão pequenininho, mas um sungão que batia quase no joelho. Naquela época nem ligava para isto.

Num belo sábado de sol saímos, bem cedinho, e depois de horas de viagem estávamos chegando a uma casa onde dormimos. Lembro que estava numa rede um pouco diferente de uma que dormi no Pau Grande uma vez, muito mais aconchegante. Eu era menina ainda, mas senti que o Serginho gostou muito de se balançar na rede comigo, de vez em quando querendo cair em cima de mim, eu me afastava e ele dizia que no outro dia iríamos á praia, que ficava bem perto. Será que os homens já nascem chantagistas sexuais?

No outro dia lá estávamos nós, eu com meu maiô, nem um pouco parecendo a Marta Rocha, o Serginho com um calção também “samba canção”, e, com uma enorme tralha, partimos em busca do mar. E fosse o que Deus quisesse.

Vi o pai do Serginho comentando que iríamos para Pernambuco. Oxente! Disse eu. Ainda bem não cheguei de lá e já vou voltando? Só depois descobri que o nome da praia era Pernambuco e íamos para o Guarujá. Não contarei aqui porque tantos já contaram o embevecimento ao ver a praia pela primeira vez e pode ficar massante para o leitor. Mas que foi grande, isto foi! Era água, água, água, que não acabava mais. E não parava de se mexer. Toda hora vinham aquelas paredes brancas e móveis em nossa direção, e lembro bem, senti uma emoção danada quando vi o Serginho correr em direção a uma delas e pular por cima. Fiquei apreensiva mas, tudo passou quando o vi me chamar por trás da parede que já ficava menor, menor e se desfazia.

Daí prá frente foi só festa. Fiquei o tempo todo pulando ondas e mais ondas. Minha curiosidade não foi suficiente para olhar para fora do mar e ver onde estava. A terra para mim era uma coisa que tinha tanta validade quanto em quem vou votar nas próximas eleições. Virgem Santa! Se Lucinha me ler vem logo com aquela ladainha de alienação e tudo mais. A verdade é que ela diz que somos “animais políticos”, e eu acho que somos mais “animais”, no bom sentido é claro. Mas não vamos tergiversar. Voltemos à praia.

Em toda esta primeira vez o que me marcou mais foi uma primeira vez. A primeira vez que beijei. Hoje vendo de longe no tempo, e tome tempo, posso até sentir mais do que naquele dia, mas não posso comparar as situações. Eu notava que o Serginho se tornara muito meu amigo, e hoje eu diria: “mui amigo!!!”. Ficava sempre perto de mim e me fazia todas as vontades. Não fiquei com fome nenhuma vez, ele ia lá e me trazia uma fruta ou um pão com carne. Não me lembro de ter ouvido a palavra sanduíche na época. Serginho, sempre estava me rondando.

Numa das puladas de onda o Serginho pegou na minha mão e pulamos juntos, fiquei desequilibrada e ia caindo na água. Ele me segurou ficou olhando para mim, dentro dos meus olhos, parecia até que ia me comer, e hoje eu digo, talvez quisesse mesmo. Ele colou os lábios nos meus. Meu Deus, não houve detalhes sórdidos porque eu o empurrei e disse: Quer me sufocar? Ele quase da mesma idade mas mais maduro perguntou:

- Você não sabe o que é um beijo não?

- É isso? Ecaaa!!!! Nunca mais vou beijar ninguém!

Ele ficou meio sem graça e continuamos a pegar as ondas em Pernambuco. Atualmente, em Pernambuco também, quando vou a Boa Viagem ou Janga, não digo mais ecaaaaa!!!

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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