quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Viagem



Lembro como se fosse hoje, quando cheguei em casa e comuniquei a minha mãe e a meus irmãos que iria embora de São Paulo. Foi um espanto, até eu explicar o que havia ocorrido e que tinha sido demitida, aí foi um horror. “Em cima de queda coice”, como meu pai de vez em quando dizia, quando as coisas iam sucessivamente mal. Afinal de contas eu ajudava nas despesas da casa e minha mãe já não tinha idade de trabalho. Entretanto, meus irmãos já estavam crescidos e o Eraldo, o mais velho, aguentava o tranco, além de eu poder continuar ajudando de onde estivesse.

Verdadeiramente, minha decisão de vir para o Recife já estava tomada. Eu tinha uma prima que morava em Paulista, a Francisquinha, com me correspondia deste que a aprendi a ler e escrever, e disso lá vai um longo tempo. Ela doida para vir para São Paulo e eu doida para sair de lá. Da mesma forma que sempre falei em São Paulo, estando em Guarulhos, falo de Recife, mesmo que o meu destino fosso Paulista, onde ela morava. Hoje sei, que tudo é Região Metropolitana, que é um eufemismo, uma confusão criada pela realidade humana de não poder lidar totalmente com o real, sempre precisa dar nome “aos bois”. Podemos dizer que fomos para São Paulo ou para o Recife, pois o nosso interlocutor, se perguntar: onde fica isto? Passa por ignorante, enquanto quando dizemos que moramos em Paulista ou em Guarulhos temos que explicar, longamente.

No fundo, no fundo, a vida é formada de ilusões. Sem elas não viveríamos. Muitos as chamam de esperança, expectativa, sonho. Eu chamo de ilusão. Mesmo que pensemos estar conscientes e certos de nossas decisões, pensando ter abarcado todos os prós e todos os contras e seus desenlaces, nunca temos certeza de nada. A não ser que um dia morreremos, embora que hoje tenhamos tantos remédios sendo criados, que talvez possa surgir um que nos leve a ter uma vida eterna, aqui mesmo na terra. E haja cirurgiões plásticos.

Meu pai teve suas ilusões com São Paulo e eu tive as minhas. Como muitos outros que tiveram o mesmo destino que nós. Eu não posso falar mal de São Paulo, talvez do seu Honório. Aquele lugar moldou minha vida e hoje gosto dela. Mas, naquele momento decidi partir para novas ilusões. Uma delas era ficar mais perto do lugar onde nasci, rever o Pau Grande, e conhecer Bom Conselho, pois nasci lá, mas fiquei tão pouco tempo que não me lembrava de quase nada, a não ser do entorno de minha casa. O sítio sim, tinha que ir lá e ver como estava.

Depois das despedidas, promessas, choro, abraços, me vi dentro de um ônibus da Empresa Itapemirim, que talvez exista até hoje. Era um dito semi-leito, que até hoje não sei porque. Aquelas cadeiras, se alguém a comparasse com um leito, nunca tinha dormido em um. Lotação esgotada, ou mais do que esgotada porque havia algumas mães levando filhos no colo.

Eu já contei aqui como vim de Bom Conselho para São Paulo (http://www.citltda.com/2009/07/minha-saida-do-pau-grande.html). Naquela época era criança e tudo parecia um diversão. Agora era adulta e aquele ônibus se revelava como um o sofrimento atroz. Ali eu me sentia realmente como uma arara num pau, junto com muitas araras que disputavam o mesmo pau. O motorista, um senhor moreno e usando uma gravatinha preta, mal colocada, disse:

- Daqui até Recife são 50 horas mais ou menos. O ônibus tem ar-condicionado, então tentem preservar limpo o ambiente, evitando comer dentro dele (e rindo um pouco) e fazer outras coisas que incomodam os demais. Quando pararmos é a hora de nos aliviar.

O próprio motorista foi o primeiro a abrir sua janelinha para não morrer de calor, o ar-condicionado era propaganda enganosa. E na mesma hora em que ele terminou de falar, uma senhora, que depois soube ser D. Alzira, abriu um pacote de onde saiu majestosamente um sanduíche de mortadela. Até hoje sinto o cheiro.

Enfim, saímos da Rodoviária e nos dirigimos para o Recife. Se tudo der certo, e eu realmente aprender a escrever, farei um roteiro de um filme: 50 Horas no Inferno. Aqui só farei uma sinopse (esta palavra aprendi agora quando li que o diretor do filme Avatar já tem uma sinopse pronta para rodar o Avatar 2 na Amazônia brasileira).

Não rodamos nem 100 quilômetros e o odor já era insuportável. As crianças, como é sabido, não tem controle sobre suas necessidades fisiológicas. Eram as famosos bombas de cocô, que quando era criança também até achava engraçado jogá-las fora do pau-de-arara. Naquele momento todos colocavam a mão no nariz e não tinham como reclamar. Já os adultos não soltavam bombas sólidas, apenas jogavam seus traques silenciosos de todos os matizes e fedores insuportáveis. A estes D. Alzira, que era minha companheira de poltrona dizia:

- Gente, vamos respeitar os outros! Vocês estão podres!

Enquanto degustava mais um sanduíche de mortadela, depois de gentilmente me oferecer, e eu recusar, a guloseima. Ela nem suspeitava que em certas situações a nossa mortadela pode feder mais do que o peido dos outros.

Mas, o pior de tudo era o chamado toalete, que ficava lá na traseira do ônibus, para as necessidades mais prementes. Quando alguém abria a porta o odor percorria todo o veículo, à velocidade da luz. D. Alzira comentava:

- Eu que não vou ali, espero o ônibus parar, me prendo e me arrebento, mas não vou.

Primeira parada, todos desceram para tomar um ar puro, comer e voltar ao inferno. Voltando, houve alguns momentos de descontração pois havia alguém que gostava de cantar, era o Anselmo. Ele havia ido para São Paulo para tentar a vida como cantor e músico no norte, como ele chamava o nordeste. Ele trazia um violão com ele, e talvez tenha me feito chegar viva ao meu destino. Ele puxava as músicas e os outros acompanhavam, formando um coro desentoado, mas para aquela situação parecia Os Canarinhos de Petrópolis, e o Anselmo era nosso Augusto Calheiros. Lembro de uma que ele cantou que até eu acompanhei:

“O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu!....”


Era o velho Adoniram com o seu Samba do Arnesto. Cantou outras dele e de outros autores. Nestes momentos a viagem se transformava num pulgartório, para na primeira bomba infantil, voltarmos ao inferno.

Ao longo desta tenebrosa viagem também conheci pessoas com as mais diversas histórias de ida e volta. Só não conheci alguém que viesse passear no Recife. Todos vinham para morar em vários lugares. Uma história que me comoveu foi a da Lina. Não sei se este era o seu nome mesmo ou uma abreviatura. Chegara a São Paulo a apenas um ano, seguindo a promessa de uma amiga de lhe abrigar em sua casa, por uns tempos. Ela nunca encontrou esta amiga, que dizia iria lhe esperá-la na rodoviária. Em todo este período ela nunca saiu de lá. Arranjou alguém que deu trabalho a ela num restaurante e um cantinho para morar, na própria rodoviária, e ela foi ficando. Não tinha nem o endereço da amiga. Pode-se até dizer, com um certo exagero, que ela foi à rodoviária de São Paulo e voltou um ano depois. Talvez, ao voltar para casa diga que conheceu São Paulo, não gostou e voltou. Espero que ainda tenha encontrado a família.

Um caso que seria trágico se não fosse cômico, ou ao contrário, foi o do seu Nestor. Ele era pedreiro. Ouviu a sereia cantar, igual ao meu pai, que em São Paulo não faltava trabalho. Ele saiu de Nazaré da Mata e foi para lá. Também não tinha ninguém lá. Ele contou que desceu do ônibus e ficou quase maluco com aquele rebuliço de gente e não sabia para onde ir. Começou a perguntar onde haveria trabalho de pedreiro, uns apontavam para um lado outro para o outro até que viu um homem vestido de palhaço e fazendo graças e trejeitos para uma roda de pessoas. Numa das calmarias, ele se dirigiu ao palhaço e perguntou onde podia trabalhar de pedreiro. O homem respondeu que não sabia, mas, se ele quisesse trabalhar ajudando ele, passando o chapéu entre os presentes, poderia trabalhar. Ele, aperreado como estava, aceitou na hora. Resultado, passaram-se 12 anos o palhaço morreu, seu Nestor tomou o lugar dele e passou todo o tempo divertindo as pessoas na Praça da Sé. Estava voltando para Nazaré para, talvez, formar um pequeno circo.

Já estou me prolongando demais nesta sinopse. Enfim, avistei, e só hoje sei disto, o Forte de Cinco Pontas e estava na antiga Rodoviária do Recife. Fim da viagem, fim do inferno? Será que Francisquinha estava lá? Depois eu conto.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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