segunda-feira, 10 de maio de 2010

Aborto: ciência e religião (1)

"Quem quiser ouvir a voz sincera da consciência, precisa
saber fazer silêncio em torno de si e dentro de si
."
(Arturo Graf)

A professora do Departamento de Lingüística, da UFPE, Nelly Carvalho, começou o seu artigo, no Jornal do Commercio, em 17.7.2009, com esta frase: "Propaganda é uma palavra de origem religiosa, criada para nomear o trabalho de divulgação da fé católica e que terminou tristemente designando a comissão da "santa" inquisição em passado distante, que é melhor esquecer."

Na revista Veja, de 2.9.2009, a ex-ministra Marina Silva diz que foi católica praticante por 37 anos. E acrescenta que isso foi fundamental para a construção do seu senso de ética. Mas ingressou na Assembléia de Deus, por uma experiência de fé, que não se deu pela violência. Foi um toque do espírito. E que essa mudança aconteceu em 1997, quando já fazia um ano e oito meses que ela não se levantava da cama, acometida por doenças graves.

Quando lhe perguntaram se ela é partidária do criacionismo em oposição ao evolucionismo, Marina respondeu que acredita que Deus criou as coisas como elas são. Mas não descrer da ciência, em nenhum momento. E diz mais: "Uma vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram se o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas. - Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo problema, porque os jovens vão
ter a oportunidade de fazerem suas escolhas. Jamais defendi a idéia de que o criacionismo deva ser matéria obrigatória nas escolas. Sou uma pessoa que tem fé. E acredito que Deus criou o mundo. Só isso
."

Eis aí as palavras de uma pessoa muito sofrida e cheia de fé religiosa. Que pratica a religião como boa cristã. Foi católica praticante, hoje é da Assembléia de Deus. Mas poderia pertencer a qualquer outra igreja. E seria a mesma pessoa de fé em Cristo.

No dia 19 de abril último, a Lucinha Peixoto escreveu um artigo com o título "Nossa Igreja evoluiu, mas não tanto". Ela disse muitas e muitas verdades sobre a Igreja Católica. Eu assino embaixo de tudo quanto a Lucinha escreveu. Por falta de espaço, deixo para comentar esse artigo da Lucinha noutra oportunidade. Ainda tenho muito a dizer a respeito.

Ora, quando se faz palestra numa escola gerida por uma religião e alguém aborda temas de religião, é porque religião é pra ser discutida. Fazem-se debates sobre temas religiosos, porque as religiões não foram criadas pra serem baús fechados a sete chaves, como muitos querem. De outro modo, se ninguém puder saber o que há dentro dos baús das religiões, supõe-se logo que eles não têm coisas boas. Porque, coisas boas, não se escondem. Divulgam-se. Quando os baús precisam permanecer fechados, nascem as desconfianças. Pululam nas cabeças das pessoas que coisas sórdidas se escondem nos baús.

Já que falei em escola adventista, linhas acima, vale lembrar que a Igreja Adventista é a mais radical, quanto à aceitação do evolucionismo nas suas escolas. E são os adventistas que mantêm a maior rede de escolas evangélicas no nosso país. E tentam passar a idéia de que o criacionismo tem suporte não só na fé, mas também em bases científicas. Enquanto isso, negam que a teoria da evolução das espécies seja fato cientificamente comprovado. Eles tentam enganar duas vezes. Porque a teoria da evolução tem larga base científica. E o criacionismo se sustenta só pela fé.

A Igreja Católica também vive e sempre viveu às turras com a ciência. Charles Darwin, se vivo fosse, poderia dizer o quanto sofreu, da parte dos católicos, pelo "atrevimento" de escrever "A origem das espécies". E assim foi com muitos outros que dedicaram grande parte das suas vidas à ciência, para que o mundo saísse do atraso crônico da Idade Média. Todos passaram por maus bocados. No mundo medieval, tudo era bom para Igreja Católica, que habitava o mesmo ninho de reis e rainhas. E dali, daqueles conchavos, saíam os papas, que são chamados "santos padres". Nem precisava ser sacerdote, pra ser papa. Bastava a indicação da igreja, mais o sinal verde da monarquia ou de outros governantes da época. Assim, eles já nasciam "santos padres"!
Tudo isso vem a propósito dos dois abortos legais feitos em duas meninas, aqui em Recife: uma de 9 anos e a outra com 10 anos de idade. Abortamentos ocorridos no espaço de um ano. Abortos legais, porque amparado nas leis do nosso país laico. E por que legais: porque, como decorrentes de estupros, estão previstos na lei penal brasileira (Código Penal - art. 128, II). E ganharam mais legitimidade, porque o crime foi praticado contra crianças, ainda mais, desnutridas. Razão por que aquelas gestantes, além de estupradas, corriam iminente risco de morte. Essa é a outra hipótese para o aborto, que está catalogada no nosso Código Penal, inc. - I, do artigo citado. E é aqui quem entram as ciências: ciências jurídicas e ciências médicas.

Mas a Igreja Católica não se conformou. Tentou meter a colher na nossa legislação. O arcebispo disse que a lei dos homens não vale. Que essa lei não deveria existir etc. Como se as leis das igrejas não fossem feitas pelos homens religiosos, com os mais variados pecados, afora outros interesses inconfessáveis.

No primeiro caso - estupro e gravidez da menina de 9 anos - ocorrido há um ano e pouco, houve a excomunhão de toda a equipe médica que fez o aborto, assim como da mãe da menina. Excomunhão anunciada com pompas e circunstâncias pelo arcebispo de plantão àquela época. - E nesse segundo episódio recente, da menina de 10 anos, num primeiro momento o atual arcebispo passou uma imagem até tolerante. Disse que a medicina e os médicos é que decidiam sobre o fato, juntamente com a família da criança gestante. Mas logo depois, veio a surpresa, quando o próprio arcebispo, dom Fernando Saburido, fez publicar uma nota nos jornais e mais um artigo no Diario de Pernambuco. O artigo saiu após a nota, no dia 18.4.2010, sob o título "Aborto e pedofilia". Ambos condenando veemente e radicalmente aquele aborto. E os abortos em geral. Só faltou ele excomungar as pessoas envolvidas, como fez o seu antecessor, dom Cardoso.

Por falar em excomunhão, Martinho Lutero, que foi perseguido pela Igreja Católica, foi excomungado pelo papa Leão X, em 3 de janeiro de 1521. Nem precisou de Código Canônico. Naquela época, as leis eclesiásticas valiam conforme os interesses de reis e papas, que eram irmãos de pai, mãe e parteira. Mas, cada qual mandava no seu rebanho. E qual o pecado de Lutero? - Os mesmos pecados dos papas e cardeais da época, em geral. Mas o que irritou a cúpula da Igreja foi Lutero não se haver retratado, após ter sido advertido pelo papa e ameaçado de excomunhão. Pois, em junho de 1520, Martinho Lutero havia enviado este seu escrito ao papa: "A liberdade de um cristão." Ao final, ele acrescentou esta frase: "Eu não me submeto a leis, ao interpretar a palavra de Deus." Por isso, teve como resposta a excomunhão. Contudo, Lutero também tinha seus interesses nos ganhos terrenos. Um deles: ganhar também com a venda das indulgências da Igreja Católica. - Falaremos disso noutra ocasião.

Confirmando a regra então vigente, Leão X nunca foi sacerdote. Mas foi papa, porque seu pai, Lorenzo de Medici, era o governante mais influente da República de Florença. Com sua influência e prestígio, Lorenzo de Medici pressionou o papa Inocêncio VIII. E este foi obrigado a nomear cardeal-diácono o futuro Leão X. Daí em diante foi muito fácil chegar a papa em 1513, aos 37 anos de idade. Tudo, por meio da força política dos mandatários do poder nos países europeus.

Mas, voltemos à nossa província: naquele artigo, dom Saburido saiu do tema aborto e foi logo para a pedofilia na Igreja Católica. E trouxe até estatística de que só 0,6% dos padres do mundo são envolvidos em escândalos sexuais. Ainda que essa estatística fosse verdadeira, esse percentual já é grande. Porém, é pena que o arcebispo não tenha continuado a falar do aborto. Poderia dar-nos uma estatística de quantos milhões de mulheres morrem de parto, juntamente com os seus bebês, por enfrentarem gravidez de alto risco, desde os primeiros dias da concepção. Também, deveria ter trazido estatística sobre mulheres estupradas. Mas o interesse de dom Fernando foi outro. Chegou a usar chavões dos políticos: falou em "orquestração", "fatos requentados", "mal-entendidos", "notícias tendenciosas" etc. Por que requentados se a cada dia surgem mais e mais escândalos? Mas, por fim, ele reconheceu que a Igreja tem erros e que é formada por homens e mulheres com virtudes e pecados. Menos mal.

Ele também falou da Igreja como instituição milenar, que a imprensa quer manchar. Mas como, se ela já é manchada? É fato que essa igreja é milenar. Mas a "santa" inquisição nem é tão milenar assim. Pois Joana D'arc (1412-1431), foi mandada viva à fogueira, em 1431, aos 19 anos de idade, em nome da "fé cristã". Fogueiras humanas, em nome da "fé cristã". E muitos outros e outras foram torturados, degredados e queimados vivos (Vide a era Torquemada - 1420 / 1498). É forçoso lembrar aqui, essa triste e tirana passagem do “dom” Tomás de Torquemada. Mas é melhor que se esqueça rapidamente, seguindo o conselho da professora Nelly Carvalho. - Por tantas e tantas mais, o atual papa Bento XVI, mandou, bem recentemente, que os "fiéis" façam muitas penitências, pra tentar apagar os pecados da sua "santa" Igreja. Mas o dom Fernando daqui não falou desses grandes pecados. Só falou dos outros pecados da Igreja, que também sempre existiram, em todas as idades, como os desvios sexuais dentro dela, que agora ganharam imensa repercussão, porque não dá mais pra tapar o sol com a peneira. Os episódios de Arapiraca, com padres libertinos em cima dos coroinhas, é só uma pequena amostra de tudo quanto já houve nos bastidores da Igreja Católica, em todos os tempos. Onde até freiras já fizeram aborto dentro de conventos. Mas tudo foi abafado, para preservar a "santa" igreja.

Continuando: se aquela menina de 9 anos tivesse morrido no decorrer da gestação ou na hora do parto, com os gêmeos que gestava, a Igreja iria dizer que "ela morreu porque assim Deus quis". Pois a Igreja usa essa lógica perversa para enganar os pobres que sofrem, que passam fome, que vivem na miséria etc. Segundo a lógica hipócrita da Igreja, tudo de ruim que acontece ao povo, acontece porque Deus quer. Assim ocorre com os milhões de crianças nascidas e que só vivem um dia ou dois. Morrem de fome e desnutrição. Mas, para a Igreja, foi Deus que tirou a vida dos famintos; dos sem-nada. Mas só o aborto é atentado contra a vida. Todas as demais mortes que acontecem nos pés dos padres ou a pouca distância das igrejas, são pela vontade de Deus, assim diz a "santa" Igreja. Essa é a lógica da fé cega. Lógica farisaica, que eu não aceito. Porque essa é a lógica da fé cega, faca amolada, parodiando o poeta.

No caso dessa menina de 10 anos, dom Fernando, em seu artigo, pôs-se a falar até como médico. Disse que a gravidez iria ser acompanhada e, no devido tempo, seria feita uma cesariana. Depois, ele passou para o campo da assistência social. Aí disse que, nascida a criança, alguém a adotaria, se a avó ou a mãe dela não a aceitasse. Só não falou que ela corria risco de morrer antes do / ou durante o parto, juntamente com a mãe. Mas, como já foi dito: se isso ocorresse, seria porque Deus quis. Assim é a lógica da Igreja.

A propósito, cito Lya Luft, que escreveu estas frases, há bem poucos dias, que devem ser ouvidas e guardadas: "Gravei a tristeza, a resignação, a imagem das crianças minúsculas e seminuas, contentes comendo lixo. Sentadas sobre o lixo. Uma cuidando do irmãozinho menor, que escalava a montanha de lixo. Criadas, como suas mães, acreditando que Deus queria isso." E continua: "Uma das crianças chorou e disse que tinha estudado até a 8ª série, mas então precisou ajudar em casa e foi catar lixo. 'Minha sina'", completou a criança faminta. - E essa aí, perguntou-lhe a repórter. E ela: "Bom, depende, tomara que não, mas Deus é quem sabe. Se Deus quiser..."

E Lya Luft termina dizendo que "Deus não quer isso. Que Deus não inventou a indiferença, a crueldade nem o mal causado pelos homens. Nem nos mandou desviar o olhar pra não ver o menino metendo avidamente na boca restos de um bolo mofado. Talvez a única refeição do dia."

Há poucos dias, só numa maternidade de Maceió, morreram doze neonatos numa só semana. Coisa de rotina, segundo o diretor da maternidade Santa Mônica, onde ocorreram os óbitos. Segundo ele, esse número está dentro da faixa de normalidade, porque representa só 10% dos recém-nascidos. E que todos vinham de gravidezes de algo risco. Ainda mais, ele foi zombeteiro ao afirmar que essa cifra está bem abaixo da média da Organização Mundial de Saúde (OMS), que considera normal morrerem até 20% dessas crianças.

Palavras cínicas do diretor de uma maternidade, numa cidade pobre e subdesenvolvida. Contudo, se perguntassem ao bispo diocesano de Maceió, ele naturalmente iria dizer que aquelas pobres crianças morreram porque essa foi a vontade de Deus.

Errar é humano, bem sei. Mas persistir no erro, conscientemente, é maldade ou burrice. O que condeno são as mentiras, as hipocrisias, o farisaísmo, a falsidade que visa à dar uma falsa capa de santidade a quem não tem nada de santo. É assim que se enganam os bobos. É isso./.

José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br

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