sexta-feira, 21 de maio de 2010

Aborto: ciência e religião (2)

"Sempre que faz algo de que se envergonha,
a pessoa diz que estava só cumprindo seu dever."
(Bernard Shaw.)




Dou seqüência ao tema acima, objeto de artigo publicado no dia 10.5.2010. Naquela ocasião, prometi comentar o artigo da Lucinha Peixoto, postado no dia 19 deste mesmo mês. A Lucinha falou de um tempo recente, em que o padre, de costas pra gente celebrava a missa em latim. Ou fazia que celebrava porque, sendo em latim, a gente nada entendia.

Lembro-me do padre Moisés Vieira dos Anjos, em Quebrangulo (AL), um autêntico puxa-saco de quem tinha meia pataca, naquela cidade muito pobre. O padre Moisés não se cansava de tanto fazer quermesses, e pedir dinheiro, sob a alegação de que era pra reformar a "casa de Deus", a igreja local.

Dia sim, dia não, ele usava o microfone pra dizer quanto seu fulano havia dado para a "casa de Deus". E ninguém via a reforma da igreja. Quando muito, ele mandava dar uma "mão de cal" nas paredes. E só. Digo isso e outras coisas mais, pra confirmar o que disse a Lucinha sobre o interesse das Igrejas pelas coisas materiais, em detrimento dos valores humanos.

Mas vamos à declaração de dom Fernando Saburido, de que haveria uma família pronta para adotar a criança, se não fosse feito o aborto (*). Essa afirmação insensata fez-me lembrar das palavras estapafúrdias e agressivas, atribuídas a um suposto padre, de nome Luiz Carlos Lodi da Cruz. As palavras de Lodi da Cruz foram-me encaminhadas, em abril de 2009, pelo senhor José Antonio Taveira Belo, da Academia Pedro de Lara, do portal de Bom Conselho, com o título "A mensagem católica". E veio com comentários daquele colunista. Dizendo tratar-se de uma carta, onde era feita a defesa do arcebispo da época, que proclamou a excomunhão da equipe médica do Cisam, assim como da mãe da menina de 9 anos, em quem havia sido feito o abortamento legal, em 4 de março de 2009.

{(*) – Dom Saburido não previu que poderiam morrer antes do ou durante o parto, tanto o feto do ventre, quanto a menina que a gestava.}

A pretensa carta de Lodi e os comentários de quem a enviou, foram objeto de resposta minha, em maio de 2009. E está na coluna que também assino – uma deferência do Saulo –, na Academia Pedro de Lara, sob o título "Carta e mensagem", que os leitores podem ver facilmente. Assim como, podem ler a que lhe deu causa, na coluna de José Antonio Taveira.

Daquela pretensa carta, pinço apenas estas frases, que considero tenebrosas, além de acintosas. Vejamos: "As crianças geradas de um estupro costumam ser alvo de um carinho especial de suas mães. Longe de perpetuar a lembrança da violência sofrida (como dizem alguns penalistas), o bebê serve de doce remédio para o trauma do estupro. Podendo doar o bebê após o parto, elas se assustam só de pensar em ficar longe dele. Tremem ao se lembrar que um dia cogitaram em abortá-lo." (???)

É ou não um raciocínio INFELIZ? De onde esse pretenso padre tirou tão infames convicções? Deve ter dedicado toda a sua vida atendendo como terapeuta a mulheres estupradas, que optaram por criar o filho, fruto do estupro. - A resposta cabe aos leitores.

Se esse senhor Lodi é padre ou não, tanto se me dá! O que receito pra ele, é uma forte dose de semancol. Porque, afora essas barbaridades acima transcritas, a suposta carta traz uma enxurrada de tentativas de enganação. Além de flagrantes desrespeitos à equipe médica e à mãe da criança de 9 anos, em quem o aborto fora feito. É de se supor que o cristianismo não precisa de católicos que raciocinam desse modo.

De outra parte, a Lucinha opina favoravelmente sobre temas que as igrejas condenam radicalmente. Eu concordo com ela em tudo. E vou mais além, ainda que hoje quase só haja espaço para o celibato e bens matérias das igrejas. Assim, discordo do celibato, porque é um típico engodo. Ora, dos cinco seminaristas com quem convivi nos meus tempos de curso secundário, três se ordenaram padres e dois pularam fora antes da ordenação. E casaram. Dos que se tornaram sacerdotes, dois desistiram nos primeiros oito ou dez anos, atraídos pelos encantos das mulheres.

O que resistiu muito tempo foi o padre Reginaldo Veloso, muito conhecido, aqui na paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Mas Reginaldo, também, não se conteve, com justas razões. Foi rendido por uma mulher, coisa muito natural. E Reginaldo tentou desligar-se das funções eclesiásticas civilizadamente. Mas o Vaticano, orientado por dom Cardoso ou dom Dedé, botou o pé na parede, só pra implicar com ele. Naturalmente, porque o padre Reginaldo sempre trabalhou com os pobres, o que desagradava a dom Dedé. A despeito de tudo, Reginaldo saiu, casou, tem filhos e continua trabalhando na comunidade do Morro da Conceição, onde é muito querido.

Quantos e quantos padres não sentem esses mesmos desejos naturais da fisiologia humana, talvez o mais forte, que é o desejo de sexo? O saudoso promotor de Justiça, Nelson Souto de Araújo, costumava dizer que as forças mais fortes dentro de nós, são a forme e o sexo. Posto isso, por aí se vão de água abaixo as vocações sacerdotais, de que tanto se falava. - Relembro aqui e passo pra vocês, palavras de um padre alemão, que foi meu professor de zootecnia, por quatro anos, num curso equivalente ao antigo ginasial. Ele era padre, médico e veterinário. E nos disse isto, mais de uma vez, na sala de aulas, quando o debate propiciava, com toda seriedade. Eis aí as palavras dele: "O maior prazer terreno é o prazer sexual." Por questão de ética, não posso citar o seu nome.

Outro padre e grande educador, francês, mas que também veio para o Brasil, proferiu esta sentença, que está no livro "Amor - sexo e segurança". Por ser de domínio público, posso citar os nomes. Trata-se do padre Paul-Eugène Charbonneau, que escreveu em conjunto com a psicóloga madre Cristina Maria. Eis a máxima: “Aqui achamos a dificuldade do nosso mundo contemporâneo, no qual os valores do amor são praticamente destruídos, onde se imagina a felicidade no gozo mais intenso, que é o sexual”. (Grifo meu). Não duvidemos das palavras desses mestres do saber científico. A afirmação de padre Charbonneau e madre Cristina, confirma as palavras do meu antigo professor. São esses autores que dizem: "... no gozo mais intenso, que é o sexual." - Não me perguntem como é que os padres e as freiras sabem disso. Porque eu também não sei responder. Apenas sei que eles são tão humanos como nós outros. Padre Charbonneau e madre Cristina, eu os conheci em dois congressos – um em Salvador e o outro em São Paulo. Ambos foram grandes educadores. E é assim que os reputo.

Entendo as razões de Charbonneau e madre Cistina, ao dizerem que "os valores do amor são praticamente destruídos". Eles eram religiosos (porque faleceram faz poucos anos) e não deveriam posicionar-se de outro modo, em face da visão caolha da Igreja Católica. Contudo, pelo título da obra, vê-se que o objetivo é tratar de amor e sexo. E é disso que o livro trata. E sexo bem feito traz segurança àqueles que o praticam. Sexo não destrói o amor. Sexo se faz com amor. Em que pese, muitas e muitas vezes, obedeçamos mais ao instinto. Porém, mesmo quando o instinto puramente animal fala mais alto, não deixa de existir um entrelaçamento amoroso no ato sexual.

De outro modo, vamos dar mais uma voltinha no tópico que trata dos valores materiais nas igrejas. Como sabemos, existem as "Santas Casas de Misericórdia", que são administradas pela maior autoridade eclesiástica, em cada recanto onde elas se façam presentes. No nosso caso, essa autoridade é o arcebispo de Olinda e Recife. E a "Santa Casa", aqui, é dona de uma imensidão de terrenos, que os explora como bem quer. No artigo da Lucinha, foi perguntado sobre quantas creches caberiam no terreno onde está o Hospital da Tamarineira, pertencente à "Santa Casa". Porque há projeto bem adiantado, para transformar aquele parque em condomínio com algumas centenas de residências. Ou shopping com centenas de lojas etc. Notem que são 91.375 metros quadrados de área, que foi tombada em 1992, pelo Conselho Estadual de Cultura.

E o arcebispo atual também está muito animado com o novo empreendimento. Deu entrevistas nas emissoras de rádio, dizendo que vai ser bom pra todos. Não sabemos quem são esses todos. Porque sua senhoria não deixou claro quanto às conseqüências para o meio ambiente; e não falou nos problemas viários que advirão com o enorme aumento do fluxo de automóveis, quando o projeto virar realidade. E os pobres albergados, em torno de 170, que ali habitam e são doentes mentais, que destino terão? E os cerca de 2.000 que são atendidos por mês na emergência do hospital, em que portas irão bater?

Em que pese, dom Saburido reafirmou, em nota, que tudo ali pertence à "Santa Casa". E tudo que lá for construído será incorporado àquele patrimônio, que continuará de propriedade da "Santa Casa". Imagine-se a renda com aluguéis etc. Por isso mesmo, o arcebispo se manifestou a favor do projeto.

Vejamos mais: todo o complexo do Instituto Materno Infantil de Pernambuco - Imip, também está num terreno dessa "Santa Casa". Razão por que o arcebispo anterior, teve tanta força para mandar chamar o diretor-superintendente do Imip, ao palácio dos Manguinhos. E dizer a ele que o aborto da menina de Alagoinhas não poderia ser feito. O diretor obedeceu ao bispo e o aborto não foi feito lá.

O Cisam, que assumiu fazer e fez o aborto na menina de 9 anos, é uma unidade do Hospital Oswaldo Cruz. Toda aquela área onde está o Oswaldo Cruz, também pertence à "Santa Casa". Mas nem o diretor do Oswaldo Cruz, nem o reitor da UPE, deram ouvidos à sua excelência, o antigo arcebispo. E o pessoal do Cisam, fez o aborto, de conformidade com a nossa legislação. Mesmo tendo o Hospital Oswaldo Cruz, urgência para renovar um contrato de concessão. Sem a renovação, o hospital não poderia receber uma verba do Ministério da Saúde, já assegurada. Mas a renovação foi feita, pois o arcebispo não quis peitar o ministro da Saúde.

Quase nada sei da história das "Santas Casas de Misericórdia". Sei apenas que é uma herança vinda de Portugal, juntamente com os navegadores portugueses que desembarcaram no Brasil, em 1500. E que os terrenos eram doados, por simples vontade unilateral do governador de cada província, que mandava lavrar a escritura. Assim, mais de um terço dos terrenos de Olinda e Recife, pertence à "Santa Casa". Na Ilha do Leite, Coelhos, Boa Vista, Santo Antônio, São José, Afogados, Santo Amaro, quase todos os terrenos ali são de propriedade da "Santa Casa". Tanto que não foi nenhuma surpresa saber que o imenso sítio, onde está instalado o Hospital Ulisses Pernambucano - Tamarineira -, também pertence a ela.

E o que é feito da renda desses terrenos – impostos e quaisquer outras transações comerciais? Se as “Santas Casas” são proprietárias, podem fazer o negócio que bem entendam. Podem negociar e barganhar a seu bel-prazer. Para tanto, tem uma escritura na mão. Mas esses prepostos das "Santas Casas" dizem que os seus precários hospitais, como o Hospital Santo Amaro e mais uns poucos, igualmente mal cuidados, sobrevivem do dinheiro repassado pelo SUS, mais as doações da população. Fica difícil entender para onde vai essa dinheirama toda.

Creio que o Carlos Sena, que abordou tão bem esse tema, ainda há pouco, entende muito mais de “Santas Casas” do que eu. Detalhe: eu já sabia que as casas do Alto do Colégio, em Bom Conselho, pertencem àquela irmandade de religiosas do colégio de lá. Apenas o Carlos Sena nos lembrou em boa hora. E mais: quem quiser comprar uma daquelas casas, compra só as paredes e a coberta. Porque os terrenos são das freiras, por séculos e séculos, amém!

Sei que boa parte do dinheiro da Igreja Católica, ao menos nos EUA, está sendo usado pra pagar ações judiciais a quem se apresenta como molestado por padres das comunidades de lá. E isso está ocorrendo, também, em outros países mundo afora. Se há espertalhões se aproveitando e pedindo indenizações por danos que não sofreram, aí é com eles. - Voltarei ao assunto, falando de controle da natalidade e algo mais. É isso./.

José Fernandes Costa – jfc1937@yahoo.com.br

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