segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dunga e os nossos craques



Eu nunca gostei de Dunga como jogador e muito menos como treinador. Ora, dirão os pragmáticos de plantão, ele é um vencedor, pois foi campeão em 94, na Copa América, Copa da Confederações e outros torneios menores, além de sua trajetória como jogador. O importante é vencer a Copa do Mundo, trazer o caneco, “beber cachaça na taça”, como dizia o Pilão, beque central do Vera Cruz de Bom Conselho, e o jogador mais pesado que já vi jogar, quem lembra sabe que ele deveria ter mais de 100 quilos, distribuídos harmoniosamente pelo seu 1,70 de altura.

Eu gosto muito de futebol, todos que me leram aqui neste Blog sabem, mas o objetivo do nosso esporte “anglo-saxão”, ou mesmo de todos os esportes, não é só vencer. Isto não tira a importância das vitórias e devemos sempre persegui-las, no entanto, não a qualquer preço. E um preço muito alto para obter uma vitória, mesmo que seja numa Copa do Mundo, é a “dignidade” do futebol. O que diabo vem a ser isto?

Contam os historiadores do futebol que na copa de 1938, o ditador italiano Benito Mussolini teria dito aos jogadores da seleção italiana antes da copa: “Vão e vençam! E, se perderem, não voltem à Itália”. A Itália venceu em 1938. Que fizeram os jogadores? Se só jogaram bem e se esforçaram, nada a reclamar, muitas vezes se incentiva ameaçando, no entanto terá sido só isto mesmo? Se houve outros atos, a “dignidade” do futebol foi ameaçada.

Eu vi na copa do mundo de 1998, na França, o nosso Edmundo, o “animal”, reclamar de outro jogador da seleção, não me lembro qual, por ele ter retribuído uma gentileza de um jogador adversário, dizendo que estávamos perdendo e que aquela gentileza iria nos prejudicar. Talvez, seja por isso que o chamam de “animal”, pois certos valores estão acima das vitórias, e para mim, retribuir um gesto de gentileza é um deles. Mais uma vez a “dignidade” do futebol, foi ameaçada, e, como perdemos, ainda tem alguns que dizem: “Se tivéssemos seguido a orientação do Edmundo, talvez tivéssemos vencido”. Pode até ser verdade, mas o futebol brasileiro seria menos digno.

Existem ainda aqueles casos onde a “dignidade” cresce e só nos orgulha. Quando o presidente Médici sugeriu que o João Saldanha levasse para copa de 1970 o Dario peito de aço, que dizia: “Eu me preocupo tanto em fazer gols, que não tive tempo de aprender a jogar futebol”, e ele respondeu que o presidente mandava lá no Planalto, na seleção mandava ele, estava “dando murro em ponta de faca”, mas agiu com dignidade dentro do esporte. Veio Zagalo e levou Dario, mostrando que “para cada problemática sempre há uma solucionática.” Graças a Deus Dario não chegou a jogar, e mesmo com a dignidade abalada, o futebol brasileiro venceu a copa.

Ainda há o Telê Santana que só dignificou nosso futebol. Todos falam da seleção de 1970, mas eu sou mais fã daquelas treinadas por ele em 82 e 86. Ele se recusou a mudar um padrão de jogo que foi um dos mais bonitos já praticado pelo Brasil, e mesmo perdendo, fez mais pelo nosso futebol, pela sua dignidade, do que Zagallo, Parreira, Coutinho e outros procuradores de vitórias.

Mas voltemos ao Dunga e a Copa do Mundo deste ano. Até agora ele venceu. Mas, convenceu? Pelo menos a mim, não. Eu sempre começava a ver os jogos com a sensação de que iríamos perder o jogo, mas isto não tem problema, pois o mesmo ocorria em 2002, com o Filipão, e depois a seleção mostrou que podia jogar bem. O problema, era que além da sensação de que iria perder, havia outra: aquela de que não haveria um jogo de futebol, e sim gols e jogadas casuais, por parte de alguns jogadores. Terminou dando certo. Mas eu não gostei desta seleção do Dunga.

Esperei que nesta convocação o Dunga deixasse esta mesmice de lado, chamando alguns craques que surgiram agora, principalmente no time do Santos. E chamasse o nosso craque Ronaldinho Gaúcho. Quando vejo o Santos jogar hoje, lembro muito do nosso velho futebol, alegre, bagunceiro, craque, artista, eficiente, do passado. O Dunga convoca o Luiz Fabiano, que mais parece o Dario, sem o peito de aço, e sem parar no ar como um beija flor. Convoca Kaká doente e deixa o Ganso (sem trocadilho) de fora. Convoca um jogador que um apresentador de TV não sabia dizer o nome, nem eu, o “Michel” Bastos. Seria “maico” ou “michel”? O apresentador falou o primeiro e um comentarista o segundo. Pelo que ouvi depois o segundo é que está certo. Talvez, até a copa aprendamos seu nome, ou o que é mais provável, mesmo depois dela ninguém saberá.

Mesmo assim seria possível mudar o padrão de jogo de nossa seleção com o jogadores convocados, entretanto, dificilmente a “coerência” de Dunga, jamais permitirá isto. E, espero, que vençamos, embora preferíssemos ganhar com um futebol a altura dos vencedores, dentro da dignidade do esporte.

Jameson Pinheirojamesonpinheiro@citltda.com

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