quinta-feira, 6 de maio de 2010

Um dia de heroína



Eu contei em minha última crônica como foi minha viagem, não digo fugindo de São Paulo, porque não havia nenhuma ameaça direta à minha vida. Se quisesse poderia ter lá ficado, sem saber avaliar hoje como estaria minha vida. O ditado que diz que não devemos chorar sobre o leite derramado, não é só porque o passado não volta, e sim porque, quando retorna o leite, normalmente, está sujo.

Existiram outros fatos, nesta viagem, alguns pitorescos, outros curiosos e que merecem minha atenção. Este que narrarei aqui não é curioso, mas chocante. Ele não é raro no mundo dos acontecimentos, mas eu nunca tinha presenciado algo igual. Talvez o espanto que me tomou ao presenciá-lo tenha sido devido à minha pouca vivência em viagens. Mas, pela reação de outras pessoas que viajavam comigo, aquele não seria um fato corriqueiro.

Havia um mulher no ônibus de nome Djanira. Durante as mais de 50 horas de viagem a tratei como D. Djanira. Ela parecia mais velha do que eu e a condição de mãe de um menino de menos de um ano, que era para lhe dar um ar alegre, parecia lhe tirar o brilho dos olhos. Conversa vai conversa vem, soube que uma das coisas que a incomodavam era a saúde do seu filho, desde que ela entrou no ônibus.

O porquê dela teria viajado com um filho doente, ela não disse mas também, ninguém perguntou. Eu apenas imagino que para agir assim, arriscando naquele inferno astral da viagem ainda mais a vida do seu filho, não era uma viagem de lazer. E pelo que ela me contou da vida dela, daria para deduzir a necessidade premente daquele ato.

Eu me aproximei dela para fazer um carinho na criança. Apesar de nunca ter sido mãe, sempre fui apegada e carinhosa com as crianças. Ela chamava o menino de Toninho, cujo nome real deveria ser Antônio, ou mesmo Tony, vai-se saber! Reproduzo o nosso diálogo abaixo, levando em conta o tempo, que a D. Djanira, se ainda viva me perdoe algum esquecimento:

- Como é o nome dele!?
- É Toninho.
- Ele tem que idade?
- Vai completar um ano ainda, se Deus quiser.
- Ele é tão bonitinho, parece um anjo.
- Puxou ao pai, aquele cachorro. Era bonito mas era um cachorro. Me enganou de todas as formas. Era casado com outra e me prometia o céu com as estrelinhas.
- Ele ficou em São Paulo?
- Ficou. Quer dizer. Penso que ficou. Faz um tempo que não o vejo. Depois que descobri a safadeza dele, nunca mais apareceu. Eu já estava grávida de seis meses do Toninho, depois deste tempo não vi mais ele.
- Nossa!!!
- Minha filha, dizem que homem é tudo igual. Não é. Igual aquele não existe. Eu não sei como alguém tem coragem de enganar outro como ele fez comigo. Mas, pensando bem a culpada também fui eu. Quem manda ser burra e tapada? Nesta vida é realmente verdade que quando a esmola é demais, até o santo deve desconfiar. Eu sonhei demais e não desconfiei de nada. Eu sou de Caruaru lá de Pernambuco e resolvi vir para São Paulo tentar uma vida melhor. Fui para casa de uns amigos, depois arranjei emprego numa fábrica. Estava indo bem e feliz. O salário dava para pagar um quartinho e me divertir de vez em quando. Ai eu conheci o desgraçado. Você sabe como é, mulher sem homem não está completa, era o que eu pensava. Sonhava em casar e ter filhos. Para resumir a estória, não casei mas ele me botou o Toninho no bucho, e desapareceu, como lhe falei!
- Ele conhece o Toninho, D. Djanira?
- Conhece nada, minha filha. Não estou dizendo que depois que estava com seis meses ele desapareceu!? Grávida, me botaram prá fora do emprego. E quem disse que eu, com aquela barrigona arranjaria outro? Graças a um casal bondoso e piedoso encontrei um emprego de doméstica ainda quando a barriga estava pequena, e mesmo depois que a barriga começou a crescer D. Joana pediu ao marido que deixasse eu ficar. Teve dó de mim e eu vou ser grata a ela por isso para o resto da minha vida. Tive o Toninho ainda quando estava na casa deles, como eles não tinham filhos se apegaram ao menino e o criaram quase como filho até pouco tempo atrás.
- Ainda bem, não é, D. Djanira. Ainda existem pessoas caridosas neste mundo.
- Deixe eu acabar a estória e você, minha filha, vai duvidar disso. Certo dia D. Joana veio com uma história de registrar o menino e perguntou se eu não queria que eles adotassem o Toninho. Disse que não. Deus me livre de dar meu filho a alguém. A partir daí tudo mudou. Faltava até leite para o Toninho. Fiquei desconfiando de tudo e a situação chegou a um ponto que, com um dinheirinho que tinha guardado de minha indenização resolvi ir embora prá minha terra. Lá eu dou um jeito de criá-lo.

Durante esta conversa coloquei a mão no rostinho da criança e vi que ela estava febril. Um pouquinho abatido e D. Djanira disse que ele estava com vômito e diarréia. Perguntei a ela o que ela achava que o neném tinha. Ela não soube responder.

Ao chegar ao Estado de Sergipe na cidade de Própria. Paramos para o almoço. Então eu ouvi um grito: Oh meu Deus!!! Olhei e vi que era D. Djanira que completava:

- Pelo o amor de Deus, acudam aqui que o meu filho está morrendo!!!

Ao dizer isto, chorando, todo mundo se dirigiu a ela e viu a pobre criança se debatendo como se tivesse uma convulsão. Então eu disse:

- Essa criança tem que ir a um médico, urgentemente.

Todos concordaram com minha fala, menos o motorista do ônibus, que mesmo não dizendo nada a respeito disse:

- Estamos de saída, eu tenho um horário a cumprir!

Foi aí que eu tive certeza da sabedoria de D. Djanira ao dizer que não existe, ou é muito difícil encontrar pessoas boas neste mundo. Aquele motorista não deveria ter filhos, mas eu também não tinha e sentia que daquela pressa em partir poderia depender a vida de uma criança. Mas, ele não estava nem aí. Dirigiu-se á seu trono de rei da direção e buzinou como chamando para a partida. Foi neste momento que me transformei numa heroína sem nunca ter sido, e talvez sem continuar a ser, depois deste episódio. Igual uma Joana D’Arc sem méritos divinos, me voltei para os outros passageiros e rasguei o verbo:

- Vocês acham que isto está certo!? Arriscar a vida de uma criança para cumprir um horário deste maldito ônibus, que nos faz sofrer há dois dias. Eu sei que todos aqui tem compromissos, horários a cumprir e outras coisas. Mas, coloquem-se no lugar de D. Djanira. É uma mãe desesperada com o risco de morte do seu filho. Enquanto o motorista quer continuar a viagem sem nem tomar conhecimento disto. Eu proponho que todos fiquem fora do ônibus, até ela levar o filho dela ao médico e, se Deus quiser voltar e seguir com a gente. Se este senhor sem coração quiser, que cumpra os horários dele sozinho.

Houve um silêncio, mas o Anselmo, o cantor, que ainda estava no ônibus olhando pela janela, levantou-se se dirigiu à porta, desceu, e disse:

- A moça está certa, e se este cara quiser tirar ônibus daqui, eu não deixo!

Talvez tenha sido a única vez que fui aplaudida de pé, isto porque ninguém poderia sentar no chão ao redor do ônibus. Só sei que fiquei muito contente em ser heroína por um dia, ou por alguns minutos. Não me lembro de ter sido outras vezes.

Para terminar, nem o motorista saiu, nem Toninho morreu. Foi a um médico que disse ser a convulsão da febre, receitou algum remédio para baixá-la e disse o que todos os seus colegas dizem quando não tem certeza do que é o mal de alguém:

- Foi uma virose! Isto acontece muito nesta idade.

Eliúde Villelaeliude.villela@citltda.com

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